Tudo é mítico na concepção do chamado Grande ABC, desde os primórdios dessa idéia de regionalização, na segunda metade do século passado, a estes primeiros anos do terceiro milênio. Ao invés de se consolidar e se fortalecer como pólo de influência político-econômica no Estado e no País, a idéia dessa identidade regional se esvai com incrível rapidez, sem qualquer conotação de que a tendência possa ser revertida. Em que pesem algumas tentativas de aglutinação em torno de idéias centralizadoras do poder decisório, das quais o Consórcio Intermunicipal é a face mais evidente embora sem maiores definições do próprio semblante, a verdade é que o Grande ABC jamais existiu como região.
A gritaria em torno dessa constatação começa a ser sentida em alguns segmentos representativos, mas são desnecessários maiores estudos geohistóricos para demonstrar a inexistência de qualquer identidade regional de peso, capaz de fundamentar a tese da parceria autêntica, nos termos em que esse conceito é definido em dicionários e demais estudos geográficos, sociais e econômicos.
Este pedaço de terra, situado entre o planalto e a Serra do Mar, jamais deixou de existir em função de sua vocação primária: rota de caminhantes e tropeiros entre a então acanhada Capital do Estado e o porto, este sim, o verdadeiro agente socioeconômico dos primeiros tempos. Mais vindas do que idas, inclusive de escravos e munição. Intercâmbio que só passou a ser medianamente invertido tempos depois, com a florescência do café, a ainda titubeante industrialização sob a mão européia e os primeiros reconhecimentos de que em São Paulo havia algo de novo no panorama da nação.
O vai-e-vem registrado em inúmeros depoimentos históricos comprova que as terras da Borda do Campo permaneceram durante muito tempo apenas como rota, caminho e pouso para maiores aventuras em direção ao oceano, para dele também receber tudo o que a província pobre e acanhada não possuía e só passou a sonhar em ter depois da chegada dos imigrantes.
Idêntica constatação se destaca em relação ao aspecto geográfico, outra condição para que se estabeleça o conceito normalmente aceito de região. Não existe qualquer acidente, seja geológico, hidrográfico ou climático, que permita a idéia de efetivo parentesco entre as sete cidades que politicamente integram o chamado Grande ABC. A represa Billings, nunca é demais lembrar, tem o dedo do homem, da mesma forma que a estrada de ferro, a Anchieta e sua filha Imigrantes. E agora o trecho sul do Rodoanel que tangencia alguns desses municípios também representa, nessa avocada parceria, nada mais nada menos do que nova rota de mero percurso, só que, é claro, devidamente adequada às exigências do século XXI.
No aspecto político, essa integração foi e é ainda muito menor do que na geografia local. Desde o nascimento dos primeiros povoados, a maioria ao redor das linhas do trem e outros dois distantes dos trilhos, cada qual vivia independente dos demais. O olhar sempre em direção ao porto ou à Capital, comprovando com o passar dos anos a mera vocação do Grande ABC de rota e pouso.
Ao final do século XIX, quando o Município de São Bernardo passou a existir formalmente, certa identidade própria começou a se estabelecer, mas também sem qualquer conotação fraternal ou participativa. Ao contrário, distante da estrada de ferro, pouco ou quase nada São Bernardo representava além de outro caminho para o mar, desta vez percurso para os primeiros veículos automotivos.
Ao contrário, com o surgimento depois do Município de Santo André, seguiu-se nas décadas de 1940 e 1950 espécie de febre emancipacionista nesses pequenos burgos. Esse ardor político, em vez de unir, dividiu e fez nascer oficialmente São Caetano, Mauá, Ribeirão Pires, Diadema e Rio Grande da Serra. Estes últimos integram o chamado Grande ABC, mas literalmente nem constam do apelido regional, que só faz referência às três primeiras letras do alfabeto e despreza as demais, apesar de Diadema ter tentado sem sucesso fixar-se em quarto lugar. Para aproveitar a imagem ligada às letras, vale lembrar que da febre emancipacionista restou Utinga, filha rejeitada e atirada lá no final do alfabeto. Muito sonhou e tentou ter identidade própria, mas não conseguiu. E ainda hoje, com existência relativamente autônoma, Utinga permanece atrelada politicamente à sede.
Semelhante panorama se repete no quesito industrialização, onde cada qual pegou seu bocado e, se não for muita ousadia afirmar isso hoje, o processo começou ainda nas primeiras décadas do século passado. Santo André deu início à chamada globalização. Não que tenha desprezado pequenas fábricas e oficinas, mas passou a abrigar importantes empresas estrangeiras muito antes de São Bernardo ser conhecida como Capital do Automóvel — outro epíteto ufanista em desuso tanto aqui quanto em Detroit, espécie de patriarca da família automobilística. São exemplos apenas pontuais que não
deixam de sublinhar a idéia de que os limites do umbigo extrapolaram o organismo e hoje tentam abarcar o mundo. Aqui e em qualquer outro lugar do planeta, integrado e expandido pelas comunicações em todas as suas variáveis.
Área tecnológica poderia ter sido nossa
grande vedete, desde que investimentos
tivessem sido feitos a tempo e a hora
A criação do Pólo Petroquímico é outra referência destacada para acentuar a modesta vocação integracionista desta fatia da formalmente chamada Região Metropolitana, como outras que cercam a cidade de São Paulo. Embora de grande destaque industrial e econômico para a região e o País, o Pólo Petroquímico de Capuava jamais conseguiu polarizar cacife realmente regional, tanto junto às prefeituras quanto aos demais segmentos industriais e econômicos. Por muitos e muitos anos foi espécie de estranho no ninho, só se fazendo presente quando da ocorrência de algum desastre ecológico, fartos nesse tipo de atividade.
No setor industrial, com a debandada de inúmeras e poderosas empresas para outros territórios em finais do século XX, e a ameaça constante de que esse esvaziamento prossiga, a área tecnológica poderia ter sido a grande vedete. Isso desde que os devidos investimentos públicos tivessem sido feitos a tempo e a hora. E a educação, mais uma vez, era a chave que realmente poderia abrir as portas desse novo e fenomenal tempo. Ledo engano. Há na região inúmeros estabelecimentos de ensino, particulares e públicos, mas nenhum que escape do nível geral de ensino universitário, sem qualquer ousadia ou pesquisa além de simplesmente existir.
A experiência da FEI (Faculdade de Engenharia Industrial, rebatizada de Fundação Educacional Inaciana e ainda hoje reconhecida como importante pólo formador de profissionais ligados à indústria automobilística) também jamais conseguiu passar desse relativo reconhecimento. Enquanto outros municípios do Estado definiam vocações mais específicas e destinavam esforços constantes e integrados para atrair empresas setoriais e estabelecer parcerias formadoras de pessoal altamente qualificado, o dito Grande ABC jamais se importou com coisa semelhante.
Idêntico desinteresse cercou a avassaladora revolução da informática, pela qual nenhum administrador público ou investidor particular lançou os olhos para tentar fazer destas plagas algo como o Vale do Silício. Ao contrário, como de resto o próprio País, entendemos melhor aceitar o inexplicável e obtuso cerceamento às importações de produtos dessa área, imposto pelo governo ditatorial alegando proteger a indústria brasileira com uma tal de Cobra, da qual nunca mais se ouviu falar.
Não se mencionam aqui descobertas e ocorrências de um passado mais remoto. Pelo contrário, são acontecimentos de ontem que passaram literalmente batidos por todos os cidadãos que ocuparam e ainda ocupam posições de relativo destaque na condução dos destinos locais. E isso não apenas no universo sempre acanhado e retrógrado dos ditos homens públicos mas também dos empreendedores da iniciativa privada. Muitos, decididamente avançados e ativos em determinadas épocas e situações, quedaram-se repentinamente apequenados diante de um futuro que se anunciava absolutamente novo e capaz de uma das maiores revoluções da raça humana.
Mas é no terreno da representação popular que sempre se manifestou a pequenez dos ideais de nativos ou arrivistas, ontem e hoje. O desempenho da atividade política, tanto em termos municipais quanto estadual e federal, jamais mereceu qualquer destaque no sentido da inovação de costumes ou da própria regionalização. Os feudos que se autodenominam integrantes do Grande ABC, desde suas formalizações como municípios, jamais produziram políticos capazes de vislumbrar algo acima das próprias cabeças.
Houve algumas poucas figuras relativamente exponenciais, mas, ao contrário do que seria legítimo esperar da dita evolução das espécies, cederam lugar a uma massa amorfa de políticos de limitada e circunscrita atuação. O eleitor, por sua vez, também é agente desse processo de esvaziamento de representatividade política e cívica, pouco ou quase nada exigindo de seus representantes. Quando não, em mais outra prova cabal de desinteresse local e regional, celebra forasteiros espertalhões que para cá se dirigem à cata de votos e nunca mais aparecem
Inexiste e sempre faltou representatividade mais destacada do dito Grande ABC tanto na esfera estadual quanto federal. Alguns deputados passaram e passam pelas duas instâncias sem qualquer ação de maior destaque que lhes permita posar como possíveis aglutinadores dessa tão idealizada idéia de unidos venceremos. E a cada eleição murcha ainda mais a possível face de maior amplitude em relação à integração desse expressivo número de cidadãos brasileiros, tanto os que aqui nasceram quanto aqueles que para cá continuam vindo, embora em menor número do que antes.
Partindo-se dessa constatação, que pode ser alicerçada com inúmeros outros exemplos de declarado desinteresse regional, como eventuais pontos turísticos mal explorados e ignorados — Paranapiacaba e Billings estão aí –, resta partir para a análise do que poderia, ao menos em tese, neutralizar ou retardar o fim dessa ilusão chamada de Grande ABC.
A mudança radical da concepção de cidadania é muito provável que esteja no cerne de uma eventual reviravolta nesse processo que caminha celeremente em direção ao fim do sonho do Grande ABC. Há vigorosos sinais positivos sobre certos movimentos sociais que buscam a mobilização de pessoas em torno dos processos que provocam a melhoria ou deterioração da qualidade de vida nas cidades. Pode até ser ousadia afirmar, mas trata-se de uma espécie diferenciada de organização comunitária que pouco ou nada tem a ver com a organização política a que a nação se encontra subordinada há muito tempo.
São organizações que, embora se declarem e procurem ser apartidárias, acabam por exercer a representação política, criando condições para que a comunidade saiba avaliar e julgar seus representantes. E a partir daí cada cidadão poderá decidir qual caminho seu voto terá na próxima eleição. Também não devem ser equiparadas ao ainda mal explicado criadouro das chamadas ONGs de fachada, que se espalhou como praga pelo Brasil. Essas organizações, ditas não governamentais mas destinatárias de chocantes subsídios públicos, podem até participar, porém no mesmo nível de outras entidades empresariais, sindicais, educacionais e até religiosas, com estatuto e objetivos perfeitamente estabelecidos e claros.
Haveria por intermédio desses movimentos a possibilidade de inversão de uma ordem que se estabeleceu entre nós há muito tempo: a representatividade político-administrativa jamais teve qualquer atuação de relativo destaque nos grandes interesses ditos regionais. Em todas as esferas, em tempos de maior ou menor liberdade política, nem um representante dos diversos municípios alcançou destaque mais significativo. A falta de visão e o provincianismo tacanho, ao invés de consolidar e projetar a idéia de regionalidade, fazem inverter o processo, cada qual cuidando — se tanto — de sua parcela do eleitorado.
Poderíamos adaptar a onda renovadora de
Bogotá, onde o povo foi ensinado a avaliar
permanentemente os seus governantes
Nas Câmaras Municipais apenas referendam atitudes do Executivo e nos demais parlamentos jamais passaram do chamado baixo clero, presença corporal e desempenho nulo. A região tem até um presidente da República, se não aqui nascido, nestas terras teúdo e manteúdo, não apenas pela indústria mas principalmente pelo movimento sindical. Este último, aliás, hoje também pouco diz em termos de aglutinação popular, que se desenhava poderosa mas também enfraqueceu, ao menos em termos locais.
Há sinais dessa onda renovadora em algumas cidades da América do Sul, com destaque para Bogotá, a tão conflagrada Capital da não menos explosiva Colômbia. Lá surgiu há 10 anos o BCV (Bogotá Como Vamos), destinado a ensinar os 7,5 milhões de habitantes a avaliar seus governantes. Acumula uma série de ações concretas para fazer o cidadão entender o mundo que o cerca e agir para mudá-lo. Nesse mesmo período, a cidade melhorou a qualidade de vida e já contabiliza uma sequência de quatro prefeitos com avaliação positiva.
É evidente que são experiências que podem render algo se efetivamente criadas e adaptadas ao nosso universo, em particular para tentar reverter o fim há muito anunciado da pretendida integração e fortalecimento dos sete municípios. Regionalização que muitos buscaram e buscam como uma das possibilidades de fazer do Grande ABC algo como pólo diferenciado dentro da Região Metropolitana e só assim escapar da geléia geral que todas as cidades formadas ao redor de alguma metrópole acabam integrando.
Como chegar a esse estágio de mobilização socioeconômica é a grande interrogação de uma proposta desse gênero. Sem líderes ou algum interesse claramente identificado e abrangente, como se observa hoje e se prenuncia para o futuro, é muito difícil, embora não impossível. Qual o papel dos diversos segmentos de atividades nesse eventual universo? A ocasional liderança capaz de aglutinar forças para realmente impedir o fim do Grande ABC pode surgir de um único segmento e mesmo assim amealhar a adesão dos demais? E qual seria essa parcela da sociedade local capaz de pela primeira vez levantar a cabeça e seguir nessa direção?
São inúmeras as indagações e em diversas direções. Há, portanto, necessidade vital de alguma coisa que possa agir sobre todos esses e outros segmentos, sem ostentar qualquer predominância sobre os demais. E capaz de ser subordinada a regras, por sinal já existentes, para que em hipótese alguma extrapole seu poder para territórios nebulosos, tão abundantes nos dias de hoje.
Os meios de comunicação — a Imprensa de forma mais específica — têm essa capacidade, como tantas vezes já comprovado, em diferentes e até mais difíceis desafios do que essa ação coletiva em favor do bem comum. Como modesta integrante desse universo, ao qual dediquei e dedico grande parte de minha vida, lanço o desafio para todos os que detêm o mando nesse território. Façam de seus veículos, rádio, jornal ou televisão, a mola mestra para impedir o fim da idéia do Grande ABC. Ao contrário, atuem para que essa idéia extrapole a mera retórica suburbana que a tem marcado até agora, para algo realmente concreto e eficiente, capaz de justificar e marcar nossa presença no século XXI.
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16/09/2008 Primeiro escalão dita ética e responsabilidade social