Sociedade

São Caetano é campeão no
futebol e lanterna no vírus

  DANIEL LIMA - 13/10/2020

A temporada de 2020 vai ficar na história de São Caetano como a consagração do improvável e a decepção com o inesperado.  

No futebol, que vive turbulenta e interminável crise, a equipe comandada pelo técnico Alexandre Gallo, com apoio de patrocinadores sensibilizados pelo ex-mecenas Saul Klein, o São Caetano está de volta à Série A-1 do futebol paulista.  

Na gestão pública, especialmente na área de saúde, os danos do vírus chinês colocam São Caetano na lanterninha nacional com números de arrepiar os piores endereços internacionais na proporção de mortes por 10 mil habitantes – ou por 100 mil, conforme o gosto de freguês. 

Quando o vírus chinês chegou para valer em março deste ano não havia quem prognosticasse o contraste arrasador entre futebol e saúde que outubro revela com clareza.  

O futebol do São Caetano estava fadado a possível rebaixamento à Série A-3 e a gestão da saúde de São Caetano seguiria como exemplo de Primeiro Mundo. Faltou combinar com os deuses do futebol, com os chineses e com as especificidades locais.  

Mais transparência  

No futebol sempre mais transparente, porque colocado em xeque a cada jogo nos estádios e nas transmissões da televisão, a verdade aparece. Mesmo que mistificadores pretendam sugerir realidade paralela. A ordem dos fatores técnicos, táticos e organizacionais geralmente não altera o produto na tábua de classificação. Não se é campeão por acaso nem lanterninha porque se revogou a lei de probabilidades.  

Na gestão pública em períodos especiais, como o de avassaladora pandemia na saúde internacional, nem sempre as trincheiras são visíveis. Os resultados quantitativos tornam-se possivelmente o único material disponível à análise.  

E nesse ponto a saúde de São Caetano perde de goleada para o futebol. Somente uma curadoria de especialistas independentes poderá livrar a barra do prefeito José Auricchio e de tantos outros prefeitos quanto à eficiência ou não no combate ao Coronavírus. O edifício do isolamento horizontal já está ruindo, após arrasar a economia.  

Miséria e milionário  

O milionário orçamento de saúde de São Caetano, reforçado pela benemerência de transferências emergenciais do governo federal, perdeu de goleada nesta temporada para o futebol à beira do desmanche de um São Caetano abatido por gestores desalmados que até recentemente cometiam insanidades com dinheiros doados pelo empresário Saul Klein. 

Gestores endividaram a agremiação a tal ponto que interessados em transformar as ações desse clube-empresa em propriedade efetiva pensam muitas vezes antes de assinarem qualquer papel.  

Uma situação alarmante que desperta cobiça. Tanto que o São Caetano campeão da Série A-2 nesta segunda-feira conta com investidores desconhecidos. 

O cronograma do avanço do vírus chinês favoreceu o futebol e afetou a reputação da saúde de São Caetano. Nos cinco meses de paralisação da competição que dá acesso ao principal campeonato estadual do País o São Caetano passou por tudo. Salários atrasados, treinamentos desativados, tensão diretiva e grande interrogação sobre quem chegaria para administrar o clube depois da hecatombe deixada por Nairo Ferreira.  

O São Caetano ocupava o sexto lugar na classificação geral. Faltavam três rodadas. Classificavam-se os oito primeiros. Quando o futebol foi retomado, o São Caetano surpreendeu. Terminou a fase de classificação em segundo lugar. Atrás apenas do São Bernardo, maior favorito ao Acesso. Foi para a fase de mata-mata com a vantagem de jogar o jogo de volta em casa contra o Monte Azul. E nos dois mata-matas seguintes contra XV de Piracicaba e São Bento voltou a jogar a segunda partida em casa. Deu-se ao luxo de perder duas e ganhar nas penalidades máximas.  

Caindo pelas tabelas  

No mesmo período a saúde de São Caetano não resistiu a inimigos mortais. A inserção na Região Metropolitana de São Paulo de efervescente mobilidade urbana, a densidade demográfica de mais de 12 mil habitantes por quilômetros quadrados e um quarto da população (o dobro da média regional e nacional) formado por moradores com 60 anos ou mais levaram São Caetano à derrocada diante do vírus chinês.  

Derrocada é pouco. São Caetano apanha de goleada para o vírus chinês. São 13,48 óbitos para cada grupo de 10 mil moradores. No Grande ABC a média é de 9,58. No Brasil de 7,78x. No Distrito Federal, que lidera o ranking nacional, são 11.15.  

São Caetano é, portanto, campeã nacional absoluta. E quando confrontada com países mais duramente castigados pelo vírus chinês, também está na frente.  

Decifrar os caminhos que levaram o São Caetano ao título da Série A-2 é tarefa para especialistas que sabem muito mais que distinguir uma bola de futebol de uma bola de basquetebol. Mais que isso: sabem o mínimo necessário para explicar em detalhes e com sustentação teórica porque a bola de futebol é uma ferramenta que, posta nas redes, geralmente se traduz em classificações consagradoras ou decepcionantes.  

Mesmice não resolve  

Esclarecer os caminhos que levaram São Caetano à degringolada na área de saúde durante a pandemia que ainda não foi embora, embora tenha arrefecido, é muito mais complexo. Depende em larga proporção de transparência administrativa.  

São Caetano pecou no combate à pandemia. Além de fatores implícitos que detonam a estrada da saúde de regiões metropolitanas de densidade populacional elevada e do peso relativo dos idosos, vítimas preferenciais do vírus chinês, São Caetano errou porque não saiu do quadradismo. Transposta a imagem para o futebol, seria como o São Caetano do Acesso ter desperdiçado uma oportunidade de ouro debaixo da trave quando só bastava balançar a rede para comemorar o título.  

São Caetano da pandemia chinesa ficou preso às cartilhas oficiais de um governo do Estado, do qual é aliado, que optou pela oposição a um governo federal trapalhão, mas nem por isso desclassificatório.  

Mas, muito mais que tudo isso, pesou no desempenho decepcionante de São Caetano na área de saúde o ambiente regional. Sem integração em qualquer atividade, o Grande ABC é um festival de desperdícios. Sem coordenação regional, as ações municipais se perderam no baixo aprendizado sistêmico e no sofrível conjunto de ações práticas.  

Plano diferenciado  

Exatamente por ser um território diferenciado no País, com tríplice problemas ambientais de enfrentamento do vírus chinês, São Caetano deveria contar com plano de ação diferenciado dos demais municípios da Região Metropolitana de São Paulo.  

Até prova em contrário, nada de efetivo se aplicou para mitigar os prejuízos. É muito pouco provável que se comprove eficiência metodológica diante de uma montanha de mortos por 10 mil habitantes.  

Para se ter dimensão mais apropriada do rastro de destruição de vidas que o vírus chinês provocou em São Caetano, uma correlação com a média nacional é contundente. Fosse São Caetano, o Brasil teria registrado ontem o total de 285.797 mortes, contra atuais e arredondadas 150 mil. Nada menos que 49% acima da média atual.  

Subida com méritos  

O São Caetano subiu para a divisão de elite do futebol paulista porque jamais se deu ao desfrute de considerar-se superior aos favoritos. Teve humildade tática. Despejou um caminhão de suor em cada partida. Contou com um lateral-direito que bate infrações e escanteios como poucos. Acionou dois volantes móveis que reforçaram o sistema ofensivo com volúpia. Lançou mão de um meia-armador também com talento de ponta-de-lança que jamais deixou de penetrar na grade área adversária ou de socorrer os volantes. Com quatro peças fundamentais e um goleiro iluminado nas disputas de penalidades máximas em dois dos três jogos de mata-matas, o São Caetano avançou rumo ao Acesso. Tudo isso além do trabalho de costura motivacional, técnica e tática de Alexandre Gallo, um dos profissionais que festejou o título mesmo com salários atrasados.  

O São Caetano do futebol vitorioso parece ter transmitido uma lição à São Caetano ainda milionária como orçamento municipal, embora tenha despencado neste século com o rebaixamento de riqueza impactada pela segunda onda de desindustrialização. Que lição? É indispensável superar desafios com algo mais que o piloto automático. Entre a bola e a vida há mais potenciais semelhanças do que imaginam os filósofos. Adaptar-se às condições de temperatura e pressão é uma arte. O futebol do São Caetano está aprovado com louvor. A saúde é um horror. Até prova em contrário.  

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