Política

Lições do capitalismo

DANIEL LIMA - 25/07/2004

Já está comprovado que o grau de influência eleitoral da gestão federal esparrama-se pelas regiões metropolitanas em proporções mais avantajadas do que no restante da geografia nacional. Especialistas em investigação eleitoral modulam o diagnóstico de acordo com conhecimentos individuais, mas todos convergem para a identificação de ramificações favoráveis ou contrárias ao partido da vez em Brasília.


As questões municipais influenciam mais pronunciadamente a percepção dos eleitores de cidades de pequeno e médio portes distantes das zonas metropolitanas. Constrangimentos e benefícios de políticas econômicas e sociais chegam mais cedo e se mantêm mais tempo nos grandes aglomerados humanos. Nesses locais, quem pode mais chora menos na metabolização político-eleitoral dos percalços e dos festejos de fatos e subjetividades idiossincráticas típicas da atividade partidária.


O que isso significa para as eleições municipais no Grande ABC? Que os adversários do Partido dos Trabalhadores começam a inquietar-se. O quadro nacional é francamente favorável à recuperação de uma economia que registrou PIB abaixo de zero na temporada passada.


Como a memória é curta, e mesmo que o bolso não o seja em semelhante intensidade, o fato é que o desemprego de ontem parcialmente recuperado hoje embala o otimismo que compõe a estrutura sociológica do País.


Somos campeões mundiais em matéria de entusiasmo e de depressão. Vivemos, neste instante, período de euforia com base em indicadores econômicos retumbantes. Principalmente quando comparados à paralisia da cautela exagerada, mas nem por isso descartável, do primeiro ano de mandato de Lula da Silva.


No caso específico do PT, e isso mereceria estudo de cientistas políticos, a colagem positiva ou negativa do noticiário advindo do Planalto é provavelmente muito mais sensível pela obviedade de que se trata de um partido compreendido pela sociedade como unidade de Norte a Sul.


Os rebeldes como Heloisa Helena que foram afastados do convívio dos mais moderados, e mesmo aqueles que procuram exercitar reações menos situacionistas, não quebram a correia de transmissão do sentimento generalizado de que o partido é sistêmico, para o bem e para o mal.


Os oponentes petistas nos embates municipais no Grande ABC já devem ter detectado que a disputa será muito mais encardida do que se presumia no início do ano, quando a economia ainda patinava, o caso Waldomiro Diniz dinamitava o prestígio de um dos homens mais importantes da cúpula petista e os programas sociais do novo governo ganhavam a forma de saco de gatos.


Não bastassem vetores nacionais resolvidos ou contidos, observa-se que o Partido dos Trabalhadores dá mostras de que trata as eleições nos principais núcleos demográficos como empreendimento em que a rentabilidade dos esforços está apoiada em sólida organização. A comissão de frente já está na passarela da sensibilização do eleitorado. A realização de showmícios nos sete municípios, seguindo modelo de pacote de contratações de artistas populares, unifica o marketing das campanhas no campo de eventos.


Ligado em rede de internet, cujos computadores absorvem e repassam deliberações de um comitê estratégico central, o PT vai muito além do próprio histórico da transpirante militância.  Ao tornar a tecnologia aliada na massificação de conceitos e deliberações, o PT uniformiza medidas tomadas por um núcleo de inteligência inspiradora que parece não subestimar os adversários.


Convém aos oponentes petistas que mais se esmeram em praticar a democracia do contraditório atenção especial para não perderem de vista a interpretação dos fatos e, eventualmente, não dirigirem para alvos equivocados as lamentações de um possível outubro desalentador às suas cores. A prática de metodologias antiquadas na disputa por votos revelaria algo como uma corrida entre um calhambeque e uma Ferrari. É possível que nem mesmo um possível Schumacher oposicionista consiga chegar em primeiro lugar se não contar com a força da equipe.


Sem qualquer juízo de valor sobre acertos e desacertos petistas em níveis federal e municipal onde tenha um comandante com suas cores, o fato é que o partido antes tão arredio aos pressupostos do capitalismo está aplicando com esmero ferramentas tão providenciais quanto indispensáveis nestes tempos de competitividade: faz da campanha eleitoral uma grande ação sinérgica para obter ganhos de escala.


Que os adversários não elejam eventuais bodes expiatórios para possíveis novas derrotas.



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