Imprensa

30ANOS: futebol e negócios
cada vez mais próximos

  DANIEL LIMA - 14/10/2020

Em julho de 2000 preparei para a revista de papel LivreMercado uma análise sobre a vitória do Palmeiras diante do Corinthians na Taça Libertadores da América. Ou, de fato, preparei uma análise sobre a importância de tratar o futebol como negócio? Tire a dúvida no texto que se segue e que, mais uma vez, mostra o quanto LivreMercado trafegava por outros caminhos além dos econômicos e, também, de vez em quando olhava para o mapa extra-região sempre com o objetivo de, mesmo que indiretamente, colocar na pauta questões de interesse local. 

Esta é a centésima-quinquagésima-terceira edição da série 30ANOS do melhor jornalismo regional do País – as duas décadas de LivreMercado e as quase duas décadas de CapitalSocial.  

Lógica do capital 

é igual a da paixão 

 DANIEL LIMA - 05/07/2000 

Quem acredita que o ingresso de capital de risco no futebol brasileiro tornará as equipes menos vulneráveis à emoção das decisões extracampo certamente desconsidera não só a tradição de tempestuosidade do esporte mais popular do planeta como também o princípio básico do capitalismo: resultados, resultados e mais resultados. Da mesma forma, a pura e simples desqualificação de torcedores organizados para qualquer tentativa de influírem nos resultados técnico-operacionais das equipes, impondo-lhes apenas o gueto das arquibancadas, é observar o chamado futebol-empresa com o olhar do quadradismo de romantismo esclerosado.   

Os patrocinadores e os fundos de investimentos que descobriram o filão do futebol tetracampeão do mundo não são instituições filantrópicas a distribuir dólares inconsequentemente. Cobram vitórias porque vitórias significam prestígio, que, por sua vez, valoriza os ativos técnicos, no caso os jogadores.  

Time perdedor, por mais paixão que tenha de seus torcedores, não garante rentabilidade dos investimentos e nem seduz o consumo de produtos em forma de camisas, calções e série de souvenires. Pelo contrário: provoca reações muitas vezes exacerbadas, de consequências geralmente desagradáveis.  

A crônica esportiva brasileira ainda não entendeu essa realidade, da mesma forma que se mantém impermeável a inovações no relacionamento entre os comandos diretivos e técnicos dos clubes e os representantes das torcidas organizadas.   

Os incidentes pós-derrota da Libertadores, envolvendo torcedores organizados da Gaviões da Fiel e vários jogadores do Corinthians, bem que poderiam sinalizar novos tempos. Os conservadores podem até esculhambar com a proposta. Eles esgrimiriam a lâmina cortante do bom-senso contra os excessos de torcedores que trocaram o diálogo pela força bruta da hostilidade a jogadores. A resposta é que isso faz parte do aprendizado e da depuração que deveria vir por aí.   

Acreditar que lugar de torcedor é exclusivamente na arquibancada, a gritar sem influir decididamente no resultado, é algo  tão estúpido quanto crer que democracia se constrói unicamente com a presença dos eleitores nas urnas, e não com o exercício pleno da cidadania, ou que os consumidores têm de engolir produtos e serviços mal-ajambrados sem recorrer a instâncias legais.   

Compartilhando resultados   

É provável que vai chegar o dia -- e não estaria tão distante assim como gostariam os ditadores de plantão da mídia  esportiva que se arvoram de autoridades na mesma tonalidade de voz de policiais truculentos -- em que representantes legalmente eleitos pelos torcedores vão estar nos conselhos técnicos e diretivos dos clubes-empresas, senão com poder de voto ou veto, mas com representatividade suficiente para expor o sentimento de quem faz a alegria dos estádios. Quando se chegar a esse estágio, acreditem, os conflitos vão ser minimizados porque os resultados dentro de campo passarão a ser compartilhados nas vitórias e nas derrotas.   

A isso se dá o nome de democracia. Não é assim, por acaso, nas administrações públicas mais modernas e de viés social pronunciado? Não é assim, também, nas empresas convencionais, que fazem proliferar a figura do ombudsman? Pois assim precisa ser no futebol. Quem acha futebol desimportante numa conjuntura de quase-crise institucional em um País conflagrado pela violência e pela criminalidade desconhece as raízes culturais da modalidade e sua influência no dia-a-dia dos torcedores-cidadãos cada vez mais apaixonados depois que a televisão descobriu o esporte como inesgotável filão de audiência e de manipulação de emoções.    

Voltando ao caso da recente demissão de Oswaldo de Oliveira do comando técnico do Corinthians, a surpresa só atingiu tolos ou inocentes. Oswaldo de Oliveira, executivo do futebol que caberia perfeitamente nos mais rigorosos padrões de bom comportamento de organização privada, dada a elegância no vestir e a fluência de articular frases pouco comuns no mundo da bola, é um corpo estranho numa atividade de modos menos delicados, de decisões que extrapolam a fria racionalidade.   

Emoção e razão   

Oswaldo de Oliveira é um profissional que caberia como poucos entre quatro paredes, a organizar seus comandados, a destilar confiança, a implementar projetos. O problema é que, diferentemente de uma empresa, pelo menos da maioria das empresas, no futebol os resultados dependem também da capacidade de provocar soluções no corpo a corpo com o chão de fábrica, no caso, os gramados em permanente tensão. Racionalidade e emotividade são indelegáveis e interdependentes, por isso precisam estar equilibradamente distribuídas.   

Exatamente porque não é capaz de conjugar o trabalho de equipe que reconhecidamente o torna um mestre de gabinete com a liderança em campo, Oswaldo de Oliveira fracassou com o Corinthians na Taça Libertadores da América.   

Do outro lado, o histriônico Luiz Felipe Scolari esbanjava competência no banco de reservas. Superou com facilidade os tropeços de gabinete que seu temperamento revoltoso construía deliberadamente para produzir adrenalina no grupo de jogadores que comanda com mão de ferro, no melhor estilo autocrático cada vez menos valorizado pelos manuais de administração, embora se mostre geralmente remédio eficaz para situações graves.   

A queda de Oswaldo de Oliveira deu-se com a naturalidade de quem não conseguiu transformar em glória prática a vantagem teórica, embora dirigisse uma organização mais qualificada tecnicamente e de melhor infraestrutura. 

No mundo globalizado, em que empresas digladiam pelo mercado, ganha cartão vermelho o executivo-chefe que perder a disputa por nacos a mais de participação. Por que no futebol-empresa teria de ser diferente, se a perda de uma competição fundamentalmente por equívocos de comando lança uma companhia na zona cinzenta da desconfiança?   

Tanto não é diferente que outros clubes brasileiros, que experimentam há pouco tempo as responsabilidades do empreendedorismo, também reagem com demissões de treinadores derrotados. A lógica do capital não é diferente da lógica da paixão quando se trata de futebol.   

Diferenças enormes   

O que se viu ao final de Corinthians e Palmeiras pela semifinal da Libertadores foi a festa de uma equipe mais objetiva, mais ousada, mais determinada e mais preparada emocionalmente diante de um adversário mais aquinhoado em salários, em torcida e em estrelas individuais.  

Nos títulos anteriores que Oswaldo de Oliveira disputou, contra o Atlético Mineiro no Campeonato Brasileiro e o Vasco no Mundial de Clubes, evidenciaram-se dificuldades de surpreender os concorrentes com alguma estratégia diferenciada e medidas táticas decorrentes de situações de jogo que recomendavam ousadia ou cautela.   

Oswaldo de Oliveira teve dificuldades extremas de escolher entre avançar ou recuar mesmo naqueles dois títulos. Contra o Palmeiras, então, desprezou a importância de jogar com o regulamento e permitiu o tempo todo que o melhor jogador adversário, o genial Alex, se mantivesse absolutamente desmarcado. Em situação análoga, Felipe Scolari não teve dúvidas, em Buenos Aires, ao transformar o veterano César Sampaio em sombra de Riquelme, o maior astro argentino, além de escalar outros dois jogadores de contenção, deliberadamente em busca do empate.   

A imprevisibilidade do Corinthians de Oswaldo de Oliveira  concentrou-se inteiramente nos próprios jogadores. Taticamente nada de novo o treinador desenvolveu. Foi incapaz inclusive de anular as sempre ameaçadoras cobranças de faltas do Palmeiras nos dois jogos decisivos. Situação que o técnico do Boca Juniors soube neutralizar no primeiro jogo disputado em Buenos Aires, avançando os zagueiros e provocando impedimento. Já no empate-vitória no Morumbi, Carlos Bianchi tratou de neutralizar Alex e Júnior, únicos palmeirenses com capacidade de decidir individualmente um jogo, e o que se viu todos sabem.   

Qualquer consideração que se faça sobre o comportamento de determinados jogadores do Corinthians, sobretudo de estrelismo, só agrava o quadro de análise de Oswaldo de Oliveira. Afinal, o rendimento de qualquer equipe está diretamente relacionado à liderança do treinador. Em qualquer empresa, os colaboradores refletem o entusiasmo ou a frouxidão do líder ao qual estão subordinados.   

O Corinthians de Oswaldo de Oliveira -- e as denúncias foram feitas em tom de revolta pela Gaviões da Fiel -- incidia na falta de responsabilidade de preparação, a ponto de esgotar suas forças por volta dos 15 minutos de cada segundo tempo.    

A medida exata para dimensionar o quanto o elegante Oswaldo de Oliveira é responsável pelo fracasso do Corinthians na semifinal da Libertadores pode ser rebocada do banco de reservas do arquirrival Palmeiras. Experimentem imaginar o estridente Luiz Felipe Scolari dirigindo o Corinthians. O segundo jogo teria sido mera formalidade regulamentar.  

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