Política

Boulos e Justiça Eleitoral
têm força para mudar voto?

  DANIEL LIMA - 29/10/2020

Tenho duas perguntas delicadíssimas e conclusões precaríssimas diretamente relacionadas às eleições em Santo André e São Caetano em 15 de novembro. Gostaria que os leitores acompanhassem as considerações e, na medida do possível, que participassem dos desdobramentos prováveis. Seria um exercício individual, cada um no seu respectivo quadrado residencial ou de trabalho. Seriam emulações para evitar que a depressão que sempre nos ronda se manifeste. Falar de política sempre é um mecanismo à reação cognitiva. Faz bem para tudo. Praticar política é outra história.  

Mas vamos ao que realmente interessa, no caso as duas questões centrais em Santo André e em São Caetano. 

Primeira pergunta – Qual será o filão adicional de votos de Bruno Daniel em Santo André por conta dos efeitos cada vez mais pronunciados do eleitorado paulistano em optar pelo psolista Guilherme Boulos? 

Segunda pergunta – Até que limite o desgaste da candidatura do favoritíssimo José Auricchio, provocada pelo chamuscamento efetivo do prestígio por conta de decisões judiciais que o colocam fora da disputa, afetará o eleitorado conservador de São Caetano? 

Russomanno caindo   

Vamos começar por Santo André. A tendência de deslocamento da esquerda paulistana em direção a Guilherme Boulos já no primeiro turno não pode ser descartada. Acaba de sair nova pesquisa eleitoral na Capital que dá conta do avanço do psolista. Boulos já ameaça o vice-líder Celso Russomanno.  

Em uma semana Russomanno caiu de 27% para 22% dos votos. Uma trajetória em conflito com o avanço de Boulos, que saltou de 10% para 16% desde setembro. Celso Russomanno cai a toda nova pesquisa. O prefeito Bruno Covas se consolida na liderança com 27%. Ganha relativamente fácil dos dois concorrentes no segundo turno. Sem susto.  Mas não custa lembrar que segundo turno é diferente de primeiro turno.  

A empadinha da candidatura de Bruno Daniel ganhará a azeitona de reforço importante do avanço de Guilherme Boulos em São Paulo porque é histórica e comprovada e influência da disputa em São Paulo. Os efeitos da propaganda eleitoral em rádio e principalmente em televisão são patentes. É verdade que não se sabe e jamais se saberá até que ponto vai incrementar os votos de Bruno Daniel, mas que influencia, influencia mesmo.  

Ailton Lima preocupado  

Convém um parêntese: todo mundo sabe ou deveria saber que o Grande ABC é vítima permanente e histórica do que chamaria de apagão televisivo-eleitoral. As grandes redes nacionais não contam com plataformas locais, com produção local de jornalismo. A mídia de massa tradicional, não tem ancoradouro aqui. Diferentemente, portanto, de diversas regiões do Estado, com emissoras locais afiliadas das grandes emissoras.  

De volta à cena em Santo André: também não se tem garantia alguma de que Bruno Daniel vai ao segundo turno em Santo André, como Boulos poderá ir em São Paulo. Há um Ailton Lima pronto para pegar carona no sucesso de Bruno Daniel e chegar logo atrás do prefeito Paulinho Serra.  

O que Ailton Lima teme é que Bruno Daniel ganhe tração maior do que deve e, além de levar o jogo para o returno, ele mesmo, Bruno Daniel, seria o adversário de Paulinho Serra. Talvez o ritmo do avanço de Boulos na Capital implique na calibragem da distribuição de votos de oposição em Santo André. Quanto mais Boulos acelerar, mais o segundo turno estaria no horizonte de Bruno Daniel e mais Ailton Lima correria riscos.  

Ibope vem aí  

Embora faltem pesquisas sérias sobre o quadro eleitoral no Grande ABC (o Diário do Grande ABC está anunciando que as terá e as publicará em cinco de novembro, da lavra do Ibope, que tem grife mas não pode ser catalogado como insuspeito) há entrelinhas e estrebuchamentos públicos que provocam especulação.  

Quando se bate num determinado candidato opositor ao paço municipal, sinaliza-se inquietação. Quando se ignora, é sinal de que não causa preocupações. Ailton Lima anda apanhando muito de mandantes do jogo em Santo André. Fabio Palacio começou a apanhar em São Caetano. Luiz Marinho segue desprezado em São Bernardo.  

Fora da disputa  

Em São Caetano, o cenário eleitoral passa obrigatoriamente pela possibilidade de José Auricchio ser excluído da disputa por questões legais, como acabou de decidir uma juíza local, acrescentando sentença a outras do mesmo calibre.  

Resta saber se José Auricchio disputará com o dispositivo protetivo de uma liminar ou se vai entregar a rapadura e nomear um substituto a ser escolhido. O estrago à imagem de Auricchio está feito e poderá encorpar-se até o dia 15 de novembro. Aos poucos os eleitores são informados e, simetricamente, Fabio Palacio coloca o time nas ruas.  

Os próximos capítulos em São Caetano dão fôlego a especulações. Auricchio poderia concorrer com liminar mesmo sem garantia alguma de que se sustentaria em caso de vitória. Especialistas garantem que, nesse caso, a corrida eleitoral em turno único seria impugnada e novo pleito seria marcado antes de janeiro.  

Nesse caso, o tucano José Auricchio colocaria em campo um representante que incorporasse a Administração. O problema é que o personalismo dos prefeitos em geral não enseja a configuração de alguém que seja lançado a campo sem que se coloque em risco o suposto legado do mandatário. Não há entre os situacionistas de São Caetano um nome que possa ser analisado seriamente como herdeiro de José Auricchio. A máquina pode ser acionada para fidelizar votos, mas há gente, muita gente, que não faz parte da aderência da máquina.  

Vatapá eleitoral  

José Auricchio concorreria mesmo com fragilíssimas condições legais de ser diplomado porque eventual vitória lhe daria respaldo para indicar, na sequência de nova eleição, um substituto eleitoral com respaldo popular. Estender o jogo, portanto, seria uma artimanha legítima, embora com prazo de validade curto em caso de vitória nas urnas.  

Acho que ninguém conseguiria sustentar argumento de que o substituto de Auricchio seria um Auricchio com outro nome. Pesaria numa nova disputa, agora para valer mesmo, o ambiente geral na cidade, de restrições ainda mais pronunciadas ao grupo que comanda o Paço Municipal.  

Como se observa, tanto no caso de Santo André como de São Caetano, temos um tempero eleitoral de vatapá no Grande ABC. Quem propagou aos quatro cantos, até recentemente, que Paulinho Serra e José Auricchio estariam reeleitos, provavelmente está revendo conceitos.  

Paulinho de velharias  

No caso de Paulinho Serra, a batalha da ponte é a luta desesperada para impedir o segundo turno. Não à toa ainda outro dia o prefeito que decepciona os formadores de opinião sem rabo preso com o Paço Municipal lançou mão de pesquisa caracterizada como fajuta, entre outras irregularidades, para propagar vitória em turno único.  

Paulinho Serra faz parte da velha política, se juntou aos velhos políticos, detesta o contraditório e administra sem transparência alguma. É a antítese das demandas éticas da sociedade.  

Quanto a José Auricchio, não se deve relevar o quanto decepcionou o conjunto dos moradores do Grande ABC e especificamente os moradores de São Caetano em dois quesitos essenciais.  

No caso local, manteve um descuido, quando não descaso, total ao Desenvolvimento Econômico. Dono de 12 anos de mandatos em 20 anos deste século, o tucano não moveu uma palha significativa para dar um cavalo de pau no esfacelamento econômico da cidade.  

No caso regional, mesmo com experiência de três mandatos, José Auricchio simplesmente desdenhou do Clube dos Prefeitos, entregue a um Orlando Morando que partidarizou a instituição além dos decibéis suportáveis deixados por Luiz Marinho, seu antecessor em São Bernardo, e a um Paulinho Serra, direta ou indiretamente no comando, que não tem a menor ideia do que seja regionalidade.

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