Nosso Século XXI (2ª Ed.)

O ensino é instrumento
para uma cultura de paz

ALEXANDRE TAKARA - 16/09/2008

O medo revela a crise da contemporaneidade, um tempo nervoso. Explicitemos seu conceito. Medo é o sentimento de sermos vítimas de um mal-estar real que atenta contra a vida. E, dessa perspectiva, a vida é um ato de improbabilidade, pois tudo está contra ela: a corrupção, o narcotráfico, a violência, o fundamentalismo religioso e político. Medo gera incerteza, vulnerabilidade e destruição. Em termos fisiológicos, é, no extremo, uma emoção violenta decorrente da consciência de um perigo iminente. O medo provoca comportamentos contrastantes, dependendo de pessoas e de circunstâncias: acelera ou reduz o ritmo cardíaco, torna a respiração mais rápida ou mais lenta, dilata ou contrai os vasos sanguíneos e inibe ou leva a movimentos desconexos.


No entanto, o medo assume outra forma: vago, difuso, sem rosto e sem objeto. Gera desconforto, o que o torna difícil de analisar. Decorre de não sabermos precisar a causa. Daí, o sentimento de insegurança. Temos medo de que quem se aproxima de nós pode nos vitimar. Mas somos o outro para ele. Por isso, ele também tem medo de nós, pois nos vê com desconfiança.”O inferno são os outros”– afirmava Sartre.


Há motivo para a desconfiança porque o mais violento dos homens pode apresentar-se como cordeiro para familiares e amigos. O Lacri (Laboratório de Estudos da Criança, da Universidade de São Paulo), com base em fontes como hospitais, conselhos tutelares e juizados, constatou que de 1996 a 2007 foram registrados no País quase 50 mil atos de violência cometidos pelos familiares contra crianças no interior das residências, resultando em 532 mortes. A entidade da USP admite que apenas pequena parcela dos casos é denunciada, pois a maioria é ocultada no silêncio do lar. A serpente da violência instalou-se nas famílias. O Lacri também constatou que nem todas as crianças espancadas vão para a marginalidade, mas quase todos os marginais passaram por violência.


É tanto medo hoje que moramos em condomínios fechados, refugiamo-nos em shopping centers, andamos em carros blindados com vidros escurecidos. Mesmo assim, somos vítimas de balas perdidas. Instalamos câmeras eletrônicas para maior eficiência de segurança. Segundo a Abese (Associação Brasileira de Sistemas Eletrônicos), no ano 2000 havia cerca de 120 mil câmeras eletrônicas instaladas na Capital paulista, em prédios de apartamentos e de escritórios, supermercados, shoppings, lojas, farmácias, escolas e avenidas movimentadas. Recentemente, também nos parques. Paranóia. Temos a estranha sensação de estarmos sendo vigiados o dia todo, todos os dias.


Essa estranha sensação parece uma novela da vida real. Um cidadão comum sai de seu apartamento e, logo cedo, está sendo vigiado pela câmera da portaria do prédio. Dirige o carro por uma avenida movimentada e está sendo filmado. Entra no elevador do prédio onde trabalha e é advertido de que está sendo visto, por isso, pedem-lhe: sorria. Vai ao banco, o olho eletrônico o observa. À noite, na universidade, a entrada, corredores e escadarias por onde passa são monitorados. Ao retornar ao seu apartamento, continua sendo vigiado. As imagens são enviadas aos centros de informações onde é visto em telões. Confundem-se o público e o privado.


No passado, o medo vinha do
sobrenatural. Hoje, transformado em
pânico, vem do próprio homem


Ninguém põe em dúvida que o medo, desde que não atinja nível patológico, é um sentimento natural, pois resulta da tomada de consciência de um perigo iminente. Nesse sentido, o medo é bom porque nos põe em guarda. Mas hoje o medo, por ser difuso e vago, nos inquieta, pois ignoramos de onde vem o perigo. Apenas o pressentimos. O medo transforma-se em pânico por impossibilidade de vislumbrá-lo. No passado, o medo vinha da natureza e do sobrenatural. Hoje, estamos convencidos de que o grande perigo vem do próprio homem e de suas instituições.


O medo institui a polícia, o exército, a espionagem, os tribunais de justiça, os cárceres. Está presente também no cotidiano familiar. Está explícito na construção de muros para proteger nossas casas encimados por grades com flechas pontiagudas, nos condomínios fechados, nas ruas tornadas privativas, nas trancas das portas e janelas, nos cofres fechados com chave, nos carros blindados, nos coletes à prova de balas perdidas, contra a bandidagem e contra infinitas formas de ameaças. A relação entre homens não se estabelece a partir da boa vontade, mas a partir do medo recíproco. O medo está na raiz da vida social. Isso faz acreditar que o medo é o fundamento da sociedade civil. Qualquer desconfiança pode azedar a relação. A paz é frágil, pois construída sobre o medo. Muitos homens, no afã de sobrevivência, despojam-se da liberdade. Alienam-se, coisificam-se e se entregam a um poder externo — chefe autocrático, religião, sistema de produção ou Estado. Dessa forma, é difícil conquistar autonomia.


O Grande ABC não está imune ao medo. Basta ler a imprensa regional, ver TV ou debruçar-se sobre pesquisas acadêmicas como Medo Social — da Violência ao Invisível da Violência, de Luzia Fátima Baierl (Cortez Editora, 2004), realizada em Santo André de 1999 a 2002, com 23 tabelas, 16 gráficos, dois mapas e dois quadros. Só analisando os números percebemos a vulnerabilidade a que estamos expostos.


Como superar essa situação? Aqui, entra o papel da educação. Vou tentar encaminhar a resposta com ênfase na educação, educador que sou. Apontarei apenas grandes avenidas, abordando questões centrais que permanecem ignoradas ou esquecidas. No entanto, são fundamentais para a educação do futuro. Neste ensaio, a educação é entendida como formal (que é aprendida na escola) e como não-formal (aprendida fora dos bancos escolares).


Todos concordamos que é de capital importância ensinar a ler, a escrever, a contar, a desenvolver hábitos de higiene e a transmitir a cidadania. Sem essas competências e habilidades, um povo está fadado à decadência. O problema se agrava se considerarmos a realidade mutável provocada pelo crescimento exponencial das ciências e da tecnologia. E, mais grave, o ensino não responde a questões de fundo como autoconhecimento, liberdade e responsabilidade, autonomia, ética e direitos humanos, a não ser de forma superficial e quando ocorre.


Isso é reducionismo, pois a vida das pessoas é reduzida a critérios econômicos nem sempre compatíveis com os valores da cidadania. Ter é o verbo que melhor representa essa educação, bem como seus correlatos possuir, acumular. Para ter, o indivíduo passa o dia correndo e não sobra tempo para si e seus próximos. Todos os dias é acordado pelo despertador, um equipamento que, literalmente, significa desperta a dor. Só a cultura do ter, desvinculada de outros valores, conduz à patologia moral, social e orgânica, conhecida como normose, isto é, um conjunto de hábitos tidos como normais que, na realidade, são patogênicos e levam à infelicidade e à doença.


A paz demanda nova forma de
enfrentar conflitos e a reforma do ensino
para também reformar o pensamento


O “conhece-te a ti mesmo” do velho Sócrates precisa ser resgatado porque significa o autoconhecimento e é o princípio de toda a sabedoria. Ao resgatar esse conceito, estaremos renascendo para o espírito. O renascer no/para o espírito significa a pedagogia da convivência, fundada nos conceitos de justiça social, dignidade, igualdade e liberdade. Estes valores constituem o cerne de direitos humanos, de que resulta a cultura de paz. E cultura de paz demanda novas formas de organização social, novas formas de enfrentar conflitos e novas formas de exercer cuidados com o homem e com o meio ambiente. Aqui, cuidado tem dimensão ética. Portanto, o enfoque tem de ser a formação do ser humano.


Começo por evocar a afirmação de Montaigne (século XVI) “mais vale uma cabeça bem-feita do que bem-cheia”. Analisemos à luz da contemporaneidade. Cabeça-cheia significa a hiperespecialização, ou seja, a especialização que se fecha em si mesma, bem na perspectiva do paradigma cartesiano. Esse paradigma impede de ver o conjunto e os problemas essenciais. Esse paradigma fragmenta o todo em partes e dilui uma questão central em detalhes. Cabeça bem-feita propõe, ao contrário, conhecer o todo e as partes. Cabeça bem-feita não separa; une os saberes.


Edgar Morin retoma o pensamento de Montaigne ao publicar o livro A Cabeça Bem-Feita (Bertrand Brasil, 2006). Na obra, propõe reformar o pensamento para reformar o ensino e reformar o ensino para reformar o pensamento.


E a cabeça bem-feita passa pela transcendência e autoconhecimento. O ponto de partida é a sociedade como realidade objetiva e subjetiva. Isso se dá com a interiorização da realidade, através da socialização — processo pelo qual uma criança recém-nascida ingressa na sociedade. Na medida de seu crescimento, participa de novos setores do mundo objetivo: escola, igreja, trabalho… O mundo do trabalho impõe estilo de vida voltado ao mundo exterior, pois é aí que encontra subsídios para a sobrevivência, frequentemente, em prejuízo do mundo da subjetividade, de que resulta o desconhecimento de si. E isso fragiliza a pessoa.


O desconhecimento de si resulta da falta da dimensão de transcendência que permite superar a si mesmo no sentido de o ser humano desenvolver suas potencialidades, ser-o-que-ainda-não-é, mas poderá-vir-a-ser. Transcender é nascer de novo, é nascer para o espírito. A transcendência instala a ética, hoje tão fragilizada. A transcendência restaura a esperança na educação
humanista, que caminha de uma educação puramente utilitária para uma educação de inteireza no sentido de conceber e compreender o ser humano na sua totalidade física, biológica, racional, emocional e espiritual. Da inteireza decorre o autoconhecimento, resultado da autopoiese — a construção do sujeito.


Por isso, a liberdade é condição para o desenvolvimento individual e coletivo, para consciência reflexiva e para germinação da história. Graças à liberdade, o homem se autodestina, propõe-se a vir-a-ser o que ainda-não-é. Ele se desvela e se reinventa até chegar ao esclarecimento. Eis o tríptico: liberdade, consciência e autonomia. Dotado dessas dimensões, o homem destrava portas. Projeto ilimitado, não se deixa enquadrar. Avançar sempre. Quanto mais avança na liberdade, mais aumenta o peso da responsabilidade. Avançar com responsabilidade é um gesto solitário. Por isso, precisa de companheiros nessa jornada. Gesto individual e coletivo. Nessa caminhada, são tomados de desespero. Mas o desespero, nesse caso, é produto de lucidez. Pessoas assim é que fazem a humanidade caminhar, porque agem no mundo e sobre o mundo. O homem transforma e se transforma. Sente-se responsável por um mundo melhor. Por isso, é um ser de história. Avançar é transcender. Significa passagem, travessia, transformação.


Aqui, uma questão se coloca. Por que há pessoas, mesmo sociedades, que em alguns momentos de sua história amordaçam os avanços? Por que procuram acorrentar o tempo social que acena com novos caminhos e novas esperanças? Por que matam as sementes da história no seu nascedouro? Porque têm medo da liberdade. A liberdade impõe responsabilidade social, essa responsabilidade que atormenta o individualismo. Na melhor das hipóteses, as pessoas procuram atender a uma pequena roda de parentes e amigos. Apequenam-se. Sofrem de uma doença crônica — o infantilismo ético e intelectual.


Outra questão. Como se coloca a liberdade face às desigualdades sociais? É possível conquistar liberdade em situação de miséria? Quanto mais carências, menores as possibilidades de as pessoas se libertarem. Limitam-se à sobrevivência biológica, sem possibilidades de vôos mais elevados. Desejam, mas estão presas à situação de subumanidade. A miséria também aliena e desumaniza. No extremo, o homem corre o risco de regredir ao estado de animalidade.


Mas há sinais de esperança no horizonte. Hoje, há mais possibilidades de ser livre e de humanizar-se do que no passado em virtude do desenvolvimento tecnológico e da elevação da consciência crítica em relação às desigualdades sociais, a despeito de muito preconceito social e intolerância, sobretudo dos mais afortunados. Surgem movimentos internacionais e nacionais em favor, se não da eliminação das desigualdades, ao menos da redução destas no mundo. No Grande ABC os movimentos ainda são tímidos. Prefeituras, Câmaras Municipais e algumas entidades da sociedade civil organizada deles participam. Contudo, os movimentos mais intensos são observados nas favelas e na periferia, principalmente em torno de artes como rap, grafite, MC, break, linguagens do movimento hip-hop. Fiz pesquisa a respeito que foi publicada em forma de livro, Educação Inclusiva e Movimento Hip-Hop (Edições Alpharrabio, 2003).


Cultura de paz e pedagogia da convivência têm por objetivos reduzir as desigualdades sociais e debelar o medo e a violência. Embora o problema seja universal, não é possível fazer abordagem se não em nível local e regional em virtude de especificidades de cada lugar. O que é possível, isso sim, é organizar encontros e seminários com vistas à troca de experiências, como faz a Unesco em várias partes do mundo. As duas iniciativas fundem-se, pois são alicerçadas na dignidade, igualdade, justiça social e liberdade que, em síntese, caracterizam os direitos humanos. A considerar ainda que toda relação humana pressupõe valores, formas de organização, sistemas de relacionamentos e metodologias.


Não é fácil, pois há resistência em virtude da prevalência dos critérios econômicos em prejuízo do exercício da cidadania. Além disso, há os fatores de tolhimento, como o preconceito social e o seu duplo, a apartação social, do que resulta a tendência de satanizar os que são diferentes. A satanização culmina na fagocitose social, processo pelo qual o invasor, no caso o diferente, tido como causador da necrose social, é expulso do convívio social. No Brasil, por força da Constituição de 1988, adotou-se o PNDH(Programa Nacional de Direitos Humanos), destinado a populações vulneráveis como afrodescendentes, idosos, mulheres, crianças, índios, estrangeiros e portadores de deficiências.


O Grande ABC tem de adotar, urgentemente, o Manifesto 2000, lançado pela Unesco em 1999 em escala mundial, que se compõe de seis princípios: respeitar a vida, rejeitar a violência, ser generoso, ouvir para compreender, preservar o planeta, redescobrir a solidariedade. O Manifesto 2000 é compatível com proposta de outra comissão da Unesco, presidida por Jacques Delors: aprender a conhecer, aprender a viver junto, aprender a fazer e aprender a ser. Por parecerem abstratas, essas propostas não são colocadas em prática. Um equívoco. Pode ser difícil aplicá-las em virtude do estilo de vida de hoje, voltado mais para o mundo exterior do que para o mundo interior, o mundo da subjetividade. Já é um grande avanço se soubermos se aquilo que fazemos conduz à paz e ao bem da humanidade, se soubermos as formas de conflito, suas causas e efeitos e o que fazer para superá-lo. E se aumentarmos a autopercepção, da vida familiar, profissional e da comunidade. Já são grandes avanços. Mas ainda são partes, pois devemos avançar também na prática de direitos humanos, da democracia e da preservação do planeta.


Uma observação: é preciso alertar que as mudanças que virão são imperceptíveis no curto prazo. Mas é necessário prosseguir e avançar. Não é possível viver tanto tempo sob o signo do medo, como hoje. Nossa época está insuportável, mas, consultando as páginas da história, verificamos que períodos de muita insegurança e medo foram substituídos por ciclos de bonança, paz e respeito. Isso significa que a cultura de paz e a pedagogia da convivência são possíveis, a começar por pequenos grupos e comunidades. É possível, pois, reduzir o medo e a violência no Grande ABC. Para isso, há a necessidade de mobilizar a criatividade e a sensibilidade individuais e coletivas.


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