Política

Pesquisa que coloca Paulinho
Serra com 50% pode ser fajuta

  DANIEL LIMA - 28/10/2020

Pretendia utilizar outro adjetivo provavelmente mais nobre, menos duramente popular, mas optei por “fajuta” porque a situação assim o exige. Os 50% que, recentemente, o Data Real Big Time atribuiu ao prefeito Paulinho Serra em pesquisa eleitoral em Santo André podem ser resultado de uma orquestração espertíssima que visaria embromar os eleitores de Santo André.   

O melhor mesmo é dizer que a pesquisa é fajutice, combinada com caixa-dois, mesclada possivelmente de lavagem de dinheiro. A situação é grave. Tão grave que a Procuradoria Geral da República deverá investigar o caso e tantos outros sob o guarda-chuva daquele instituto de pesquisas. 

Vou dar logo os nomes aos bois e à boiada para que eventuais gataborralheirescos não coloquem essas linhas em compartimento de especulação e de idiossincrasia.  

Quem sugere que o Data Real e outros institutos são suspeitos de industrializar mentiras é o comando da Abep (Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa), entidade que reúne as mais tradicionais organizações do meio e estabelece parâmetros mínimos de governança da atividade.  

Revelações do Valor Econômico 

Os representantes da Abep estão tão alarmados com o que têm observado durante a atual campanha eleitoral que encaminharam pedido de investigação ao Procurador-Geral da República, Augusto Aras.  

A suspeita no setor é que muitos dos trabalhos registrados sequer tenham sido feitos. Acreditam também que pode haver situações de políticos pagando pesquisas com dinheiro de caixa-dois, lavagem de dinheiro e registro protocolado no TSE meramente para dar aparência de legalidade em propaganda mentirosa.  

Fiz questão de repetir acima os trechos da reportagem de hoje do jornal Valor Econômico. Não os cerquei de aspas para não ter de revelar a fonte antes da hora. Foi da reportagem do jornal paulistano que cheguei por deliberação própria ao prefeito de Santo André. Afinal, a campanha eleitoral do tucano fez e ainda faz uso dos dados da Real Time.  

Denúncias da Abep  

A matéria do Valor Econômico sob o título “Pesquisas autofinanciadas proliferam” é, portanto, a base de minhas conclusões. E são conclusões mais que apropriadas, conforme mostro na sequência.  

Para fundamentar o que interpreto como um risco a que correria eventual novo mandato de Paulinho Serra, porque a Justiça Eleitoral poderia pegá-lo de calças curtas de legalidade, reproduzo os principais trechos da reportagem do Valor Econômico.  

 A quantidade de pesquisas eleitorais financiadas pelas próprias empresas pesquisadoras praticamente quadruplicou nesse ano em relação à última eleição municipal, em 2016. Quatro anos atrás, a 29 dias do primeiro turno, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) havia recebido 696 registros de levantamentos de intenção de voto feitos com “recursos próprios”. Neste ano, considerando o mesmo período pré-eleitoral, foram 2.630 casos assim no banco de dados da Justiça Eleitoral. Um aumento de 278%. Num período em que o financiamento empresarial de campanhas segue proibido, a proliferação de pesquisas pagas pelos próprios institutos faz com que um conjunto de “institutos” pequenos e pouco conhecidos desponte, pelo menos no papel, como responsável por um inédito e milionário “investimento” em eleições.   

Mais Valor Econômico   

 Nos registros do TSE, essas empresas informam que já desembolsaram R$ 34 milhões para, a fundo perdido, apurar intenções de voto de candidatos a prefeito e vereador em centenas de municípios do país. O registro de pesquisa no TSE é obrigatório para resultados que serão veiculados pela imprensa ou na propaganda eleitoral. O convencional é que pesquisadores sejam contratados por jornais, TVs, bancos, partidos ou sindicatos interessados na divulgação. É assim que normalmente atuam as marcas mais conhecidas do setor, como Datafolha, Ibope, Ipespe e Vox Populi. Uma empresa de pesquisa pode eventualmente financiar o próprio trabalho para divulgar sua marca, prospectar clientes. A proliferação de pesquisas com “recursos próprios” é classificada como “fenômeno inusitado” pela Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (Abep), entidade que reúne as mais tradicionais do meio e estabelece parâmetros mínimos de governança. Representantes da associação afirmam que o volume é incompatível com o porte das empresas envolvidas e incongruente com a realidade de dificuldades do setor. (...) Como essas empresas pequenas e desconhecidas têm tanto dinheiro para fazer pesquisa? E pro bono (a fundo perdido)? questiona João Francisco Meira, presidente do Conselho de Opinião Pública da Abep, sócio e um dos fundadores da Vox Populi. “São empresas pouco conhecidas em nome de empresários que não escrevem, não publicam trabalhos acadêmicos, não aparecem em congressos do setor e adotam nomes parecidos com os das empresas consolidadas, diz. “Tem Data Dados, Data News, Ipop, Ipopes, Vox Data, Census com “C” no lugar de “S”, completou.  

Mais Valor Econômico 

 No relatório (enviado ao Procurador-Geral da República) em que descreve indícios de irregularidades no setor, a Abep lista outras estranhezas no crescente universo de pesquisas declaradas com recursos próprios. Uma delas são os baixíssimos custos individuais de produção geralmente associados a esses registros. Embora a associação não aponte nomes no pedido de investigações, não é difícil encontrar no banco de dados do TSE exemplos de registros que se encaixam nas descrições de estranhezas. O Valor procurou as três empresas com maior número de pesquisas com recursos próprios registradas no TSE. A campeã é a Ipop Cidades e Negócios, uma firma de Goiás que diz ter financiado pesquisas para prefeitos em 129 municípios do Estado. Enquanto o Ibope, a maior do mercado, tinha 71 levantamentos registrados em todo o País, o Ipop já havia alcançado marca de 218 trabalhos realizados.  A segunda do ranking é a Real Time Big Data, com declaração de investimento de R$ 901 mil em 138 pesquisas em 86 cidades de 17 Estados. Tudo 100% pago pela própria Real Time, dizem os registros do TSE. A reportagem deixou recados e pediu entrevista por escrito nos contatos divulgados pelas duas empresas. Não houve retorno até o fechamento.   

Ciência e corrupção   

O debate sobre a relevância de pesquisas na definição do processo eleitoral tem importância vital diante do que a própria associação de classe denuncia ao Procurador-Geral da República. As irregularidades apontadas provavelmente terão um ponto de inflexão em direção à imperiosidade de reduzir o potencial de corrupção travestido de ciência – ou alguém tem dúvidas de que mercadores de votos potenciais se apresentam como cientistas políticos?  

O que se viu na divulgação da pesquisa da Real Time sobre supostas preferências eleitorais em Santo André (dados da mesma empresa também abrangeram a disputa em São Bernardo, embora com repercussão bem inferior na mídia) foi uma avalanche em forma de noticiário. Praticamente todos os jornais de papel e digitais da região abraçaram os resultados sem qualquer ponderação. Atuaram, como é corriqueiro na praça, como extensão propagandística.  

Quem disser que a massificação de informações fajutas (é disso que se trata, afinal, segundo constatação da entidade que rege o setor) não conta com a aderência de parcela de indecisos nas campanhas eleitorais para definir os próximos prefeitos e vereadores não estaria trafegando no mundo dos realistas. E quem afirmar, também, que mesmo os eleitores que já fizeram a opção por um candidato, mas que ainda reservam margem de instabilidade na escolha, não seriam levados no bico por dados mentirosos, também precisa mergulhar nos livros de contos infantis.

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