Economia

Fará Morando o que Paulinho
Serra prometeu e não cumpriu?

  DANIEL LIMA - 29/09/2020

O prefeito Orlando Morando precisa fazer em São Bernardo, num provável segundo mandato, o que Paulinho Serra prometeu (e não cumpriu) em Santo André a este jornalista e a um grupo de empreendedores voluntários como eu: contratar uma consultoria de preferência de conhecimentos em competitividade internacional  para readequar a realidade econômica de São Bernardo aos novos tempos. Novos tempos é força de expressão, porque tudo começou há muito tempo. O passado faz história, mas não garante o futuro.  

Espero sim e com alguma confiança que o próximo prefeito de São Bernardo (e tudo indica que será o atual, Orlando Morando) dê início a uma empreitada histórica que os antecessores jamais empreenderam: expressar na prática uma resposta efetiva, incisiva, impetuosa, e tudo o que lembre reestruturação, em favor da economia local.  

Capital Econômica do Grande ABC, São Bernardo puxou neste século o processo de desindustrialização regional tanto em termos absolutos quanto relativos. É uma locomotiva às avessas. Uma Maria-Fumaça diante do trem-bala de concorrentes municipais no Estado de São Paulo, entre outras unidades da Federação.  

Um terço da inflação 

Na última década, entre janeiro de 2010 e dezembro de 2019 (os dados são fresquíssimos), o Valor Adicionado de São Bernardo não passou de crescimento nominal de 25,67%, enquanto o IPCA do IBGE chegou a 76,31%. Ou seja: o avanço nominal do Valor Adicionado se deu em velocidade três vezes inferior ao crescimento da inflação. Uma desindustrialização dos infernos, se querem saber.  O empate já seria mal resultado. Perder de três a zero é demais.  

Exatamente porque São Bernardo é a Capital Econômica do Grande ABC a liderança do prefeito Orlando Morando é essencial à rápida instalação de ambiente de reforma desenvolvimentista tendo a livre-iniciativa como inescapável solução.  

Mecanismos devem ser ativados por gente especializada no ramo e sem ranço ideológico para botar o trem da recuperação gradual e efetiva nos trilhos.  

Mais apetrechamento  

Chegamos ao fim da segunda década deste século com diagramação comprometidíssima com o descalabro. O próximo prefeito de São Bernardo precisa dar um jeito nisso, independentemente de ações regionais. Não interesse se o próximo seria o atual. Mas o atual pinta como o próximo. E como tal estaria supostamente mais comprometido com a iniciativa.  

Como assim? Mais comprometido? Afinal, Morando conta com a vantagem de não multiplicar passivos que vão além da linha do meio de campo estritamente econômico como seu principal rival, o sindicalista Luiz Marinho.  

A força-motriz da economia de São Bernardo seria o ponto de partida motivacional e institucional para que o Grande ABC desperte de um pesadelo que os agentes públicos insistem em desprezar: estamos comprometendo cada vez mais o futuro que chega no calendário gregoriano de ano após ano sem que se aponte no horizonte uma perspectiva de mudança.  

Gravidade em São Bernardo 

O caso de São Bernardo é o mais grave quando se toma o Valor Adicionado como referencial. Essa métrica define a agregação de riqueza de produtos e serviços que somente dois anos depois surgirá nos dados sempre atrasados do PIB dos Municípios Brasileiros. Nos números do ano passado São Bernardo reagiu com algum vigor em relação ao ano anterior. O crescimento nominal de 9,30% para uma inflação de 4,31% significa algum respiro, mas não muito. A dependência para o bem e para o mal (mais para o mal, como se tem visto) do setor automotivo justifica o resultado.  

Mas não seria o fôlego curto de uma temporada de reação, como se verificou, que muda a ordem das coisas. Num período mais longo e por isso mais adequado e seguro a comparações (que abrange a última década, de 2010-2019 tendo 2009 como base de dados), a queda do Valor Adicionado de São Bernardo em termos reais é gigantesca.  

 Na temporada de 2009 o Valor Adicionado de São Bernardo registrava R$ 25.153.830 bilhões. Dez anos depois, ou seja, em 2019, se aplicada apenas a inflação do IPCA do período (ou seja, sem ganho nenhum), o Valor Adicionado de São Bernardo deveria chegar a R$ 44.348.717 bilhões. Entretanto, como só registrou R$ 31.610,621 bilhões, a perda líquida em termos monetários é de R$ 12.738.096 bilhões. 

Municípios a menos  

Sabem os leitores o que significa perda líquida desse montante? R$ 12.738.096 equivale a toda a riqueza embutida no conceito de Valor Adicionado de Diadema e de Ribeirão Pires juntas em 2019. Traduzindo: a riqueza perdida por São Bernardo significa uma Diadema e uma Ribeirão Pires de Valor Adicionado na temporada passada. Faltou pouco para que perdesse o equivalente ao Valor Adicionado de Santo André anotado no ano passado.  

Vou tomar o confronto entre São Bernardo e Santo André nos termos do Valor Adicionado de 2009 e 2019 como exemplo do quanto a economia do Grande ABC sofreu reveses no período.  

Faço essa comparação porque os dois municípios têm assombrações a combater, embora no caso de Santo André a situação seja menos escandalosamente grave.  

Doenças Holandesas  

A assombração de São Bernardo é a Doença Holandesa Automotiva (ou seja, a dependência exagerada de uma atividade específica), enquanto a assombração de Santo André é o conglomerado químico-petroquímico, representado pelo Polo Petroquímico de Capuava, a Doença Holandesa tanto do Município quanto de Mauá.  

O que separa São Bernardo de Santo André é que o setor automotivo é muito mais competitivo e agregador de emprego do que o setor petroquímico. Santo André está proporcionalmente menos exposto como Município às intempéries nacionais e internacionais.  

A diferença de geração de Valor Adicionado entre São Bernardo e Santo André estreitou-se na última década, entre janeiro de 2010 e dezembro de 2019. Santo André contava com apenas 30,51% de participação relativa frente ao Valor Adicionado de São Bernardo em 2009 e passou para 42,03% em 2019. Mais de 12 pontos percentuais de redução da distância.  

Quando se considera que também Santo André cresceu abaixo da inflação do período no Valor Adicionado (73,07% contra 76,31% do IPCA), eis que temos não um abraço de afogados, mas uma dupla de derrotados.  

Mascaramento petroquímico 

Vou fazer mais avaliações nos próximos tempos sobre o comportamento do Valor Adicionado do Grande ABC na última década, porque é sempre bom pegar um período não tão longo quando dados do ano passado e tampouco não tão curto como a passagem anual. E, mais que isso, mais atualizado em relação ao PIB dos Municípios.  

E o que vou revelar vai mostrar que Santo André, embora perca discretamente para a inflação, também é um caso gravíssimo de desenvolvimento econômico. O mascaramento do setor petroquímico tem impedido as autoridades públicas -- que só pensam em arrecadação de tributos – compreenderem que o buraco é mais embaixo. 

Estou sonhando com o dia em que, reeleito Orlando Morando, o combate ao esvaziamento econômico do Grande ABC tenha como símbolo a Capital Econômica abaladíssima ao longo dos anos pelos conflitos automotivos. Agora ainda mais graves com novo enxugamento de quadros das montadoras –- que vai muito além da catástrofe pandêmica.

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