Economia

Empobrecimento regional mais
uma vez fora da agenda eleitoral

  DANIEL LIMA - 05/10/2020

Há quatro movimentos sincronizados que colocam a escanteio a pauta eleitoral prioritária do Grande ABC: o empobrecimento ao longo de décadas e sobretudo neste século. A maioria dos candidatos faz de tudo para não tocar no assunto. A mistura defensiva envolve diversionismo, ignorância, descuido e dissuasão. A gravidade conjunta não elimina e tampouco mitiga os estragos individuais desses sintomas. São todos farinha do mesmo saco de descompromisso com o futuro.  

O que mais impressiona é que entra eleição, sai eleição, e a lengalenga segue no mesmo ritmo: a maioria dos candidatos municipais frequenta o mesmo ambiente de alienação. Até parece que os resultados das promessas não sairiam do mesmo buraco em que se encontram, ou seja, o Desenvolvimento Econômico ignorado.  

Os vetores desse comportamento vão ser elencados na sequência. E envolvem não só agentes políticos e partidários. A mídia regional, de maneira geral, comporta-se como avestruz. Sem Desenvolvimento Econômico, o resto é o resto. Inclusive o futuro no enfrentamento ao vírus chinês que, para alguns, no espírito mais prosaico de medidas, torna-se carro-chefe das campanhas. Como se já não fossem consolidados o uso de máscara e a fuga de aglomerações como essências de protocolos em defesa da vida.  

Mar de rosas?  

O exame dessas quatro condições leva em conta a ausência histórica de debates econômicos consistentes e sistemáticos nas campanhas eleitorais. Eventos esparsos, rasos, circunstâncias e aleatórios que tratam da origem de empobrecimento geral do Grande ABC e de medidas reformistas só confirmam o veredito de que a economia não tem lugar na política regional.  

Até parece que vivemos num mar de rosas. A razão é outra: como todos se sentem explicitamente ou envergonhadamente responsáveis pelo estado das coisas, tratar de economia virou confronto com o espelho da verdade indesejada e contra a qual todos se omitiram.  

 Diversionismo descarado  

O movimento diversionista consiste em tornar o Desenvolvimento Econômico peça fora de moda no debate eleitoral. Não interessa à maioria debater o que se desconhece em termos técnicos. O analfabetismo econômico dos agentes públicos e privados da região é quase generalizado. Solicitar a ajuda de universitários é uma grande besteira, como alguns pretendem. Eles vivem no mundo da lua. Com exceções de praxe. A única turma doutrinada a dar valoração a incursões econômicas está na USCS (Universidade Municipal de São Caetano). E mesmo assim em vários aspectos com vocação extrema a determinadas omissões e privilégios ditados pela ideologia. As demais instituições do gênero são refratárias. Desconta-se nesse ponto um ou outro profissional da área em busca de estudos e análises. A Universidade Federal do Grande ABC é uma anedota mal contada. O diversionismo, portanto, desloca a economia regional não apenas ao banco de reservas – a temática não sai dos vestiários da falta de competências.  

 Ignorância ecumênica  

O movimento de ignorância é latente em todos os quadrantes. Instituições em geral, econômicas, políticas e sociais, não conseguem decifrar o DNA mais escandaloso em matéria de empobrecimento. Não existe na quase totalidade dessas instituições um agente sequer com sensatez e independência para botar o Desenvolvimento Econômico fora do quadradismo corporativo como assunto a ser frequentemente levado aos afiliados. A maioria dos ignorantes econômicos do Grande ABC não se dá conta da própria ignorância. Cometem, portanto, o equívoco de individualizar desgraças econômicas e financeiras profissionais e pessoais. Acham-se incompetente no gerenciamento de negócios e na gestão familiar. Estão completamente fora do mapa regional de compreensão. O Grande ABC é um convite ao fracasso de empreendedores porque é um quase deserto de oportunidades a criar e a aproveitar. 

 Ignorante estrutural  

O movimento de descuido é parente próximo da ignorância e do diversionismo, traduzido na ausência de senso de urgência à atenção que se deveria dedicar aos estragos econômicos provocados no Grande ABC ao longo das últimas quatro décadas. O descuidado também é parente próximo do imbecilizado porque ainda não atentou à necessidade de entender melhor e apropriadamente o nome do jogo que envolve a todos. Trata-se do que chamaria de sobrevivência. O descuidado não se apercebe que candidatos a qualquer cargo eletivo em novembro infringirão mais uma vez ou pela primeira vez a dinâmica de compromisso social ao relegarem a pobreza a razões fortuitas e não estruturais. A degringolada econômica do Grande ABC é um contraponto à dinâmica do passado de glórias que os descuidados ainda não captarem, por mais que pessoalmente ou como empreendedores sintam na pele todas as adversidades fartamente documentadas nas estatísticas, nas ruas, nas periferias abarrotadas de subempregos e subnegócios. 

 Dissuasão exclusivista 

O movimento de dissuasão é a pior enfermidade social, econômica e cultural entre as quatro elencadas porque carrega viés de sadismo, de individualismo, de imediatismo e de tudo que possa significar o exclusivismo de interesses pessoais e grupais. Dissuadir a pauta econômica nas eleições municipais se manifesta na forma de conhecer os problemas, mas negá-los a partir de intenções malévolas de soterrá-los ao sabor de agendas mais palatáveis à embromação dos eleitores. Traduzindo: o agente dissuasivo sabe que o Grande ABC é um castelo de areia que se desfaz como indicador de progresso e competitividade a cada nova década. Entretanto, como a disseminação desse atestado de pré-óbito institucional não lhe convém nas urnas, faz o possível e o impossível também para minimizá-lo, quando não o coloca num compartimento desclassificatório como emergência, que de fato existe.  

Competitividade é tudo  

Eventuais debates que virão, como se têm anunciado aqui e acolá, não corrigirão o roteiro de desinteresse quase total pela pauta econômica. O que vale mesmo para dar um cavalo de pau na situação é uma mobilização intensa de diferentes instituições da região tendo como premissa, rumo, ritmo, trajetória e tudo o mais o que está ocorrendo com a economia regional muito antes da chegada do vírus chinês.  

Há imenso guarda-chuva temático a abarcar os pontos essenciais desse encontro de águas de responsabilidade social. E, mais que a própria pauta econômica, o que determinaria para valer essa virada de mesa seria o tom enfático em favor de uma reestruturação embasada em ações de profissionais em competitividade.  

Ou seja: sem aventureiros ignorantes ou ideológicos que pretenderiam se apropriar de uma agenda falsa, procrastinadora e político-eleitoral. Esse pacote de mentiras adocicadas já conhecemos e, como se sabe, os resultados são impiedosamente amargos.

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