Sociedade

Medir eficiência no combate
ao vírus é arriscado demais

  DANIEL LIMA - 09/10/2020

O Diário do Grande ABC exibe na manchetíssima (manchete das manchetes de primeira página) de hoje a informação de que Santo André e Rio Grande da Serra lideram o ranking regional de eficiência de gastos na pandemia do vírus chinês. A metodologia tem tanta consistência quanto uma gelatina. O ranking que eu poderia preparar seria semelhante e colocaria São Bernardo na liderança. A embocadura técnica seria a mesma do Diário do Grande ABC. 

Conclusão? Definir critérios sobre qualquer coisa que sugira competência no sentido mais abrangente do termo na gestão municipal da crise é um grande risco. Pelo menos até que dados transversais e especificidades sociais e econômicas sejam destrinchados. E é esse o maior dos problemas. Ou seja: o Coronavírus não é um ambiente favorável a qualquer tipo de especulação que leve a conclusões peremptórias.  

O ranking do Diário do Grande ABC com base em dados financeiros do Tribunal de Contas do Estado é de vulnerabilidade alarmante. Fosse ombudsman do jornal como o fui por duas temporadas, na condição de primeiro e único profissional a ocupar cargo jamais ocupado por qualquer outro jornalista, teria barrado do baile os enunciados da edição de hoje.  

Traduzindo: se essa era a única manchetíssima da edição, a edição sairia sem manchetíssima. Claro que é um exagero, porque sempre há saída à falta de uma suposta matéria-bomba, como se pressupõe da manchetíssima de hoje.  

Per capita também não vale 

Também teria barrado do baile editorial uma manchetíssima do Diário do Grande ABC de hoje que, ao invés de considerar os valores despendidos por Prefeitura durante a pandemia em relação aos casos registrados da Covid (casos registrados não são casos letais, é bom que se diga), utilizasse como contraponto o fator per capita. O ranking favoreceria São Bernardo, prejudicada na edição de hoje.  

Deixo esse redirecionamento bem explícito para que não vejam na intervenção deste ombudsman não-autorizado e sazonal do Diário do Grande ABC qualquer aspecto político-partidário. Em período eleitoral, tudo é possível na vasta área de conjecturas de terceiros, muitos dos quais não entendem patavina de jornalismo. Há doentes partidários e dependentes individuais de políticos que veem assombração protecionista ou discriminatória em tudo.  

No caso específico da manchetíssima de hoje do Diário do Grande ABC, quero crer que não haja nem uma coisa nem outra, embora uma coisa e outra saltem com fertilidade de cada letra, de cada palavra, de cada sentença, de cada infográfico.  

Relativizar é importante 

Qualquer ranking que se faça considerando os mais diversos vetores que envolvem os estragos do vírus chinês e as reações dos municípios do Grande ABC durante a pandemia deverá ser minuciosamente detalhado e relativizado.  

O ranking de hoje do Diário do Grande ABC que, repito, correlaciona valores despendidos e casos registrados, ou o contraponto que sugeriria, de valores investidos em relação à população, não teria a menor sustentabilidade técnica e jornalística.  

Vou pegar a estrada argumentativa já exposta, de dois modelos equivocados de medição de suposta eficiência de gestão municipal no combate ao Coronavírus, para traduzir em termos mais simples e inteligíveis.  

Primeiro o caso do Diário do Grande ABC, da manchetíssima de hoje.  

Diz o jornal que Santo André e Rio Grande da Serra lideram o gasto de eficiência ao se confrontarem valores despendidos pelos casos registrados. Santo André gastou R$ 4.980,04, enquanto Rio Grande da Serra R$ 4.939,58. São Bernardo ocupa a lanterninha com R$ 10.710,40.  

Temporários e permanentes  

O grande equívoco do jornal foi colocar todos os quesitos de despesas municipais no mesmo compartimento métrico. Confundiu, portanto, entre outros pontos, gastos com investimentos.  

É o caso de São Bernardo, com registro no TCE de R$ 304.251 milhões, enquanto Santo André registrou R$ 89.322 milhões.  

O disparate da comparação é tamanho que hospitais de campanha lançados por Santo André (e, portanto, temporários e desativáveis) são colocados no mesmo recipiente de identidade operacional de dois hospitais de verdade de São Bernardo, que, de fato, são investimentos para sempre.  

Teria o Diário do Grande ABC cometido o mesmo desatino editorial caso houvesse preferido outro caminho de análise, estabelecendo a divisão dos valores despendidos pelo total de habitantes.  

Muito maior per capita  

No caso, a suposta eficiência contemplaria o que seria chamado de investimento, não gasto, por habitante. Peguem os R$ 304.251 milhões de São Bernardo, divida por mais de 800 mil habitantes e verão que a proporção por habitante é muito maior que a de Santo André, com R$ 89.322 milhões para mais de 700 milhões.   

Nesse caso, entre muitas distorções elementares, estaria o montante investido na construção de dois hospitais em São Bernardo (não específicos para o combate ao Coronavírus, mas circunstancialmente priorizados para tanto) comparado ao montante dos hospitais de campanha de Santo André. 

Trocando em miúdos: a métrica do Diário que coloca Santo André na liderança de eficiência colocaria São Bernardo na mesma situação se adotasse minha sugestão. Nenhuma das duas e tantas outras têm nexo com a realidade tanto financeira quanto social.  

Festival de burradas  

Já li tudo o que é possível ler sobre diferentes aspectos da atuação desagregadora do vírus chinês em todo o mundo. Há inúmeros pontos obscuros e, mais que isso, incontroláveis sob qualquer aspecto.  

Há uma coletânea de burradas de agentes públicos, epidemiológicos, da mídia e de tudo mais. E não faltam também algumas tentativas de mensurar suposta eficiência de gastos, ou investimentos. Inclusive com o uso de ferramentas ligadas ao PIB (Produto Interno Bruto), à dívida pública, entre tantos aspectos.  

Entretanto, não havia lido nada que lembre a manchetíssima do Diário do Grande ABC. A correlação de valores direcionados ao combate ao vírus chinês com os registros de casos é bastante frágil.  

Sobremodo porque os casos registrados são comprovadamente pouco confiáveis. Depende do que os especialistas chamam de execução de testagens. Se a correlação tivesse como âncora os casos de óbitos, também seria inconsistente. Há multiplicidade de fatores, repito, que influi no mapeamento quantitativo da pandemia.  

Cautela dimensional  

Por conta de tudo isso, desde as primeiras análises que fiz sobre o vírus chinês no Grande ABC tive o cuidado de estabelecer um ranking exclusivo de quantidade por 100 mil habitantes nos sete municípios. Jamais enveredei pelo cruzamento desses dados com outros dados, sobretudo financeiros.  

A métrica é simples, mas sempre foi ponderada por alguns fatores básicos explicativos: densidade demográfica e distribuição etária e de classes sociais das respectivas cidades. Desde o começo coloquei São Caetano como o endereço regional mais suscetível ao Coronavírus. A contabilidade de mortes divididas por cada grupo de 100 mil habitantes é universal entre quem prefere a objetividade à ideologia.  

Vou continuar a ter o cuidado que as numeralhas no combate ao vírus exigem. Enquanto não sentir segurança, não avanço o sinal. Sempre desprezei dados relativos aos casos registrados e vou continuar a fazê-lo. Não se trata de teimosia. É questão de aprendizado e respeito às fontes.  

Os maiores especialistas do ramo desaconselham destinar credibilidade aos dados que saltam sobre o assunto. Metodologias não se sustentam. Fixo-me, portanto, no critério único de óbitos. E mesmo assim, todos sabem, há vulnerabilidades. Que nem se comparam a alquimias metodológicas.  

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