Vamos terminar hoje a tarefa básica que trata do comportamento do PIB de Consumo do Grande ABC neste século (de 2000 a 2027 com base em 1999) para dizer que os demais municípios locais perderam um pouco menos que São Bernardo no volume geral, mas não existe nenhum sentido em mitigar o drama revelado. Essa vizinhança, que vai muito além da cartografia, como se verá em seguida, segue contaminada pela Doença Holandesa Automotiva preponderantemente ativa em São Bernardo. Uma enfermidade socioeconômica que se espalha por esse território regional de 800 quilômetros quadrados e quase três milhões de habitantes.
Deixei para mais adiante o exame das vísceras dos estragos do PIB de Consumo do Grande ABC no período, observando-se exclusivamente a classe rica e a classe média tradicional, como o fizemos especialmente com São Bernardo. O resultado comprova que a Doença Holandesa Automotiva é mesmo um terror para São Bernardo e também à vizinhança, embora em grau menos dramático.
PARENTESCO RELEVANTE
O balanço geral do PIB de Consumo é essencial para compreender o ritmo do Desenvolvimento Econômico do Grande ABC, em paralelo de importância com o PIB Tradicional. Um PIB é o acumulo de riqueza em forma de recursos financeiros. O outro PIB é geração de riqueza em produtos e serviços. Acreditar que um é independente do outro é desprezar os feitos de Pelé e Coutinho, a dupla mais marcante do futebol brasileiro. No caso, a São Bernardo automotiva é o Pelé de preocupações.
O desastre de São Bernardo é mesmo imbatível. Não é fácil sucumbir 56,50% no volume monetário no PIB de Consumo, com efeitos dilacerantes sobre a classe dos ricos e a classe média tradicional em combinação com o inchaço das periferias. Isso significa que a queda do PIB Tradicional estraçalhou a distribuição de reservas financeiras da maior cidade da região e uma das maiores do País.
São Bernardo comeu o pão que o diabo amassou com Fernando Henrique Cardoso, recuperou parcialmente com Lula da Silva e depois mergulhou nas trevas com Dilma Rousseff. Foram dois dilúvios interrompidos apenas temporariamente. Essa trajetória inclui também a brevidade estremecedora de abertura abrupta dos portos com Fernando Collor de Mello.
GOVERNO DEPOSTO
Se São Bernardo fosse um País, os governos teriam sido depostos. Sem choro nem vela. A combinação de PIB Tradicional em baixa e PIB de Consumo desabando não seguraria uma viva alma do governo do suposto Pais.
Como São Bernardo é Município e os municípios, mesmo com falhas e acomodação, quando não ignorância e comodismo, não respondem pelos principais indicadores que determinam as consequências, porque isso é mais mesmo com o governo federal, todos os prefeitos que passaram por São Bernardo desde então completaram os respectivos mandatos. Nada mais natural.
Pelo fato de São Bernardo ter perdido 56,50% ( R$ 25.227.479 bilhões) do PIB de Consumo neste século e os demais seis municípios terem em conjunto completado o estrago com 19,90% de baixa, fica evidenciado que é mesmo e sem apelação que o buraco é mesmo mais embaixo no setor automotivo, montadoras e autopeças.
ESPALHAMENTO
Afinal, é a atividade de maior capilaridade e predomínio na Economia de São Bernardo. Os demais municípios da região não contam com tanta dependência. Nem mesmo São Caetano da General Motors. Mas, mesmo assim, sofrem as consequências. O setor automotivo se espalha em suprimento de peças por toda a região. Além claro, de empregos diretos e indiretos.
O preocupante em tudo isso e é impossível não chegar a essa conclusão é que o que parece ser mais específico de São Bernardo estremece Santo André, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra. A influência do setor automotivo se espalha como ondas sísmicas. Fica nítido, portanto, que o Grande ABC precisa se preparar mesmo para o pior. A regressão participativa do PIB Industrial em São Bernardo vai se acentuar e com isso levará a novos buracos também na vizinhança.
BUSCAR ALTERNATIVA
Escrevi ainda outro dia que já admito uma reação menos compulsiva às perdas do setor industrial em termos de participação relativa no conjunto de produção de riquezas. O Valor Adicionado da indústria de transformação é de 25% do PIB Tradicional. Em 1999 era praticamente o dobro. Já joguei a toalha à tentativa de reaquecer as turbinas e procurar capturar indústrias com qualquer tipo de política de incentivo. Entendo que esse discurso está superado.
Estou até conformado. Nos próximos 10 anos não passaremos de algo próximo de 15% de PIB Industrial ante o PIB Geral do Grande ABC. Por isso temos de buscar variáveis no setor de serviços com agregado tecnológico. Precisamos estar preparados para novos rebaixamentos da qualidade de vida, apesar do foco dos governos municipais centrados em politicas públicas voltadas ao pronto-socorrismo inevitável.
DOIS PILARES
O que nos salva ainda de uma queda mais grave no PIB Industrial e que afetaria duramente o PIB de Consumo é que tanto Mauá quanto Santo André têm no Polo Petroquímico e na cadeia química batalhões de resistentes. O problema todo é que as duas atividades, especialmente a petroquímica, gera pouco emprego comparativamente aos investimentos. A cadeia do setor químico é mais generosa, mas mesmo assim tem expansão limitada.
Tanto é verdade que Mauá, que tem o melhor comportamento do PIB Industrial da região neste século porque o Polo Petroquímico de Capuava é a salvação da lavoura fiscal, perdeu 24,58% do PIB de Consumo medido pela Consultoria IPC entre 1999 e 2026. A riqueza do Polo Petroquímico não se espalha em forma de empregos. Tem resultados mais incisivamente fiscais.
Santo André depende menos que Mauá do Polo Petroquímico em arrecadação fiscal, mas também acusou golpe do PIB de Consumo no mesmo período, com queda de 19,25%. São Caetano perdeu menos, apesar dos desfalques da General Motors no período, porque conta com uma distribuidora petroquímica da Petrobrás. Mesmo assim não escapou de rebaixamento de 16,71%.
DIVERSIDADE SALVA
O que salvou Diadema, vizinha de São Bernardo, de semelhante estrondo no PIB de Consumo é que a Economia da cidade que elegeu o primeiro prefeito petista no País, Gilson Meneses em 1982, conta com um conglomerado de pequenas e médias indústrias menos predominante do setor automotivo. A Doença Holandesa Automotiva está concentrada em São Bernardo. Por isso, Diadema perdeu em 27 anos algo próximo da média das demais cidades, exceto São Bernardo – 18,60%.
Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra, que representam pouco no volume de PIB de Consumo do Grande ABC, tiveram desempenhos distintos: Ribeirão Pires perdeu 26,81% neste século, enquanto Rio Granda da Serra teve queda ínfima, de menos de um ponto percentual.
Para que esse grupo de seis municípios não contabilizasse qualquer perda no PIB de Consumo, considerando para tanto a participação relativa no bolo nacional em 1999 e nesta temporada, teriam de ter somado um adicional de R$ 20.983.153 bilhões. Portanto, menos dos R$ 25.442.701 bilhões que desfalcaram São Bernardo. A diferença entre o que a vizinhança de São Bernardo obteve (R$ 105.400.725 bilhões) obteve e o que poderia ter somado caso não perdesse participação (R$ 126.383.878 bilhões) representa o 19,90% de parte do total regional, que alcança R$ 150.431.949 bilhões quando se contabilizam os R$ 45.032.221 bilhões de São Bernardo. Classe média
TOPO AVARIADO
Agora trataremos especificamente das duas classes sociais do topo da pirâmide regional, no caso a classe de famílias ricas e a classe média tradicional. São Bernardo foi mesma a cidadela mais duramente impactada com o empobrecimento regional neste século no PIB de Consumo. E a queda foi tremendamente maior que a média e a individualidade dos demais seis municípios da região.
Enquanto São Bernardo perdeu nos 27 anos deste século (a base do estudo e o ano de 1999) R$ 25.337.479 bilhões no bolo de participação relativa, os demais sentiram bem menos. Vejam:
1. Santo André contava com participação interna relativa de classe rica e de classe média tradicional de 39.95% e caiu para 33,01%.
2. São Caetano contava com participação relativa interna municipal de classe rica e de classe média tradicional de 46,63% em 1999 e subiu levemente para 47,10% em 2026.
3. Diadema contava com participação relativa interna municipal de 24,99% em 1999 de classe rica e classe média tradicional e caiu em 2026 para 23,04%.
4. Mauá contava com participação relativa interna municipal de 28,35% de classe rica e de classe média tradicional em 1999 e caiu para 24,55% em 2026.
5. Ribeirão Pires contava com 32,65% de participação relativa interna municipal em 1999 e caiu para 28,42% em 2026.
6. Rio Grande da Serra contava com 38,38% de participação relativa interna municipal em 1999 e caiu para 21,41% em 2026.
Os resultados dos seis municípios que completam o quadro regional apontam uma diferença em forma de déficit de 27.918 moradias de classe rica e de classe média tradicional. Em 1999, a participação relativa de moradias das duas classes sociais era de 34,10%. Eram 232.444 famílias para um total geral de 430.079 do topo da pirâmide social. Já em 2026, foram registradas 214.326 famílias, com participação relativa geral de 30,17% da população geral. A queda de quatro pontos percentuais de ricos e classe média nos seis municípios significou uma baixa de 27.917 residências já que, para preservar a proporcionalidade das duas classes, seriam necessários 242.244 moradias dos dois estratos sociais. Quando se somam as perdas de classe média e de classe rica envolvendo os sete municípios, contando com 40.832 moradias em São Bernardo e 27.918 nos demais municípios, o total alcança 68.244 moradias. Uma São Caetano somada a uma Rio Grande da Serra de desfalque.
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23/04/2026 SÃO BERNARDO É CASO DE EMERGÊNCIA