Política

PT reforça Paulinho Serra
para evitar segundo turno

  DANIEL LIMA - 06/10/2020

O PT de Santo André está fingindo que é contrário à reeleição de Paulinho Serra. O plano estratégico desse jogo de cena está em execução e se resume a uma máxima da política de resultados, que também pode ser chamada de política oportunista: “se não tenho condições de ganhar, vou manter o que tenho”. E o que o PT tem é um naco de pelo menos duas centenas de servidores comissionados desde que Paulinho Serra assumiu em janeiro de 2017. Outras supostas vantagens típicas de conveniências eleitorais não são fáceis de comprovar.  

O PT lançou Bete Siraque ao sacrifício de representação em novembro. O partido sabe que a vereadora não tem competitividade que a catapulte ao segundo turno. O que pode atrapalhar os planos de petistas e tucanos em Santo André é Bruno Daniel. Ailton Lima também poderia se beneficiar da situação. Tanto um quanto outro torcem para o PT não passar por novo processo de aniquilamento eleitoral. Bete Siraque é candidata para valer, mas para o PT de cabeças premiadas, é apenas subterfúgio de legitimidade.  

Fazendo os cálculos 

Pelos cálculos matemáticos do grupo do prefeito Paulinho Serra, a operação de congelamento de votos do PT é portentosa: com o PT doutrinado à desidratação, e sem que Bruno Daniel surpreenda além dos limites naturais do PSOL e da lembrança do irmão Celso Daniel, será mais factível ganhar a disputa no primeiro turno.  

Os tucanos de Santo André temem por eventual segundo turno. Segundo turno, como se sabe, não é necessariamente uma equação que coloque os resultados da primeira rodada a salvo de rupturas. Nenhum prefeito de Santo André desde Celso Daniel conseguiu se reeleger.  

É claro que haverá tentativas de contestações à brandura petista na disputa em Santo André. E haverá quem prefira ignorar a situação como se não houvesse nada de anormal na disputa eleitoral. Política é a arte da dissimulação.  

Ascensorista metafórico  

Os petistas que vão à luta pela candidatura de Bete Siraque o farão com denodo. Outros, que participam da farsa, vão fazer mesmo é jogo de cena. O PT está em conflito interno gigantesco em Santo André. A cúpula que dá as cartas e joga de mão tem muita proximidade com o prefeito Paulinho Serra. Desde que Paulinho Serra foi secretário de Mobilidade Urbana do petista Carlos Grana, do qual se desvencilhou para concorrer pelo PSDB.  

Há um elo articulador que une petistas e tucanos. É o faz-tudo da gestão de Paulinho Serra, o advogado Leandro Petrin, especializado em Justiça Eleitoral.  

Petrin já foi petista de carteirinha. O tamanho de seu poder não se mede pelos centímetros que seu nome ocupa nos jornais e sites. Se esse fator fosse levado em conta, não passaria de um ascensorista. De alguma forma, Petrin o é: ele faz subir e descer cotações individuais e partidárias junto ao prefeito Paulinho Serra. A diferença entre o ascensorista de fato e o ascensorista metafórico é que o primeiro leva todo mundo para onde quer e não manda nada. O segundo leva quem ele quer para onde quer e o prefeito aceita.  

Paulinho Serra pertence a um grupo político eclético. Há todas as cores do arco-íris a dar suporte à reeleição. Nada muito diferente da política nacional. A surpresa é o PT domesticado. Mas a arte dessa submissão é mais refinada. A necessidade faz a obra inusitada menos complexa. O PT de Santo André vive crise múltipla, como todo o PT como agremiação especialmente paulista. Está à mingua. Resistir ganha novo sentido.  

Concordâncias ramificadas  

Para quem não quer desaparecer do mapa de possibilidades individuais e grupais, pendurar-se num governo historicamente opositor é apenas um detalhe. Recuar à espera de mudanças no cenário nacional seria questão de sobrevivência.  

Há ramificações entre grupos políticos petistas e tucanos em que imperam mais concordâncias e acertos do que eventuais entrechoques. De vez em quando procura-se teatralizar as relações. Críticas comedidas integram o enredo de encenações mútuas. Um ou outro ataque mais duro também. Nada, entretanto, que fira o espírito de acumpliciamentos. Nem Celso Daniel, político de coalizões em defesa de uma Santo André já batida economicamente, aceitaria o que muitos chamam de suruba política.  

Afinal, o que a gestão de Paulinho Serra pretende com o acordo de bastidores que vem de longa data e que coloca a bancada petista do Legislativo de Santo André muito longe da combatividade histórica da agremiação na política regional?  

Sem desmoralizar  

A empreitada não visa a desmoralizar o Partido dos Trabalhadores num endereço em que sempre, desde Celso Daniel, emergiu como um dos dois maiores protagonistas do jogo eleitoral. Paulinho Serra e seus articulistas sabem que o PT não entregaria as vísceras da dignidade eleitoral. A iniciativa não teria sustentação na base do partido. O que se lança à semeadura é um regime de estagnação em relação à última disputa eleitoral, quando o então prefeito Carlos Grana obteve 20% dos votos válidos tanto no primeiro quanto no segundo turno.  

Já seria suficiente segurar o PT eleitoralmente em relação à catástrofe de 2016, quando o partido foi duramente abatido nas eleições municipais por conta da Operação Lava Jato e do impeachment de Dilma Rousseff. Pelos cálculos dos situacionistas, para decidir a eleição no primeiro turno, em 15 de novembro, os oposicionistas mais cotados, Ailton Lima e Bruno Daniel, não somariam votos suficientes para, juntamente com o PT sob controle, adiar o jogo para o segundo turno.  

Rusgas antigas  

A expectativa de que o PT precisaria e poderia somar 30% dos votos válidos no primeiro turno em Santo André parece desvanecer na medida em que não se observa densidade popular nas primeiras iniciativas de campo, em busca de eleitores. A candidata Bete Siraque não é bem vista pela ala mais tradicional do partido. Há certa antipatia por causa do parentesco com o ex-deputado estadual Vanderlei Siraque. Bete é mulher de Siraque.  

Os grupos em que se divide o PT em Santo André ruminam peculiaridades próprias da política partidária. Siraque perdeu a eleição mais fácil da história regional em 2008. Foi derrotado por cinco pontos de diferença pelo médico Aidan Ravin. Foi um segundo turno improvável. Siraque teve mais que o dobro de votos de Ravin no primeiro turno e ficou a pouco mais de um ponto percentual da vitória.  

O ex-deputado concorreu com o apoio do então prefeito João Avamileno, mas contra secretariado e assessores egressos da gestão de Celso Daniel, morto em 2002. Siraque conseguiu a indicação do partido numa disputa acirrada com a então vice-prefeita Ivete Garcia. Essas feridas jamais se cicatrizaram. 

Nem um nem outro  

Mas o que pesa mesmo para o PT bandear-se com discrição para o terreno dos tucanos é a improbabilidade de chegar a eventual segundo turno. E, mais que isso, de não ter tração adequada para, caso passe a eventual segundo turno, mobilizar votos suficientes para voltar ao poder municipal.  

Tiago Nogueira, um dos caciques do PT em Santo André, é apontado como peça essencial da engrenagem de agentes de conciliações com a Administração de Paulinho Serra. Ele é visto frequentemente com aliados do prefeito.  

Recentemente, Thiago Nogueira chegou a sugerir que as esquerdas se fundissem numa única candidatura em Santo André. Pretendia fazer de Bruno Daniel candidato a vice-prefeito de Bete Siraque. Não faltaram petistas que o chamaram de engenheiro do caos eleitoral. Afinal, a soma de votos de Bete Siraque e Bruno Daniel (PSOL) seria maior com os dois candidatos separados do que juntos. Desde que o PT, claro, jogasse o jogo eleitoral como espécie de mata-mata. O que se prevê para novembro, entretanto, é, por parte do PT, não mais que um simples amistoso. 

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