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30ANOS: um baiano que fez
e contou histórias na região

  DANIEL LIMA - 09/10/2020

Há quatro anos o Grande ABC perdeu o advogado e escritor Antonio Possidonio Sampaio. Perdeu é força de expressão presa à materialidade física: Antonio Possidonio é daqueles exemplos que jamais vão embora. Ele deixou mais de uma dezena de livros. Contou histórias de personagens e fatos do Grande ABC e por essa e outras virou história também. Esse baiano foi retratado com frases envolventes da jornalista Tuga Martins na edição de junho de 2000 da revista LivreMercado. 

Como já escrevemos, de vez em quando transportaremos para o presente o legado editorial de 30ANOS do melhor jornalismo regional do País, de LivreMercado e de CapitalSocial. Esta é a centésima-quinquagésima edição da série.  

Aproveite para conhecer o baiano que militou politicamente à esquerda. LivreMercado era ecumênica. Como todo veículo de comunicação deveria ser. Sem mandraquismos enganadores.   

Jeito baiano de

escrever o ABC 

 TUGA MARTINS - 05/06/2000 

O jeito peculiar de contar as histórias que o Grande ABC esconde no emaranhado do concreto urbano nasceu há 68 anos em Morro Preto, Município de Santa Terezinha, no sertão da Bahia. "Um lugarzinho onde nem jagunço manso tem mais lá". A fala deliciosamente crônica sobre a terra natal explica por que os 11 livros de Antonio Possidonio Sampaio são obras únicas que fisgam de maneira peculiar a realidade da região.  

É com o sotaque baiano arraigado que o escritor arrasta para a literatura percepção crítica e bem-humorada de fatos históricos e comportamentais de 35 anos vivenciados em Santo André e São Bernardo. Engana-se quem pensa que romancear o Grande ABC é tarefa fácil. "Tem de garimpar muito" -- confessa o escritor. Diferentemente da Bahia, onde todo cidadão transpira perfil de personagem, o Grande ABC carece de figuras inspiradoras, constata Possidonio. 

O martírio desse caçador de tipos caricatos e histórias urbanas são os shoppings centers. Possidonio não economiza farpas ao modelo de consumo restrito a corredores fechados, cercados de vitrines. "Shopping é cadeião. Não entendo como as pessoas conseguem trocar espaços públicos por esse modo de vida tão estúpido" -- dispara.  

O lazer enclausurado dos tempos modernos chega a irritar o escritor, que comenta no contrapé o azar das gerações que nunca irão conhecer pessoas como as 15 rezadeiras da Rua Laura, em Santo André. "Tive o prazer quando da doença de minha mulher, Maria do Socorro. Elas se uniram e oraram na esperança de cura" -- emociona-se Possidonio, que ficou viúvo em 1999. Do casamento de 17 anos tem o filho de 12, Antonio Lopes Sampaio. "A falta é doída, mas jantar com meu filho é um aprendizado diário" -- revela. 

O convívio com a rua é inspiração. Possidonio gosta de andar a pé, frequentar botecos tradicionais e bater papo. Da casa na Vila Bastos até o escritório, na Avenida Portugal, vai caminhando. "Gosto de ver gente, de observar os jardins das casas, que hoje já não são muitos. Gosto da rua, de ver a cachorrada namorando" -- diz, com contagiante gargalhada.  

Café-da-manhã é na Padaria Portugal, mas às vezes deixa-se flagrar entre as delícias da Brasileira. A paixão por massas acaba saciada nas cantinas do Bixiga, bairro da Capital de cultura italiana temperada à moda nordestina. Possidonio é ainda habituê de carteirinha do Bar da Rosa, situado nas imediações do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo. Embora não resista a um balcão bem-frequentado, o escritor confessa que é boêmio não-etílico. "Lá sempre tem conversa boa, muitos assuntos sindicais e casos envolvendo lideranças" -- conta. 

A afinidade com o mundo sindical não é por acaso. Foi pelas lutas trabalhistas que Possidonio desembarcou em Santo André em 1965. O então advogado recém-formado e idealista não hesitou em abrir escritório numa terra onde a luta de classes já era latente. 

O mergulho na arte de escrever foi incentivado por preâmbulo de viés jornalístico, iniciado na redação da Gazeta Mercantil e de Notícias Populares. Possidonio assinava reportagens, mas ainda frequentava as aulas de Direito no Largo São Francisco. Tomou gosto pela escrita.  

O deleite de publicar histórias diárias, entretanto, acabou cedo. Em 1964, foi demitido. Desenvolvia série de artigos sobre comportamento. "Estava para me formar, e como sempre fui progressista, meu modelo não era bem-visto naqueles tempos" -- lembra. Viu a homologação do Ato Institucional número 5 em momento de solidão. Mais do que nunca se engajou na luta dos trabalhadores. Em 1967, ingressou como advogado no então Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema.  

Dois anos mais tarde lançou o primeiro livro: A Arte da Paquera. "Os conceitos de Herbert Marcuse sobre Eros e política e o movimento de libertação feminina estavam em alta" -- lembra, ao mesmo tempo em que parafraseia o autor: "...hoje a luta pela vida, a luta por Eros, é luta política..." O texto consta do prefácio do livro Eros e Civilização, que atualmente é matéria obrigatória nos cursos de Psicologia. 

Para quem saiu da Capital rumo ao subúrbio operário, o Grande ABC ostenta estampa de metrópole. Pelo menos é assim que Possidonio enxerga a evolução da região. O último trabalho, Em Busca dos Companheiros, relê o marco trabalhista entre 1979 e 1980, quando as greves dos peões da indústria automobilística produziram lideranças de projeção nacional.  

Possidonio, porém, retoma o assunto por outro ângulo. Sequer cita Lula e Vicentinho em seus escritos. Nas linhas fictícias que recheiam as 181 páginas da obra o autor procura os trabalhadores anônimos que deram corpo às manifestações da época. "A festa desta vez é para os vencidos, não para os vencedores" -- diz. A frase dita com orgulho respalda-se na epígrafe do livro, sob a grife do historiador inglês Eric Hobsbawn ("A história pode ter vencedores a curto prazo, mas os ganhos históricos vêm dos vencidos") e de Darcy Ribeiro ("Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu"). 

O tom cáustico de Possidonio delata-se quando o assunto salta das páginas de seus romances para o dia-a-dia. O escritor não poupa críticas à postura da elite do Grande ABC e nem doura a pílula quando o assunto esbarra no mundo acadêmico. "Lamento que tenhamos uma elite tão vesga que não percebe a importância da luta, a omissão dos intelectuais e a universidade que dá as costas para a sociedade, deixando gerações e gerações de analfabetos políticos" -- desabafa. Do futuro, ainda espera a utópica união entre trabalhadores, intelectuais e estudantes. 

No presente, comanda batalha para mudar o nome do Parque Duque de Caxias, em Santo André. A antipatia que nutre pelo nome do militar não tem encontrado muito eco na comunidade, mas não desiste. Possidonio quer que a área verde situada na nobre Avenida Dom Pedro II receba o nome de Parque dos Amores. Justifica a nomenclatura pelas cenas contumazes de casais de todas as idades que se rendem à atmosfera romântica do parque.  

No entanto, não foi a implicância com a patente do Exército que levou o escritor a trocar as caminhadas entre os eucaliptos por seis voltas diárias na Praça Antonio Fláquer, o Ipiranguinha, onde aposentados e antigos moradores misturam memórias ao cotidiano. "Pessoas mais enraizadas na cidade transpiram histórias todas as manhãs. Nesses passeios as ideias afloram. Pessoas são a alma da cidade" -- filosofa. 

Possidonio nutre amor especial pela bola, principalmente quando está rolando nos pés da equipe do Santo André. "Sofro quando o time está jogando, cruzo os dedos, fico com as mãos suadas, torço mesmo" -- relata. Místico pela índole abençoada pelo Senhor do Bonfim, o escritor diz que se afastou das igrejas conservadoras. "Não sou católico, mas sou cristão. Retomei contato quando percebi que a Igreja havia optado pelos pobres" -- diz, ao reeditar 1954, quando Dom Jorge Marcos foi enviado ao Grande ABC com a missão de neutralizar a ação dos comunistas e terminou abraçado à causa dos trabalhadores, mas pagou o preço de ter sido duramente criticado pela elite local. 

Dos altares para os espaços de lazer, Possidonio não esconde a atração pela dança. Enaltece todas as formas de cultura: cinema, teatro e música, principalmente Bossa Nova. Dos clássicos reverencia acordes fortes de Ravel, Mozart e Beethoven. No paladar é mais simples. Não abre mão de arroz com feijão e galinha de cabidela.  

A idolatria reserva para Guimarães Rosa. "Tive dificuldades de entrar no mundo de Guimarães Rosa, mas depois apaixonei-me" -- revela. A porta para chegar ao autor? Grandes Sertões Veredas. Outra referência bibliográfica leva a assinatura de Antonio Tabucchi sob o título Afirma Pereira, que inspirou produção de filme sobre a ditadura portuguesa de Salazar.  

Nesse mosaico de aromas nordestinos aquecidos em micro-ondas urbanos. Possidonio é testemunha contemporânea da ascensão e queda do movimento sindical e do setor empresarial do Grande ABC. "O esvaziamento está aí. Trabalhadores e empresários ou desceram ou foram empurrados do comboio neoliberal" -- pontua. 

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