Política

Teremos Lula econômico
ou Lula assistencialista?

DANIEL LIMA - 26/11/2002

Um dos vetores que demarcarão a biografia de Lula da Silva como presidente da República, entre tantos outros desse riquíssimo personagem construído pela mobilidade corporativa, provavelmente será a soma de sensibilidade e conhecimento prático para entender as transformações de que o País necessita. E essas transformações, depois do desastroso desgoverno atual, passam obrigatoriamente pelo Brasil metropolitano e também interiorano de desenvolvimento econômico sustentável.


Entretanto, se Lula da Silva for contaminado pelo assistencialismo bola-de-neve que, por exemplo, caracteriza a gestão dos prefeitos petistas no Grande ABC (e também dos demais partidos) ao longo dos anos, é mais que certo que continuaremos colecionando muitos prêmios nacionais e internacionais destinados a programas sociais, enquanto seguiremos a marcha batida de economia mambembe.


Enfim, o que se coloca em debate é o seguinte: estaria o Partido dos Trabalhadores em nível nacional pronto para dar uma guinada extraordinária no conceito de desenvolvimento sustentável, introduzindo o dinamismo econômico entre uma palavra e outra como âncora?


Será Lula da Silva um presidente vocacionalmente desenvolvimentista ou preferirá, pressionado pela visibilidade de projetos como o Fome Zero, deslocar o facho de luz administrativo para um Brasil, metropolitano e interiorano, de forte apelo social?


Não, não vejam na contraposição qualquer espécie de discriminação a políticas públicas voltadas aos menos favorecidos. Nada disso. O nó górdio dessa equação que privilegia a flecha e desconsidera o arco é que uma economia inelástica, uma economia raquítica como tem sido a brasileira nas duas últimas décadas, e mais acentuadamente nos últimos anos sob o governo Fernando Henrique Cardoso, é uma economia incapaz de produzir mobilidade social ascendente. No caso específico do Brasil dos últimos anos, é o reverso, tal o grau de precarização do mercado de trabalho.


Só mesmo um sociólogo irritantemente contraventor do bom senso, como um que recentemente foi entrevistado pelo Diário do Grande ABC — José de Sousa Martins –, poderia afirmar que Lula da Silva estaria mais perto de Garanhuns, sua cidade natal, do que do Grande ABC, sua plataforma de mobilidade corporativa. O divisor de águas da gestão de Lula da Silva que o sociólogo não percebeu, porque é escravo de academicismo atávico, não é diagnosticar se o ex-torneiro mecânico será mais metropolitano ou mais agreste, mas sim se estará inquieto com a origem dos problemas nacionais, que é o eterno patinar da economia, ou se preferirá repetir a dose paternalista de seu antecessor.


Entretanto, independentemente da escolha que o presidente eleito fará na abordagem de terapias cosméticas ou radicais para retirar o Brasil do estágio de subdesenvolvimento em que se encontra, é mais que provável que, contrariamente ao que acredita o sociólogo em questão, Lula da Silva voltará apenas em parte seus olhos para o agreste e tantos outros territórios periféricos. Suas atenções deverão se concentrar nas imensas levas de excluídos metropolitanos — milhões de deserdados por uma cumulatividade de erros e omissões tanto do governo federal quanto dos governos estaduais e municipais, praticantes de políticas de esparadrapos.


A grande dúvida é saber até que ponto a preocupação do governo Lula da Silva será traduzida em planejamento do Estado para minimizar o caos socioeconômico dessas regiões. Algo que seu antecessor, guru do sociólogo em questão, simplesmente ignorou. Basta ver a situação em que se encontra o Grande ABC, atacado macroeconomicamente no coração e na alma de sua estrutura social e econômica — a indústria automotiva descentralizada com dinheiro público subsidiado, uma abertura econômica aceleradamente suicida, taxas de juros estratosféricas e discriminação das pequenas e médias autopeças, engolfadas pelas grandes corporações multinacionais entre outros motivos porque se fragilizaram ao longo dos anos pelo Custo Brasil.


O patinar da economia brasileira nos últimos 20 anos é um desafio para o governo Lula da Silva. Seria desastroso se repetisse o discurso do antecessor, cujo desvio estratégico do fracasso econômico pegou a trilha do social, com o apontamento da melhoria do desempenho em alguns indicadores. Como se não fosse natural e compulsório que num país terceiromundista os gráficos de redução das mazelas sociais cristalizassem alterações positivas ao menor registro de investimentos. Quando a base de deterioração está no limite da indigência, é natural que qualquer sopro se torne alento.


Entretanto, quando se busca a origem do financiamento dessa melhoria dos indicadores sociais, a história é outra e se consolida o eterno enxugar de gelo. Ou não é verdade que ao FHC receber o governo federal em janeiro de 1995 a carga tributária estava em 25% e agora, ao entregar, segundo cálculos mais conservadores, alcançará 36%? A diferença de 11 pontos percentuais significa mais de R$ 60 bilhões anuais retirados de setores produtivos para alimentar tentáculos assistencialistas — num caminho inverso da lógica do capitalismo social que se espera do Brasil –, através dos quais a riqueza gerada se multiplica em programas de combate à fome, à miséria, ao analfabetismo.


Será que Lula da Silva vai quebrar a espinha dorsal dessa política estúpida de desprezar o desenvolvimento econômico em nome de um assistencialismo que se retroalimenta de suas próprias chagas? Será que o Fome Zero será mais forte que o Desenvolvimento 10? Seria interessante que os economistas do Partido dos Trabalhadores dessem uma olhada em artigo que o também economista Delfim Netto escreveu para a revista CartaCapital desta semana. O ex-ministro de governos militares lança mão de um estudo do Banco Mundial, com base em imensos levantamentos de preços em mais de 100 países, num programa desenvolvido com as Nações Unidas. O estudo registra o avanço do PIB per capita medido pela PPP (Paridade do Poder de Compra).


Declarações de Delfim Netto: “É impactante: nós nos afastamos do mundo! O Brasil foi o único país que não dobrou o PIB per capita de seus habitantes (o México praticamente chegou lá). O resultado é mais dramático quando o comparamos com países desenvolvidos. Normalmente a taxa de avanço do país deve diminuir na medida em que a base cresce. Por exemplo: em 1980, o PIB per capita dos Estados Unidos era de US$ 13 mil e o do Brasil de US$ 4 mil. O que esperaria? Que a velocidade de crescimento do Brasil fosse maior para que houvesse uma convergência. Ao contrário: em 2000, o PIB per capita americano foi de US$ 34.100 e o do Brasil de US$ 7.300. Nosso PIB per capita era 31% do americano em 1980 e caiu para 21% em 2000″.


Se os argumentos do economista são insuficientes para alertar o governo Lula da Silva quanto ao grande risco que correrá se seguir os passos de Fernando Henrique e de antecessores igualmente preocupados em desfraldar a bandeira assistencialista, que tal a reprodução de alguns parágrafos do artigo do cientista político Sérgio Abranches, publicado na Veja também desta semana, a respeito da Invasão de Praga, vista agora in loco e num ambiente de festa pela globalização:


“(…) Um fim patético (o socialismo de Estado) para um regime que se imaginou capaz de anular dois elementos do avanço societário dos últimos séculos: a liberdade e o mercado. Em nome de uma igualdade impossível, abandonou a equidade possível e eliminou a liberdade indispensável. Trocou a desigualdade econômica, baseada na concentração dos recursos materiais, pela desigualdade dos privilégios politicamente distribuídos. Nenhuma das duas é legítima. A primeira gera sociedades iníquas, a segunda tiranias. (…) A desigualdade material se combate sobretudo com educação. A política, com democracia e civismo. No Brasil, vale lembrar, temos pouca educação e mais democracia que civismo” — escreve Abranches.


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