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Vírus chinês: Auricchio prefeito
compromete Auricchio médico

  DANIEL LIMA - 22/10/2020

Se o prefeito José Auricchio ouvisse mais o médico José Auricchio, a situação de São Caetano no combate ao vírus chinês poderia não ser significativamente diferente da gravidade que está aí.  O contraponto, entretanto, é que o prefeito José Auricchio estaria em situação muito mais confortável porque estaria mais próximo do médico José Auricchio em termos de comprometimento social. Como preferiu tomar outro caminho, o médico sucumbiu junto com o prefeito.  

O problema entre o prefeito e o médico que ocupam o mesmo corpo e a mesma mente é o mata-burros das eleições municipais. O político que pretende a reeleição superou a atuação do médico, que está em licença funcional. Quem acha que é exagero juntar o prefeito e o médico numa mesma conjectura está desprezando a interatividade pessoal e profissional que se retroalimentam, muitas vezes em conflito.  

Querem um exemplo? Vivo às turras com o Leinad Amil. Quem não sabe quem é Leinad Amil? É meu oposto. Que me enche o saco, com perdão da expressão. Leinad Amil quer que eu seja um sacerdote e o contrário dele, que sou eu, insiste em ser jornalista. Mas, voltemos ao que interessa.  

Caçapa internacional  

São Caetano é um dos piores endereços em letalidade do vírus chinês no Brasil e no mundo. Os indicadores assustam apenas quem despreza a lógica da pandemia que faz de São Caetano hospedaria compulsória.  

Como adiantamos há muito tempo, São Caetano não resistiria aos últimos postos em qualquer ranking que contasse com a âncora medidora do Coronavírus. O prefeito e o médico José Auricchio sabem disso. Até as árvores do Parque Chico Mendes também sabem.  

Ora, bolas, se tudo isso não é nenhuma surpresa, qual é o calcanhar de Aquiles do prefeito e do médico José Auricchio?   

Vou repetir para que não persista dúvida: o prefeito errou flagrantemente ao se deixar contaminar por outro tipo de vírus, o vírus das urnas. E o médico foi sufocado pelo prefeito que não lhe deu ouvidos.  

E para que não fique dúvida, também vou repetir: o prefeito José Auricchio cometeu um equívoco que, entretanto, não o vincula à letalidade do vírus chinês. Não pelo motivo que exponho.  

Perda duplicada  

Quem mais perdeu com essa história toda foi o próprio prefeito e, em consequência, o médico que deveria prevalecer na empreitada. José Auricchio poderia estar consagrado junto à população nesta altura do campeonato. Não está e nem deve estar, porque errou. Atirá-lo à fogueira, entretanto, seria um exagero. Faltou a ele e aos assessores seguir o manual internacional dos primeiros tempos do Coronavírus. Olho na população de idosos.   

Afinal, o que deveria ter feito o prefeito José Auricchio no combate à pandemia de tal forma que incrementasse orgulho ao médico José Auricchio?  

Ora, simplesmente levado à população o potencial inesgotavelmente severo dos efeitos mortais do Coronavírus.  

José Auricchio prefeito não só transgrediu essa lógica como a maculou com um marketing triunfalista sem sentido. Um marketing, aliás, impresso e expresso nos jornais de papel e digitais de hoje, quando se exalta o número de testes contra o vírus chinês. Uma estupidez em larga escala, porque a modalidade não conta com respaldo de especialistas. Vou deixar esse ponto para parágrafos posteriores. 

Buracos incontroláveis  

Lembro, antes, que São Caetano é um centro de alta vulnerabilidade ao vírus chinês. O terreno é fértil como em nenhum outro na Região Metropolitana de São Paulo e na quase totalidade do País. Vejam os pontos cruciais, os quais apontei desde março, quando comecei a escrever sobre o Coronavírus: 

 Alta densidade demográfica. 

 Elevadíssima participação de idosos. 

 Vizinhança metropolitana nociva. 

No mundo inteiro as mídias em geral apontavam desde as primeiras repercussões da pandemia chinesa que esses três vetores se configuravam especificamente terríveis. Isoladamente ou não. No caso de São Caetano, conjuntamente. 

São Caetano conta com mais de 12 mil pessoas por quilômetro quadrado num Grande ABC e numa Região Metropolitana de São Paulo que não chegam a três mil, em média. Ou seja: a densidade demográfica para efeitos pandêmicos é um colapso.  

A população de São Caetano com 60 anos ou mais representa um quarto do total de 161 mil moradores. A média do Grande ABC não passa da metade disso, como no Brasil.  

A metrópole paulista é uma das áreas mais degradadas em termos ambientais do planeta. As condições logísticas e a infraestrutura física e social comprometem a saúde da população. Numerosos exércitos da População Economicamente Ativa de São Caetano deslocam-se diariamente na metrópole. São Caetano transforma-se cada vez mais no que os especialistas chamam de cidade-dormitório. 

A melhor alternativa  

Colocado tudo isso de forma sucinta, breve, a pergunta é o que deveria ser massificado numa campanha de comprometimento público com a sociedade pelo prefeito José Auricchio?  

Que alertasse a população sobre os riscos evidentes de morar em São Caetano. De quebra, já que ninguém é de ferro, poderia ter carregado a campanha de subliminaridade eleitoral. Bastaria dizer que por melhores que fossem em situação de normalidade, os indicadores sociais de São Caetano, entre os melhores do Brasil, sofriam grande ameaça por conta de algo estupidamente irrefreável.  

Não vou me estender sobre o que poderia ter sido feito em forma de marketing do bem, do bem mesmo, não do bom de bico.  

O que fez a Administração de José Auricchio, que não deu ouvido ao médico José Auricchio? Omitiu o tempo todo as vulnerabilidades de São Caetano.  

Ao invés de realçá-las como defesa preventiva aos ataques de letalidade que viriam, vieram e continuam a vir, preferiu-se distribuir a torto e a direito informações marcadas pelo vício de um marketing de pé quebrado, de cunho claramente eleitoral. Caso das informações publicadas hoje sobre o nível de testagem da população.  

Testagem inútil  

Está no Diário do Grande ABC, sob o título “S. Caetano testa metade da população”, que a taxa é mais que o dobro da obtida pelo Distrito Federal, que, segundo o IBGE, é o ente da federação que mais realizou exames da Covid-19.  

Também diz a reportagem do Diário do Grande ABC que São Caetano acumula 3.991 moradores infectados pelo novo Coronavírus e 221 mortes causadas pela doença. “Se consideramos apenas os testes rápidos, foram 47.259 exames realizados até agora, sendo que 3.444 (7,3%) deram resultado positivo”, escreveu o jornal. 

O que são testes rápidos? Veja o que diz o médico sanitarista e professor da Faculdade de Medicina da USP, Gonzalo Vecina Neto: “Os testes rápidos para a Covid-19 equivalem a jogar cara ou coroa. Melhor jogar cara ou coroa que é mais barato”.  

Visibilidade de ação  

Querem mais? Outro especialista, Ricardo Nicolau, diretor do Hospital de Campanha de Manaus, acrescentou num debate sofre o assunto: “Os testes rápidos não têm eficácia porque dão muito falso negativo e só apresentam diagnóstico na fase aguda da doença”. 

Não se tem notícia de um especialista sequer que coloque os testes rápidos como algo que possa ser definido além de charlatanismo estatístico. Pois os testes rápidos anunciados pela Prefeitura de São Caetano representam mais da metade do total de testes a que foram submetidos os moradores.  

E os testes rápidos foram estrategicamente instalados em pontos de alta visibilidade em operações chamadas de drive-thru.  

Medidas eleitorais  

Sem exagero algum, a gestão de José Auricchio fez com os testes rápidos medidas eleitorais, porque é inconcebível que profissionais de saúde à frente das iniciativas da Administração Municipal desconheçam a improdutividade das iniciativas.  

Suavidade crítica  

Posso dar testemunho pessoal sobre o ambiente de suposta eficiência de São Caetano no combate à pandemia. Estive várias vezes na cidade nos últimos meses e não houve situação em que não encontrasse um batalhão pronto para testagens rápidas.  

A medida impressiona e transmite a falsa segurança de que a gestão municipal está atenta à situação de perigo. Só faltou combinar com os russos dos idosos, vítimas preferenciais da pandemia. Mais de 80% dos óbitos em São Caetano e no País como um todo estão entre pessoas com 60 anos ou mais de idade. 

São Caetano contabilizava ontem 225 mortes por Coronavírus. A taxa universal por 10 mil moradores alcança 13,97% ante 9,84% do Grande ABC como um todo. No Estado de São Paulo são 8,52%. No Brasil, 7,33%.

Traduzindo: se o Brasil fosse São Caetano, teríamos registrado ontem 296 mil óbitos pelo vírus chinês. Temos de fato 155 mil.  

Enfrentasse algo como o poderio bélico-crítico da Grande Mídia ao presidente Jair Bolsonaro (e aqui não vai qualquer juízo de valor sobre o desempenho do chefe de Estado nacional), o prefeito José Auricchio não teria como se refugiar de execração generalizada, mesmo lembrando que,  por mais que fizesse ou eventualmente esteja a fazer no combate à pandemia, dificilmente os resultados seriam substantivamente outros.  

José Auricchio prefeito teria, entretanto, preservado a ética de José Auricchio médico. Afinal, não se recomenda que se trate uma hospedaria pandêmica como hotel de classe internacional para turistas durante verão inesquecível.  A metáfora pode ser exagerada, mas caberia bem numa charge de campanha eleitoral.

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