Nosso Século XXI (2ª Ed.)

Incorporemos nosso lado
verde, antes que tudo acabe

WAVERLI MAIA MATARAZZO-NEUBERGER - 16/09/2008

“Se você quiser construir um navio, não comece pela madeira, cortando troncos ou distribuindo tarefas, mas desperte no coração das pessoas a vontade de ver o imenso mar sem fim.” (Antoine de Saint-Exupéry)


Vou começar lançando um desafio: esqueça o título deste ensaio e as expectativas que gera, feche os olhos e pense em qualquer paisagem do Grande ABC. Aposto que pensou em alguma área urbana ou ainda, induzido pelo título, em algum parque e praça pública. Pode também ter pensado em nossas zonas industriais e nas áreas de comércio especializado ou não. Há, afinal, tantas paisagens que evocam a memória da nossa região! Talvez você tenha visualizado a Represa Billings, que nos últimos anos foi cada vez mais envolvida pela área urbana e cujas lutas históricas pela conservação estão bem marcadas em todos nós. Mas duvido que tenha pensado nas áreas ainda cobertas por Mata Atlântica, que todo mundo chama sem a menor cerimônia de mato e que ficam tão na periferia do Grande ABC que já nem identificamos como nossa.


Onde você vê a Borda do Campo eu vejo a Borda da Mata, de formação única, com tamanha riqueza que desperta o interesse do mundo todo. Vejo nascentes de água cristalina a menos de 20 minutos de nossos centros urbanos, que abastecem a Represa Billings e que originam a água consumida por todos nós. Vejo uma miríade de diferentes espécies: aves, insetos, pequenos mamíferos, lagartos, árvores, arbustos e cipós e muitas flores de cores variadas que se alternam embelezando a vida de quem passa rapidamente pelas estradas que cortam nossas últimas reservas.


Essa formação não é um mato qualquer: tem nome, sobrenome e pedigree. A Mata Atlântica é o segundo ecossistema mais ameaçado de extinção do planeta. Já perdeu 93% da cobertura original. Só as florestas de Madagáscar estão sob mais perigo. Apesar disso, a Mata Atlântica mantém um dos maiores índices de biodiversidade do mundo, o que a classifica como um hotspot, ou seja, lugar onde existe grande variedade biológica e que ao mesmo tempo está com a conservação ameaçada. É ainda prova viva de uma característica importante de todos os sistemas naturais: a resiliência, que é a capacidade de um sistema absorver os distúrbios, mudar e mesmo assim manter as funções e estruturas básicas.


Talvez você ache que eu tenha visão nostálgica, do passado, porque afinal, historicamente, a maioria das cidades cresceu e prosperou retirando produtos e alimentos dos ecossistemas ao redor e, pouco a pouco, ceifou sua fertilidade e alterou suas características. Não foi diferente com o Grande ABC. Por muito tempo a região fez parte do cinturão verde de São Paulo, desmatou áreas para produzir lavouras, produziu carvão vegetal a partir de árvores da Mata Atlântica para ser vendido no Mercado Municipal de São Paulo e até mesmo comercializou animais silvestres, objeto de caça intensa. Hoje o processo de destruição dessas cercanias com o propósito de utilização de recursos naturais não mais existe, substituído pelos baixos custos dos transportes, que garantem uma forma de explorar áreas cada vez mais longínquas para todas as cidades modernas. A alteração dessa paisagem hoje é cada vez mais movida pelo crescimento desordenado que promove a ocupação por moradias e, principalmente, pela falta de importância que atribuímos a essa ocupação, invariavelmente por pura ignorância.


Natureza complementa o que a tecnologia humana
não domina nem substitui, como polinização,
fotossíntese e decomposição de resíduo


Se você se identificou com as visões apresentadas no primeiro parágrafo, saiba que é bem provável que tenha visto o passado e eu esteja vislumbrando o futuro. É isso mesmo. Não é jogo de palavras. Parece redundante reafirmar a importância das áreas naturais para nossa sobrevivência, mas muito tem sido descoberto nos últimos tempos sobre essa interdependência. Hoje sabemos que é imensa a contribuição das áreas naturais, no que chamamos de serviços ambientais. Trocando em miúdos, o conceito de serviços ambientais surgiu da necessidade de demonstrar que as áreas naturais cumprem funções importantes nos processos de manutenção da vida, inclusive a do homem, em oposição à falsa idéia de que ecossistemas intactos são improdutivos ou obstáculos ao desenvolvimento econômico.


Serviços ambientais são os que a natureza presta para nós, seres vivos, ao absorver, filtrar e promover a qualidade da água que bebemos e usamos, ao reciclar nutrientes e assegurar a estrutura dos solos onde plantamos, ao manter a estabilidade do clima amenizando desastres como enchentes, secas e tempestades, ao garantir e implementar nossa produção agropecuária e industrial seja ao providenciar a necessária biodiversidade e diversidade genética para melhoria das culturas ou para fármacos, cosméticos e novos materiais, seja complementando processos que a tecnologia humana não domina nem substitui, como polinização, fotossíntese e decomposição de resíduos. Há ainda o importante papel de absorção de dióxido de carbono e armazenamento de compostos de carbono, um dos principais gases causadores do efeito estufa, que florestas e ambientes nativos em formação ou em recuperação exercem.


No contexto de prestação de serviços ambientais, a Mata Atlântica é importantíssima para cerca de 120 milhões de brasileiros, ou 70% da população do País. A qualidade de vida desse contingente populacional depende dos serviços ambientais realizados pelos remanescentes dessa floresta na proteção e manutenção de nascentes e fontes que abastecem cidades e comunidades do Interior, na regulação do clima, da temperatura, da umidade e das chuvas. Os remanescentes de vegetação nativa também asseguram a fertilidade do solo e protegem escarpas e encostas de morros de processos erosivos.


Se hoje já é possível pensar em pagamento pelos serviços ambientais, imagine daqui a alguns anos, uma vez que infelizmente a situação do planeta — e por consequência a nossa — se agrava a cada dia. Com base nesses serviços, os municípios poderão pleitear ressarcimento pelas áreas conservadas e o direito poderá se estender até os proprietários. É com base nesses serviços e na riqueza da biodiversidade do ecossistema que ainda cobre parcela considerável de nosso território que vejo futuro para nós. É crescente a importância dos remanescentes florestais e do significado que os serviços prestados pela natureza estão adquirindo.


Ademais, este é o Século do Meio Ambiente, com todos os desafios inerentes. Já está comprovado que o poder de destruição da nossa espécie não tem limites, embora nossa biomassa seja quase invisível de tão minúscula. É matematicamente possível empilhar todas as pessoas da Terra em um único bloco de quatro quilômetros cúbicos e esconder esse bloco em alguma área remota do Grand Canyon, até que desapareça. Contudo, a humanidade é a primeira espécie da história da vida na Terra a se tornar uma força geofísica. O homem, esse ser bípede, tão cabeça de vento, já alterou a atmosfera e o clima do planeta, desviando-os em muito das
formas usuais.


Já espalhamos milhares de substâncias químicas tóxicas pelo mundo inteiro, já nos apropriamos de 40% da energia solar disponível para a fotossíntese, já convertemos quase todas as terras facilmente aráveis, já represamos a maioria dos rios, já elevamos os níveis dos mares e agora, numa virada capaz de atrair a atenção geral como nunca antes se conseguiu, estamos perto de esgotar a água potável. Um efeito colateral de toda essa atividade frenética é a extinção contínua de ecossistemas naturais e as espécies que os compõem. Trata-se do único impacto da atividade humana considerado irreversível.


Reverter todos esses problemas, eliminando-os ou minimizando-os, é parte importante da agenda do século XXI que requer necessariamente: estabilização das mudanças climáticas, incremento substancial na eficiência do uso de combustíveis fósseis, rápida transposição para tecnologias baseadas em energias renováveis, estabilização e redução da população mundial, reversão da perda de florestas, proteção à biodiversidade, conservação do solo, reconstrução de áreas rurais, eliminação dos resíduos tóxicos que espalhamos e redução da pobreza. Esse elenco é feito por D. Orr em Earth and Mind: On Education, Environment and The Human Prospect (2004). Sai na frente quem pode oferecer os serviços ambientais tão necessários para resolver ou minorar esses problemas. Nessa situação, apesar de sermos uma região urbanizada há tanto tempo, podemos ter um começo animador em algum ponto como reversão da perda de florestas, proteção da biodiversidade e conservação do solo.


Mas não é só por causa desse interesse que devemos pensar em conservar nossa rica herança natural. Cada forma de vida na Terra é uma obra-prima da evolução, finamente adaptada ao nicho do ambiente natural em que ocorre. As espécies que sobrevivem têm milhares ou milhões de anos de vida. Seus genes, testados a cada geração pela implacável seleção natural, são programas codificados por incontáveis episódios de nascimento e morte. Varrer as espécies da face da Terra de forma tão descuidada é tragédia que atormentará para sempre a memória humana.


Milhares de milhões de anos de evolução conjunta resultaram em uma capacidade inata que estudiosos definiram como biofilia, que resume a importância para nossa saúde e sobrevivência das conexões que nós humanos procuramos subconscientemente com o resto da vida. Seria na verdade surpreendente que a biofilia não existisse. Essa afinidade pela vida não implica em visão romântica da natureza. Trata-se, sim, de um elemento fundamental de nossa própria existência que nos conecta com a natureza na qual evoluímos e que nos nutre e sustenta.


Retirar ou não reconhecer o elo homem-natureza enfraquece nossa sobrevivência e subtrai de nós parte vital de nós mesmos. Tomar consciência disso, reconhecer sua importância e reaproximarse da natureza é algo mais que necessário. Considere a seguinte história retirada de P. Krafel em Seeing Nature: Deliberate Encounters With The Visible World (1999): “O menino da cidade nunca tinha estado em uma floresta antes e a possibilidade de ver vida selvagem o deixava excitado. Cada vez que via um pássaro, ele corria em sua direção, apontando exuberantemente com seus braços e gritando: ‘Olhe um pássaro, um pássaro!!’ Cada ave fugia conforme ele corria e o garoto foi se sentindo cada vez mais frustrado.’Não é justo. Cada vez que eu vejo um pássaro ele voa’. Eu sorri. Ele estava certo. Todo pássaro que ele viu realmente voou. O que ele não percebia é que era sua resposta ao vê-los, sua correria e gritaria, que os afugentava. Ele não entendia como influenciava o mundo que ele via”.


No nosso cotidiano, mal percebemos que nossas presunções acerca da natureza têm como base o que vemos ao redor. O que vemos normalmente, especialmente nas cidades que têm dominado nossa cultura por milhares de anos, é a influência da nossa presença no mundo. Isso pode criar presunções falsas e profundamente arraigadas sobre a natureza que dão origem a ações que, geralmente, produzem resultados que não queremos.


Ainda temos território com formação original.
A presença da mata, da serra e da represa
deve ser resgatada até como identidade regional


Se quisermos evitar essas ações e resultados é preciso aprender a enxergar e vivenciar a natureza de outra forma. Ter um território ainda com sua formação original, com toda a complexidade que traz, encerra uma possibilidade única de experiências e mudanças. Digo mais: embora possa não ser aparente, nas camadas mais profundas de nossa identidade como cidadãos do Grande ABC a presença onipresente de mata, de serra e de represa deixa marcas indeléveis. Quanto mais rapidamente essas marcas saírem do pano de fundo e forem resgatadas para o cenário principal, mais facilitarão nossa conexão com essa parte não reclamada de nossa identidade.


Por tudo que foi escrito acima e por toda a destruição que temos testemunhado impávidos em nossos jornais, televisões, Internet e em nossos quintais, é reconfortante saber que temos ainda como dar um passo à frente e trabalhar para mudar nossa percepção da natureza. Se buscamos o desenvolvimento sustentável, temos de saber que só pode ser atingido em nível local se implementado em um processo integrado, que inspire os cidadãos das cidades e lhes dê um senso de propriedade e envolvimento direto. Isso também deve incluir a percepção de que as cidades que construímos e o estilo de vida urbano que temos hoje irão afetar profundamente as possibilidades das futuras gerações de moldarem seu futuro. Precisamos construir uma cultura de sustentabilidade que possa passar de uma geração para outra. Nessa cultura está necessariamente inclusa nossa rica herança natural e a forma como a enxergamos e a consideramos.


Fica no final um convite. Aproxime-se e conheça essa mata, deixe-se levar pelos ruídos, cores, cheiros, formas e vitalidade.Você só poderá amar e sentir-se regozijado se conhecê-la. Espero que possa estabelecer um relacionamento profundo que, tenho certeza, irá acrescentar à sua cidadania regional tranquilidade, segurança de estar cumprindo seu papel com as gerações futuras que habitarão nossa região e qualidade de vida.


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