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Política

Palacio junta simbolismo e
pragmatismo em São Caetano

DANIEL LIMA - 16/10/2020

Um fio condutor aparentemente inédito no Grande ABC liga o motor de combustão da candidatura de Fabio Palacio à Prefeitura de São Caetano. Ao nome da família mais vitoriosa do empreendedorismo privado da região ao longo do século passado (os Klein) se acrescenta uma ação de diagnóstico preliminar do comportamento econômico de São Caetano nos últimos tempos.  

Trocando em miúdos: finalmente um candidato municipal na região não trata o Desenvolvimento Econômico com desdém. Mais que isso: daria um cavalo de pau numa atividade institucionalmente congelada e abraçaria para valer o desenvolvimentismo em substituição ao sucateamento econômico de décadas. 

Ou seja: a viseira do triunfalismo que vem do passado de glória, mas que não se justifica porque não se sustenta há muito tempo, finalmente foi retirada por uma candidatura ao posto máximo municipal. 

Vencedores conhecidos   

Não tenho ideia ainda do que vai dar a corrida eleitoral em São Caetano. E acho que poucos têm perspectiva traçada que chegue à conclusão peremptória. Como se não bastasse a dinâmica humanística e tecnológica antecedente às urnas, há um nó jurídico envolvendo a tentativa de reeleição do prefeito José Auricchio, cujo desfecho ganha amplitude de alternativas. E uma das estradas vicinais é a eleição a ser realizada em 15 de novembro, que pode valer tanto quanto um tostão furado. O que significaria, portanto, uma nova disputa determinada pelo Tribunal Superior Eleitoral.   

Seja qual for o resultado das desavenças jurídicas, São Caetano insinua já contar com um vencedor inapelável, embora com larga defasagem temporal em relação às necessidades implícita e explicitas: o morador da cidade. 

Por que dobram os sinos eleitorais a favor dos moradores de São Caetano se as eleições são uma incógnita e tudo pode acontecer?  

Porque a candidatura de Fabio Palacio expressa finalmente o despertar de consciência ainda preliminar, mas provavelmente permeável ao longo dos próximos tempos, de que sem Desenvolvimento Econômico não existe saída.  

Socialismo boquirroto  

São Caetano possivelmente não seguirá a trilha de um socialismo boquirroto, no qual o protagonismo é cada vez mais do Estado, em forma de Prefeitura, na arrecadação de impostos. A livre-iniciativa não seguiria, portanto, amordaçada e fugidia, quando não inapelavelmente batida.  

Já escrevemos muitas análises mostrando e provando com dados irrefutáveis o quanto São Caetano (e o Grande ABC como um todo uníssono, porque igualmente desorganizado, ganancioso e matreiro) vem elevando a carga tributária própria em relação ao PIB (Produto Interno Bruto) e aos repasses estaduais – em forma de ICMS.  

É claro que os valores do PIB Privado são superiores no conjunto gerador de riqueza, até porque abarcam todas as atividades produtivas, mas não podem ser avaliados sem cuidados restritivos. Nem todo PIB Privado construído em São Caetano permanece em São Caetano. A cadeia de produção e a soma de assalariamentos, por exemplo, significam vazamentos a outros endereços. São Caetano não é uma ilha.  

Por outro lado, o PIB Público de São Caetano e de qualquer outro Município brasileiro é resultado de políticas públicas locais, estritamente locais. A carga do IPTU, por exemplo, elevadíssima em São Caetano (e no Grande ABC como um todo) em relação aos repasses do ICMS (que são consequência da dinâmica consumista) é cada vez mais expressiva no balanço de receitas relativas. 

 Isso tem um sinônimo inquestionável: sobrecarga financeira às famílias e empreendimentos em desacordo com a temperatura dos negócios e das rendas em geral.  

Carga tributária  

É muito importante essa distinção de fatores que influem no produto de medidores econômicos. A tradução disso tudo é que São Caetano (como o desindustrializado Grande ABC como um todo) está extraindo dos moradores cada vez mais dinheiros em relação ao que produz e recebe de terceiros.  

Há simbiose maléfica nisso tudo porque na conta de chegada o que temos (e isso já faz tempo) é uma cidade em processo de permanente queda de competitividade econômica.  

Não foi por outra razão (e nesse caso olhando para o Grande ABC como um todo), que criei o G-22, o Clube dos Maiores Municípios do Estado de São Paulo. Nesse ranking de dezenas de indicadores, São Caetano (e o Grande ABC como um todo, mas de forma diferente em impactos) cai pelas tabelas. São Caetano é espécie de candidato a Jabaquara.  A caminho de Tabajara Futebol Clube.  

Empreendedor valorizado  

Agora vem a candidatura de Fabio Palacio. O ex-vereador chamou como reforço um integrante da família Klein, Saul, e, reboca um economista ainda não identificado, para dar o seguinte recado: acabou a brincadeira, em forma de descaso, com o potencial ainda permeável de gerar investimentos produtivos e recuperar as margens de empregabilidade de um Município que cada vez mais (como o vizinho Santo André) perde cérebros para a Capital ao não conectar transformações demográficas e Desenvolvimento Econômico.  

O simbolismo (além da experiência e do conhecimento local) da família Klein e o pragmatismo de botar a mão na massa de dados estatísticos que abrem caminho a medidas corretivas são faróis que encontram o mesmo objetivo político-administrativo, seja qual for o vencedor final da disputa em São Caetano. E esse objetivo é a valorização do empreendedorismo privado conjugado com o uso profissional e apartidário de informações que desnudam a São Caetano ainda sonegada em termos de fragilização do tecido econômico. 

Trava de segurança  

Talvez nesta altura do campeonato São Caetano seja o único exemplo de uma espécie de trava de segurança que se impõe ao descarrilamento político em forma de atravancamentos legais. Ou alguém tem dúvidas de que o legado gerado pela combinação de empreendedorismo à flor da pele e diagnóstico destilador de valorização de dados históricos dará novo tom ao futuro de São Caetano?  

O rompimento dessa barreira de comodismo que vem antes mesmo deste novo século, mas que se agravou neste novo século, parece latente. Finalmente será possível imaginar que, por exemplo, a USCS (Universidade Municipal de São Caetano) estará em sintonia com as prioridades econômicas do Município de tal forma que a agenda de produtos acadêmicos invada o terreno da efetividade de ações.  

No fundo, o que poderemos ter no futuro próximo, independentemente dos resultados eleitorais e do possível engajamento de acadêmicos locais a causas mais efetivas, será a constatação da qual não abro mão porque me parece a mais sensata não só a São Caetano como também ao Grande ABC como um todo: a contratação de uma consultoria internacional ou nacional de reputação intocável para preparar medidas de infraestrutura teórica e prática que recolocariam a cidade no rumo da competitividade perdida. Sem chutometria.  E sempre contando com profissionais locais que conhecem a cultura municipal e regional. 



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