Economia

SÃO BERNARDO É
CASO DE EMERGÊNCIA

DANIEL LIMA - 23/04/2026

A Economia de São Bernardo é um caso gravíssimo. Já passou da hora de contar com tratamento meticuloso, de especialistas em competitividade. Se não bastasse a queda constante do PIB Tradicional, os dados históricos do PIB de Consumo, que é a riqueza acumulada pela população, explicita um desastre. O prefeito Marcelo Lima ficará para a história de São Bernardo se fizer o que antecessores não fizeram na Economia. Ou se começar a fazer o que sucessores  terão de continuar. E não vamos entrar em detalhes sobre todas as razões que levaram São Bernardo à situação atual, exaustivamente analisadas nesta revista digital. Talvez tudo se resuma ao que chamamos de Doença Holandesa Automotiva.

Para se ter ideia das transformações neste século, como se as duas décadas finais do século passado já não fossem suficientes, São Bernardo perdeu em volume demográfico mais que uma Ribeirão Pires de famílias de  classe rica e de classe média tradicional. E ganhou, em dolorida constatação, parcela semelhante de classe média vulnerável, de pobres e de miseráveis.

O PIB de Consumo desta temporada de São  Bernardo, anunciado ontem pela Consultoria IPC, alcançou o total de R$ 45.032.221 bilhões, que correspondem à participação nacional de 0,52309%. Mantivesse nesta temporada a participação relativa no bolo nacional de consumo de 1999, de 0,81613%, São Bernardo registraria nesta temporada R$ 70.474.922 bilhões de PIB de Consumo. Daí o prejuízo de mais de R$ 25 bilhões, que corresponde a 56,50% do valor de 2026.  

Os dados que se seguem são o retrato das mudanças sociais e econômicas em São Bernardo neste século. De 2000 a 2026, tendo 1999 como base de cálculos.

QUEDA NO TOPO

A classe rica e a classe média tradicional de São Bernardo foram  grandemente para o beleleu. Em 1999 representavam 46,40% das famílias. Ou seja: quase metade de São Bernardo resultante da Era e Ouro das Automotivas ocupava espaço preponderante na composição social. Já em 2026 a participação dessas duas classes econômicas caiu para 32,00%. Uma queda de 45% no período. Não se tem nada parecido no País. No Grande ABC, todos os sete municípios perderam mobilidade social, mas o caso de São Bernardo é o mais contundente.

A população de famílias ricas de São Bernardo representava 9,95% do total de 189.086 moradias em 1999. Vinte e sete anos depois caiu para 5,63% de 305.899 moradias. Em números absolutos eram 18.823 ricos  em 1999 e caiu para 17.218 em 2026. Para sustentar participação relativa de 1999, ou seja, para que se mantivesse a integridade do topo social, São Bernardo precisaria ter registrado 30.436 famílias ricas em 2026. A classe média de São Bernardo representava 36,45% do conjunto de moradias. Caiu para 26,37% em 2026. A perda de 13.218 moradias de classe rica, em forma de proporcionalidade,  se somou à queda de 30.842 famílias de classe média, que eram 68.922 em 1999 e passou para 80.658 em 2026, mas que deveriam ser 111.500 caso se guardasse a proporção no conjunto da população. Afinal, entre 2000 e 2026 São Bernardo acrescentou 123.855 novos moradores. Mais que uma Ribeirão Pires (119.000) de moradores. Em 1999 São Bernardo contava com 717.736 moradores, ante 841.591 neste ano.

BURACO DE R$ 25 BILHÕES

O leitor que não prestar atenção aos dados expostos certamente se perderá em meio ao que supostamente seria uma trombose informativa. Os dois mundos de São Bernardo, do passado de 1999 e do presente de 2026, são mundos complementares, que se chocam no dia a dia. Parecem dois municípios completamente diferentes.

Existe na São  Bernardo deste século em relação a São Bernardo do último ano do século passado um estrondo buraco de R$ 25.227.479 bilhões em forma de riqueza acumulada para potenciais consumos. Essa montanha de dinheiro corresponde a tudo que os moradores de  São  Caetano e metade de Mauá têm para gastar nesta temporada. Traduzindo: retire todos os recursos financeiros dos moradores  de São Caetano e metade de Mauá e transfira para o território de São Bernardo. A operação eliminaria os estragos neste século.

A perda de mais de R$ 25 bilhões de riqueza em forma de PIB de Consumo de São Bernardo neste século representa 54,34% de tudo o que os demais municípios do Grande ABC registraram igualmente de perdas no mesmo período. Foram R$ 46.210 bilhões a menos quando se considera a diferença entre o que representava o PIB de Consumo do Grande ABC no território brasileiro em 1999 e o que sobrou em 2026. O Grande ABC dessa trajetória perdeu 30,72% de toda a riqueza acumulada.

NOVOS IMPACTOS

Há uma consequência ainda mais preocupante nos dados que retratam o definhamento econômico de São Bernardo. A queda do PIB de Consumo atingiu frontalmente a classe rica e a classe média, mas a perspectiva é de novos impactos sociais. Tudo porque a distância que separa a soma de ricos e classe média foi reduzida drasticamente, além de a participação relativa  às demais classes sociais (classe média precária, pobres e miseráveis) ter aumentado de forma contraditória.  

Explicando: em 1999, os ricos e a classe média de São Bernardo respondiam por 52,23% do PIB de Consumo geral. Em 2026, passaram a ocupar 59,30% dos valores. Ou seja: mesmo reduzida em proporcionalidade às demais classes, ricos e classe média elevaram a participação no bolo geral de consumo. Em suma: o empobrecimento de São Bernardo fez aumentar a desigualdade da pior maneira possível, porque os ricos e a classe média  aumentaram o bolo de recursos financeiros para gastar.

A diferença de consumo das famílias de ricos em relação à população de classe média era de 14,30 pontos percentuais em 1999 (22,50% de ricos e 36,80% de classe média), e passou, em 2026, para apenas 2,67 pontos percentuais (os ricos consomem  27,45% enquanto a classe média fica com 24,78%). 

Não custa lembrar que a participação relativa do volume ocupacional das famílias ricas está bem abaixo dos indicadores de consumo: os ricos são 5,63% das moradias  de São Bernardo e  consomem 27,45% . A classe média, com um pé no estrato inferior, de classe média vulnerável, conta com  26,37% dos moradores e consomem 24,78% do total. Classe média precária, pobres e miseráveis, que compõem 68,00% das moradias, consomem o equivalente a 47,77%.

CLASSE PRECÁRIA TRIPLICA 

As moradias de classe média precária em São Bernardo correspondiam em 1999 a 32,46% do conjunto de moradias, com 61.384 endereços e participavam com 18,70% do consumo geral. Vinte e sete anos depois, a classe média precária de São Bernardo saltou para 164.012 moradias, que correspondem a 53,60% do total,  e consome 36,00% do total das moradias. No período, como se observa, o total de moradias da classe média precária praticamente triplicou  em quantidade, enquanto a participação no bolo de consumo praticamente dobrou.

Entre os moradores do Grande ABC, São Bernardo é o caso de menor crescimento do PIB de Consumo por habitante. Sem considerar a inflação do período de 27 anos, o crescimento de São Bernardo atingiu 682,29%, saindo de R$ 6.805,16 para R$ 53.508,44. Nesse período, São Bernardo foi ultrapassada por Santo André, que cresceu 847,20% (sempre em valores nominais) ao sair de R$ 6.341,64 para chegar a R$ 60.068,33.

Até Ribeirão Pires se tornou ameaça de ultrapassagem do PIB de Consumo per capita. Em 1999,  Ribeirão Pires registrava C$ 5.089,36 e passou para R$ 50.246,13 em 2026. O que era participação relativa de 74,78% do PIB de Consumo per capita de Ribeirão Pires em relação a São Bernardo, passou quase três décadas depois para 93,90%.

Já na disputa com São Caetano, o PIB de Consumo per capita colocava São Bernardo com participação relativa de 87,82% em 1999, enquanto em 2026 a distancia se alargou: 73,79%. São Caetano contava com PIB de Consumo per capita de R$ 7.814,60 em 1999 e passou para R$ 72.515,52 em 2016, sempre considerando valores nominais, sem efeito inflacionário. São Caetano cresceu nominalmente 827,95%, ou seja, 145,66 pontos percentuais acima dos 682,29% de São Bernardo. 

SÃO BERNARDO X BRASIL

Uma comparação que leve em conta os dados de PIB de Consumo entre  o comportamento de São Bernardo e do Brasil como um todo confirma a especificidade da crise econômica da maior cidade da região. O período é praticamente o mesmo. Apenas os dados do Brasil desta temporada ainda não foram anunciados em detalhes pela Consultoria IPC, empresa com a qual CapitalSocial mantém relação há mais de três décadas. O Brasil se comportou melhor que São Bernardo entre a base de 1999 e o ano de 2025.

Em 1999, a representação socioeconômica da classe rica brasileira era de 4,59%, enquanto a classe média tradicional registrava 17,78%. Na temporada de 2025, ou seja, 26 anos depois, o Brasil registrava queda na participação relativa dos ricos que passaram a 2,74% do total de moradias, enquanto a classe média tradicional registrou  crescimento, passando a 22,10% do total. Na soma das duas classes de maior consumo, a participação relativa de 22,37% em 1999 passou para 24,84 em 2005. Um avanço de 4,47 pontos percentuais. Um resultado positivo em relação aos registrado por São Bernardo, que sofreu perda de 14,40 pontos percentuais o período.

Dessa forma, a diferença  na composição de classe rica e classe média tradicional envolvendo São Bernardo e o Brasil como um todo passou de 24,03 pontos percentuais (46,40% ante 22,37%), para 7,16 pontos percentuais. Ou seja: em 1999, a participação de ricos e classe média tradicional do Brasil em relação a São Bernardo era de 48,21%. Já em 2025, a participação da média nacional sobre São Bernardo saltou para 77,62%. São Bernardo (e o Grande ABC como um todo) está cada vez mais próximo do retrato brasileiro também nas classes sociais mais abastadas.  



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