Quando todos os velhos valores da história teatral do Grande ABC já não querem dizer mais nada atualmente, e mesmo a palavra teatro há tempos não mais significa o que foi para nós, talvez se faça necessário pensar a região dentro de um universo mais amplo de formação, criação e produção cultural. Quando começo a falar usando como metáfora o teatro, é porque reconheço nessa instância a síntese de todas as artes, construindo um companheirismo que briga por critérios, afirmação de novos valores e referências éticas.
O Grande ABC culturalmente falando é uma terra sem lei. Pior: na falta de valores culturais sólidos, adotam-se valores pasteurizados e globalizados ditados pela televisão. Pouca gente está pensando em construir estruturas para recuperar o prazer de fazer um teatro inteiramente teatral, regional, porém universal, isto é, com a ética do teatro, desse jogo que cresceu na Grécia e foi se enriquecendo tanto que hoje, em plena era das engenhocas digitalizadas, não se deixa agarrar pela imagem gravada.
Por que os teatros fecham ou apodrecem? Por culpa da burocracia? Por que o público do Grande ABC abandona seus artistas? Por que os artistas não se juntam e se entendem? Eu respondo: porque perdemos nossas referências.
Evidentemente é preciso armar uma equação nova, em que figurem o Estado, as sete cidades, artistas e público. O governo estadual poderia se comprometer e fomentar a construção de um espaço central para a representação artística, bem como espaços para operação de um centro de criação e pesquisa. Em seguida, poderia possibilitar um projeto de subvenção cultural para desenvolvimento e estudo do teatro brasileiro na região. Será que prefeituras e políticos locais estão a fim de reivindicar?
Ou se mudam os critérios de ocupação dos poucos teatros do Grande ABC com subvenção do Estado ou daqui a pouco até os teatros das prefeituras fecharão as portas. O Teatro Municipal de Santo André, com uma das melhores acústicas da América Latina, corre o risco de servir brevemente a eventos regados a pato com laranja, ditados por edital burocrático de funcionamento. O novíssimo Teatro Municipal de Mauá igualmente se arrisca a servir ao espectador que paga caro para atender ao capricho de ver estrelas da TV em carne e osso, as versões nacionais dos grandes sucessos da Broadway e rir com a bem cuidada produção das comédias de bulevar. Mauá vive quase que exclusivamente a serviço do teatro comercial. Sem contar que temos cidades na região que nem teatro têm.
Ou se muda a forma de ocupar os
poucos teatros da região, ou até as
salas municipais daqui a pouco fecharão
Sabemos que o espetáculo teatral hoje está liberto, e a tomada de consciência dessa libertação está destruindo cada vez mais as amarras do espaço italiano e elisabetano. Não há mais necessidade de uma arquitetura obrigatoriamente frontal nem apenas circular, como no teatro de arena que os artistas brasileiros inauguraram nos anos 1950 e que hoje os burgueses grávidos da modernidade já admitem. Em qualquer espaço vazio é possível fazer desde o mais puro teatro, função do ator, até o mais ousado dos jogos de efeitos, quando a própria cenografia produz a reforma que servirá para esse ato único.
Particularmente, acho que os artistas do Grande ABC deveriam ser provocados com uma placa na fachada dos poucos teatros da região, quer estejam funcionando ou não: “Procura-se artista que tenha um programa para um teatro fechado ou prostituído, que encontre um sentido para abri-lo, caso contrário este certamente fechará em breve, definitivamente — ou infelizmente acabará locado para cultos religiosos”.
Voltando à formação, precisamos instalar um centro de estudos e criar espetáculos com programa que integre as sete cidades e desenvolva um trabalho continuado. E que as pesquisas cênicas sejam voltadas para a dramaturgia brasileira, valorizando o conhecimento científico da arte teatral através de estratégias prático-teóricas, ensaios abertos, oficinas, seminários e conferências. Contribuiríamos, assim, para o aprofundamento de discussões sobre “A Peste do Teatro Brasileiro”, o que poderia ser articulado em parceria com as secretarias municipais de Educação, que muitas vezes gastam os 25% do orçamento obrigatórios com mobílias para que tão cedo nem haja quem sentar. A criação de escolas informais de arte na região poderia contribuir para o processo de ensino-aprendizagem associado às escolas formais do Município e do Estado, hoje pouco atrativas, tendo em vista os modelos ultrapassados de educação vigentes nesta era tão moderna para a aquisição de conhecimento. Resgatar o ato de criar é o que propõe uma educação através da arte.
Não devemos mais seguir padrões estabelecidos de pensamento, mas vislumbrar e abranger outras possibilidades, permitindo ao indivíduo romper com a acomodação vendida pelas respostas prontas da escola formal e criar alternativas de estrutura social diferentes das que estamos inseridos. A educação através da arte almeja quebrar a redoma do racionalismo por meio da valorização da expressão e sentimentos como edificadores de um conhecimento mais amplo e mais humano — uma vez que a capacidade expressiva do artista está justamente na sensibilidade de captar os meandros dos sentimentos da comunidade humana e exprimi-los em formas simbólicas.
Assim, a proposta é desenvolver um processo que envolva a criação de um sentido para a vida, emergindo desde os nossos sentimentos peculiares, e não somente de mão-de-obra produtiva: criando um sentido pessoal que oriente sua ação no mundo, o desenvolvimento de uma consciência estética, de capacidade de escolha e de crítica para não apenas se submeter à imposição de valores e sentidos, mas para selecioná-los e recriá-los segundo nossa situação existencial.
Não acredito que o Grande ABC tenha apenas vocação operária. Onde há um coração batendo existe vida, e arte é vida. É com tristeza que numa região tão grande e complexa quanto a nossa, quando falamos em desenvolvimento cultural, tudo é pequeno. Não temos uma pinacoteca, um museu, nem um salão de exposições decente. Será que o Grande ABC não comporta uma grande escola de artes em nível superior? Em 1999 ocorreu o primeiro circuito de teatro do Grande ABC. Poderia ter sido um
avanço se não tivesse morrido na primeira experiência.
Cadê o espírito regional privilegiado de cooperação, em que os indivíduos eram chamados a exercitar o respeito à diferença, condição indispensável à convivência cidadã? Cadê as discussões sobre arte, atuação social, problemas das cidades e papel da cultura e da arte como mobilizadoras da cidadania?
Acredito que a mobilização e a inclusão social através da arte e da cultura podem desenvolver a motivação pessoal, considerando que os direitos culturais são parte integrante dos direitos humanos, da relação social e das trocas de conhecimentos como um poderoso instrumento para reafirmar a singularidade na diversidade. A partir do momento em que a arte é aplicada em favor dos que vivem à margem da sociedade, em resgate daqueles que por tantos motivos não se sentem parte da sociedade, o indivíduo se transforma em um ser atuante, qualificado, um agente cultural. Torna-se ciente do seu papel numa sociedade em que possa fazer uso do que foi absorvido como ferramenta para multiplicar tal inclusão.
A solução pela arte tem se mostrado mais visível. Assim, podemos perceber o surgimento de um novo conceito de cidadania. A arte possibilita o encontro efetivo pela participação política, pois os agentes culturais trazem propostas de transformação. Acredito que a mobilização social através da arte e da cultura seja boa alternativa na busca de igualdade e justiça. Pessoas e grupos sociais passam a se identificar com determinada manifestação cultural, tendo, além disso, a possibilidade de criar uma ideologia que leve à consciência de que é preciso transformar o ambiente social em que vivem. E que de fato o transformem.
Não podemos mais falar em efervescência. Os anos 1980 já se foram e a identidade cultural oriunda da época não está mais definida. Perdeu-se no caminho de um pseudoprogresso que não nos levou a nada. É preciso fazer autocrítica e nesse contexto identificar as manifestações populares como única forma de resistência às manipulações de pseudopoderes que bloquearam o desenvolvimento cultural da região — o qual poderia ter sido organizado e descentralizado em ações conjuntas harmoniosas. Enquanto não recuperarmos o sonho como possibilidade concreta de realização e felicidade, cairemos na grande armadilha do produto cultural como marketing eventual e sem ação contínua.
Artistas continuam com pires na mão,
a Vera Cruz está parada mesmo com o cinema
nacional a todo vapor. Contraditório, não?
Não sei se é folclórico ou histórico o descaso dos governantes para com a cultura. O fato é que viramos o milênio e o desenvolvimento cultural do País ainda padece com migalhas e com artistas peregrinando com pires na mão. É impossível que em pleno século XXI o desenvolvimento cultural de uma região, ditado pela grande concentração de indústrias, pulmão do crescimento econômico brasileiro, ainda viva este atraso e descaso.
A Vera Cruz continua parada, mas o cinema brasileiro caminha a todo vapor. Contraditório, não? Percebo no Grande ABC tentativas frustradas de alguns artistas de se organizar em entidades, mas percebo também que de boas intenções o inferno está cheio e logo essas entidades entendem que é mais lucrativa a organização não-governamental — daí a avalanche de ONGs e Oscips instaladas na região. Então, não passamos somente por uma crise de identidade. Passamos também por uma crise de sobrevivência, em que a luta para se manter em pé no dia-a-dia passa pela resolução das múltiplas necessidades da vida.
Na verdade, relações de índole muito diversa condicionaram a forma, em que os efeitos e os sonhos, os objetos e as pessoas constroem o entorno físico e simbólico em que se sustentam. As naturezas inerentes e indissolúveis ao ser humano — o público e o privado — ativam as atitudes que constroem as prioridades e sublimam os desejos.
Na Carta de São Paulo apresentada no Fórum Intermunicipal de Cultura fica claro que a crise que atravessamos não é só econômica ou social, mas de civilização — principalmente tendo a questão dos valores como um dos principais problemas contemporâneos. Governos locais e representantes das câmaras municipais não podem mais viver alheios aos novos olhares e vozes que renovam a vida de nossas cidades, contribuindo para a elevação da auto-estima dos moradores e para a criação de um forte sentido de pertencimento à comunidade e à cidade.
Políticas culturais foram, são e sempre serão fundamentais para a transformação de qualquer realidade social. Se democráticas, com sustentabilidade, diversidade e pluralismo, com certeza poderão experimentar a sua eficácia — mas sem partidarismos.
Na verdade, quando sugiro um grande Centro de Estudos e Criação Teatral para o Grande ABC, falo em promover uma pedagogia de integração social e colaboração entre diversos organismos que direta ou indiretamente atuam no campo cultural e que podem facilitar o desenvolvimento de programas educacionais para uma melhor qualidade de vida na região tendo em vista que tudo, absolutamente tudo, passa pela questão da cultura.
Permanece uma dívida para com desbravadores e lutadores das artes, além daqueles cujas potencialidades foram bloqueadas no processo de desenvolvimento cultural da região. Quem vai pagar?
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16/09/2008 Primeiro escalão dita ética e responsabilidade social