Vai ser interessante acompanhar o movimento sindical mais próximo do Partido dos Trabalhadores — e do governo federal — neste período que antecede as eleições municipais.
É provável que o enrijecimento das relações entre capital e trabalho, como prometem lideranças da CUT (Central Única dos Trabalhadores), deságue em constrangimentos para a agremiação cuja estrela vermelha pretende instalar-se em muito mais que as atuais 180 prefeituras brasileiras. Principalmente nas quase uma centena e meia de municípios com mais de 150 mil habitantes.
A conquista de antiga reivindicação cutista, de trazer de dezembro para setembro as negociações trabalhistas com montadoras de veículos e fabricantes de autopeças, apresenta-se como delicada operação neste momento em que o crescimento da economia lubrifica a engrenagem reivindicatória.
Até que ponto é interessante para o PT que seu braço sindical tente recuperar conquistas salariais dos tempos de glória? Seria bom para os candidatos petistas, especialmente no Grande ABC e em outros territórios que sediam montadoras e autopeças, instaurar ambiente de conflito entre empreendedores e trabalhadores?
Quando se ouve e se lê que as centrais sindicais vão brigar por aumentos reais de até 18% nas negociações salariais que se avizinham, especialmente em categorias mais mobilizadas como metalúrgicos, químicos, petroleiros e bancários, o mínimo que o bom senso recomenda é o seguinte: não se trata apenas de retórica belicista para impressionar os oponentes capitalistas?
Sim, é possível que seja blefe, manobra para aplainar um terreno de negociações mais propício à recomposição dos holerites. De qualquer forma, as mensagens estão aí.
Para a Força Sindical é possível que o papel do quanto pior melhor seja vestimenta sob medida, como o foi no passado ainda recente para os cutistas.
De qualquer modo, a greve, tanto para uma central como para a outra, volta a ser ferramenta de pressão. Querem aproveitar o fato de que empresas de diferentes setores industriais já firmaram contratos de demandas reprimidas no ano passado pelo PIB abaixo de zero e aquecidas nesta temporada de mercado internacional apetitoso e internamente pela ligeira recomposição da massa salarial. Nada mais apropriado para o movimento sindical, qualquer que sejam os interesses ideológicos, do que a perspectiva de avanço consistente do PIB, como se prenuncia.
Não falta aos sindicalistas voracidade reivindicatória. Além de recomposição salarial, imprimirão ritmo forte nas negociações para rebaixar a jornada de trabalho e exercer ostensiva blitz sobre horas extras. Tudo sob o pressuposto de que, assim, atingirão o melhor dos mundos: aumento salarial combinado com abertura de novos postos de trabalho e menos desgaste na jornada de trabalho. Um sonho que nem mesmo trabalhadores do Primeiro Mundo, onde o Estado do Bem-Estar Social acusa debilidade, conseguem sustentar.
Fosse diferente, fábricas da Alemanha, por exemplo, não estariam migrando para o Leste Europeu de custos trabalhistas mais apropriados à competição internacional. Aliás, fábricas alemãs já migram internamente, acomodando despesas em regiões menos dispendiosas. Casos semelhantes aos vividos pelo Grande ABC, onde as montadoras de veículos deslocaram investimentos para vários Estados da Federação. Sem contar que as chamadas new commers que aportaram no País depois de uma abertura econômica desajuizada também se ramificaram longe da Região Metropolitana de São Paulo e suas chamadas deseconomias de escala.
Vai ser bastante pedagógica ao amadurecimento das relações entre capital e trabalho a próxima safra de negociações salariais, especialmente no setor metalúrgico comandado pela petista CUT. Um aperto exagerado pode refletir nas urnas eletrônicas de um outubro igualmente tão próximo. A antecipação de um suposto calendário de greves provavelmente não levou em conta quem estaria em Brasília. Travessuras da vida, que se pode fazer.
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09/02/2026 DUAS FACES OCULTAS DA ENTREVISTA DE DIB