Administração Pública

Gestão do Estádio Bruno Daniel
rebaixa Aidan e Paulinho Serra

  DANIEL LIMA - 12/10/2020

O ex-prefeito Aidan Ravin e o atual prefeito Paulinho Serra têm mais semelhanças no trato do Estádio Bruno Daniel do que imaginam torcedores e contribuintes em geral.  Esse tradicional bem público utilizado principalmente pelo Santo André sofreu no passado e sofre no presente com decisões dos chefes do Executivo. Uma situação constrangedora, porque o futebol do Santo André é o maior patrimônio cultural do Município. O mapa de importância imagética da cidade de Santo André no Brasil está estreitamente relacionado ao futebol mais que cinquentenário do Santo André.  

Aidan Ravin derrubou o setor de cadeiras numeradas e plastificadas cobertas e deixou para o sucessor, Carlos Grana, a substituição dos escombros por uma arquibancada de cimento duro descoberta. De diferença arquitetônica acachapante. De contraste gigantesco em conforto. De lamentáveis efeitos sociológicos.  

Paulinho Serra fez da pandemia do vírus chinês o marketing da visibilidade político-administrativa de um hospital de campanha. A desativação, três meses depois, deixou o gramado em petição de miséria e um saldo de medidas obscuras na área médica e financeira.  

Fundação do ABC  

Não há balanço confiável do que foram os três meses do hospital provisório plantado no gramado do Bruno Daniel. Resta saber até que ponto há pontos que ligam aquela iniciativa às provas de uma auditoria independente contratada pela Fundação do ABC, que administra a saúde de Santo André, sobre esquisitices na compra de produtos e serviços.  

A Fundação do ABC repassa valores federais do SUS às prefeituras de Santo André, São Bernardo e São Caetano. Quando especialistas em contas públicas dizem que há mais que indícios de indecências gerenciais, o mais sensato é desconfiar muito.  

Esses são apenas alguns aspectos do rebaixamento administrativo a que se submeteram os dois prefeitos. Eles estão separados no tempo de comando do Paço Municipal pelos quatro anos do petista Carlos Grana.  

Descuido duplo  

Colocar o Estádio Bruno Daniel como comparativo de gestão pública é importante porque revela com clareza o descuido dos prefeitos de plantão com o principal palco de eventos esportivos do Município, inaugurado que foi há mais de meio século, em dezembro de 1969,  com a goleada do Palmeiras sobre o Santo André por quatro a zero. Antes desse trio de mandachuvas, os anteriores também fizeram pouco para a manutenção do estádio. Manutenção, como se sabe, não costuma ser prioridade de gestores públicos. 

As cadeiras numeradas cobertas não foram derrubadas de graça. O que o então prefeito Aidan Ravin deixou de pecado mal aparado para Carlos Grana e o que Paulinho Serra oferece aos olhos mais curiosos em tomadas fotográficas que lembram um campo de guerra é um Estádio Bruno Daniel empobrecido como peça arquitetônica, esportiva e sociocultural.  

Se o remendo do petista Carlos Grana de alguma forma contornou danos mais graves no campo físico, no aspecto sociológico nem de longe preservou a história do estádio e as ramificações dali decorrentes.  

A promessa de Paulinho Serra dotar o local de gramado artificial não ameniza o oportunismo midiático de lançar mão de marketing ao fazer do gramado hospital temporário. Poucos prefeitos e governadores caíram em tentação semelhante.  São exceções à regra estádios em forma de hospitais temporários.  

Copa do Mundo  

E aqueles que o fizeram têm o mesmo comportamento protetivo: não especificam detalhes da operação. O custo-benefício, segundo especialistas, jamais resistiria a um planejamento que levasse em conta a escassez de dinheiro público. Mas dinheiro público federal irrigou exageros.  

Aidan Ravin, que dirigiu Santo André entre 2013 e 2016, prometeu colocar a cidade no roteiro da Copa do Mundo de 2014. Por isso, e respaldado por um laudo do Ministério Público jamais conferido, mandou destruir as numeradas cobertas em 2011. Montanhas de cimento e ferro viraram sucata riquíssima de destino ignorado.  

Publicou-se durante a gestão de Aidan Ravin que Santo André poderia ser subsede da Copa do Mundo de 2014. É claro que o futuro que chegou frustrou a todos. A maior competição esportiva do planeta chegou a Santo André apenas nas imagens de televisão.  

Visual de Primeiro Mundo  

Ao terminar o mandato, Aidan Ravin deixou para o sucessor Carlos Grana o resto do resto de escombros onde a história do Santo André foi solidificada.  Carlos Grana ergueu uma pobre arquibancada. O dinheiro prometido pelo antecessor faltou no caixa da Prefeitura.  

O Estádio Bruno Daniel de toque visual de Primeiro Mundo das numeradas cobertas transformou-se em estadiozinho de Interior. Experiente fazer uma viagem rápida na Internet. Escolha aleatoriamente estádios interioranos. O Bruno Daniel estará em igualdade de condições visuais.  E materiais também.   

Aquelas cadeiras numeradas confortáveis eram reduto de conselheiros e torcedores mais nobres do Santo André. Eles se juntavam a cada jogo, construíam relações pessoais, profissionais e sobretudo clubistas.  O Santo André dos tempos de numeradas cobertas contava com mais institucionalidade. Movimentos históricos de sustentação da equipe foram decididos ali, no calor dos 90 minutos e do intervalo.  

Comando do clube  

As cadeiras plastificadas e numeradas do Bruno Daniel eram palco de assembleias extraordinárias do Conselho Deliberativo e da diretoria do clube. O jogo jogado no gramado sempre irregular era a motivação maior daqueles encontros, claro. Mas a oportunidade de confraternizar esportivamente e tecer planos para o clube era ouro a ser explorado. Um grupo restrito de conselheiros mais antigos e influentes, chamado de Senadinho, atuava como força-auxiliar da diretoria. Mais que isso: produzia diretores e conselheiros. O Senadinho tinha um canto reservado à direita de quem ingressasse no Estádio Bruno Daniel. Nas cadeiras cobertas, claro! 

Com o uso da arquibancada descoberta do outro lado, e em seguida a nova arquibancada também descoberta onde as numeradas desapareceram, a dispersão se acentuou. O Santo André não tem mais identidade institucional nos jogos marcados para o Estádio Bruno Daniel. E as relações extra-estádio também se esfarelaram. Falta um ambiente mais aconchegante que os corredores cobertos das numeradas proporcionaram.  

A alegação oficial de que o Estádio Bruno Daniel precisava mesmo ser derrubado na parte mais nobre e transformadora jamais ganhou a amplitude do contraditório fértil. 

A afirmativa de que um TAC (Termo de Ajuste de Conduta) do Ministério Público determinava a derrubada jamais foi tecnicamente exposta e debatida. Enfiou-se goela abaixo a medida. Previa-se novo estádio. Uma arena, como chegou a ser anunciada. A Copa do Mundo de 2014 estava no horizonte da grandiloquência política e financeira.  

O Santo André, que se omite também agora com a destruição do gramado, não foi consultado, o Conselho Deliberativo não foi ouvido, a Imprensa ruminou as informações sem confrontá-las. Não se encontra um documento sequer, que tenha sido levado ao público, confirmando a imperiosidade da medida. A metade mais rica do Estádio Bruno Daniel veio abaixo.   

O que subsiste de verdade quando se trata de numeradas cobertas do Estádio Bruno Daniel é que existia mesmo um declive mais acentuado do teto.  

O tempo e a falta de cuidados de manutenção teriam transformado o que seria uma característica de novidade e ousadia arquitetônica do estádio em risco de acidentes.  

Som frenético  

Não se despreza essa possibilidade, mesmo sem o respaldo de provas documentais. A desconfiança pesa justamente quanto ao grau de vulnerabilidade daquela massa de cimento e ferro que gerava um som muito especial saído da boca da torcida a cada lance mais importante do jogo. Um som concentrado no impacto e disseminador no espaço mais distante. O Bruno Daniel de arquibancadas cobertas era uma fábrica de emoção. Arquibancadas descobertas jamais funcionaram como caixas de ressonância na proporção das numeradas coberturas que se foram.  

O Estádio Bruno Daniel de numeradas cobertas era um convite ao barulho bem-vindo, à confraternização entre amigos e desconhecidos que dividiam cadeiras confortáveis.  

Quantas vezes o Santo André levou a torcida ao delírio ao som das numeradas? Quantos gols esperados, mas demorados, levantaram os cerca de cinco mil torcedores que ali se acomodavam nos jogos mais concorridos?  

O prefeito Paulinho Serra se junta ao ex-prefeito Aidan Ravin na gestão do Estádio Bruno Daniel como exemplo a não ser seguido porque o hospital de campanha que funcionou durante apenas três meses deixou um rastro de destruição.  

O próprio prefeito deu declarações que colocam a possibilidade de cobrir o verde de verdade que se foi por verde de mentira, porque sintética. Talvez a emenda seja melhor que o soneto. A Prefeitura, entra prefeito, sai prefeito, jamais cuidou bem do gramado. Mais que isso: ultimamente entregava a tarefa e os custos ao Santo André, agremiação que já sofre demais com a democracia de araque do futebol brasileiro. Os grandes clubes e a grande mídia concentram todos os poderes.  

Projeta-se uma distância entre R$ 2 milhões e R$ 9 milhões para que o Estádio Bruno Daniel ganhe grama sintética semelhante à do Estádio do Palmeiras, o Alliance Park. Qualquer que seja a definição, é irrevogável que o Santo André precisa de um retângulo dentro das dimensões oficiais da FIFA para disputar a Série A-1 do Campeonato Paulista do ano que vem.  

Erro grosseiro 

O conserto previsto do piso do gramado e no prazo regulamentar não aliviam a barra do equívoco eleitoreiro que se converteu a ação do prefeito Paulinho Serra ao optar pelo Estádio Bruno Daniel como hospital provisório. Afinal, são frágeis as informações que dão conta do aspecto financeiro e de saúde daquela parafernália desativada com balanço de uma morte e pouco mais de 400 atendimentos.  

Fontes confiáveis da área médica da Fundação do ABC, entidade que irriga dinheiro público federal às prefeituras de Santo André, São Bernardo e São Caetano, consideram a construção do hospital de campanha um erro grosseiro. Buscou-se, garante, a espetacularização da pandemia.  

Os dados sobre os três meses de atendimento são insustentáveis como informação robusta. Faltam custos operacionais. Sobraram compras de equipamentos e serviços sem lastro de licitações. Tudo o que o prefeito Paulinho Serra expôs sobre o hospital de campanha do Estádio Daniel (e outros dois endereços similares) não contempla valores agregados em vários vetores.  

Semelhantemente ao suposto TAC do Ministério Público Estadual, de conteúdo desconhecido, o hospital de campanha do Estádio Bruno Daniel é insustentável à prova de transparência.  

Rebaixamento duplo  

Aidan Ravin e Paulinho Serra são duplamente rebaixados no Campeonato de Transparência no uso do Estádio Bruno Daniel. O palco que fez do Santo André orgulho da cidade e da região (sempre considerando a imensidão de obstáculos que equipes da periferia das grandes capitais têm de superar num futebol de grandes estrelas midiáticas) ganha contornos de desfiladeiro dos dois prefeitos. 

Santo André segue uma trilha de desprezo ao futebol. Que conta com um ônus incalculável: a destruição do Estádio Américo Guazzelli, do Corinthinha, demolido sem que uma voz se erguesse. Aquele estádio fora simplesmente o palco do primeiro gol do Rei do Futebol.

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