Há mais de 600 mil animais na imensa e traumatizada Fazenda Ramalho. A disputa entre o doutor e o operário é para saber quem vai gerenciar tantas cabeças. E tributos também.
A polêmica instalada na Fazenda Ramalho por causa da votação que vai decidir a sorte daquela imensidão de território é a assiduidade com que é proibida a divulgação de soldagem estatística da votação inicial a que terão acesso somente os graduados entre galos e galinhas, elefantes e leões, cavalos e jegues, gatos e macacos, marrecos e dinossauros, pintassilgos e hienas, entre outros, sem contar os avestruzes.
A Fazenda Ramalho está na definição do mandato entre o operário apoiado pelas cabeças vermelhas e o doutor de cabeças amarelas. A ordem constitucional determina que o controle não pode passar de quatro anos num primeiro mandato, e de outro tanto num segundo e último. O operário herdou há dois anos um cargo de um intelectual morto. O doutor já comandou o território por 14 anos.
O operário de cabeça vermelha não se incomoda com quem vai recrutar especialistas para proferir a sentença provisória, sujeita à reformulação no dia do juízo final das urnas. Por sentença provisória se entenda as pesquisas, através da metodologia resumida na concepção de que basta experimentar uma colherada de sopa para conhecer o sabor do prato.
O doutor é raposa e está cercado de guerrilheiros eleitorais. Já mandou fazer essa tal de pesquisa e se deu mal, porque contrariou o ritual sagrado de quem não quer queimar a própria língua. Em vez de contar os animais que julgava encabrestados na Fazenda Ramalho e, depois, conforme o resultado obtido, decidir pelo registro ou não, preferiu oficializar antes da sondagem. Aí a justiça Eleitoral determinou a exposição pública dos números que favoreciam o operário. Um desastre de 11 pontos.
Quem se divertiu com a trapalhada foi um outro instituto de pesquisas que, tolhido no direito de fornecer dados estatísticos ao jornal mais representativo do território, teve motivos de sobra para festejar uma vingança que jamais conseguiria perpetrar com tamanha eficiência.
Dizem que o doutor está mal acompanhado. Contaram-lhe que o melhor negócio eleitoral da temporada era fazer-se de vítima dos supostos poderosos de plantão, principalmente o jornal da região. Seria algo como um brizolismo retardatário na briga com a TV Globo.
O doutor teria acreditado no sucesso da empreitada, mas acabou envolvido numa enrascada. A suposta TV Globo da vez não trocou os pés pelas mãos de exagerar na argumentação. Os animais da Fazenda Ramalho têm senso crítico e sabem distinguir informação de perseguição. O doutor teria ficado apreensivo, principalmente quando uma pesquisa revelou que 80% da Fazenda Ramalho, informada sobre o impedimento de divulgação de pesquisa entre amarelos e vermelhos, condenaram a medida.
Enquanto o operário assiste a tudo de camarote, o doutor é assediado por gente do bem que o orienta sobre a insensatez de impedir que a Fazenda Ramalho seja esquadrinhada de forma científica para revelar quantos são amarelos e quantos são vermelhos. O instituto de pesquisa proibido de divulgar números continua freqüentando ruas, avenidas e vielas. Ouve galinhas e galinhos, patos e patas, marrecos e marrecas, cães de todas as raças. Nem beija-flores escapam da consulta. Dizem que de vez em quando têm de enxotar uns gambás metidos a espantar a freguesia. Não faltariam também cobras criadíssimas que, ao sinal de que há gente contando as cabeças amarelas e vermelhas, correm para artificializar o resultado.
Pressionado pela turma do doutor, o instituto de pesquisa e o jornal que o contratou para anunciar os números sofrem cada vez mais restrições do judiciário eleitoral. Há recomendações expressas para se esquecer qualquer coisa que resvale em numerais. Nem supostas metáforas podem ser esgrimidas. Qualquer coisa que lembre pesquisa eleitoral na Fazenda Ramalho poderá significar muitas dores de cabeça. O advogado de instituto de pesquisas disse que a legislação é um entulho autoritário, dos tempos da ditadura.
A turma do doutor não gostou que a declaração constasse de matéria de primeira página do jornal e da reportagem da página três. Entraram com ação na Justiça Eleitoral. Só não tiveram o direito de resposta impresso exatamente na edição de disputa do primeiro turno porque uma turma do jornal resistiu bravamente. Uma semana depois, a mesma Justiça Eleitoral, agora em São Paulo, deu ganho de causa ao jornal.
A Fazenda Ramalho respira com tranqüilidade nestes dias e noites, mas nem por brincadeira se pode cantar um bingo. A turma do doutor vai dizer que é mensagem cifrada para soprar a diferença de pontos percentuais que separaria os dois finalistas. A Fazenda Ramalho é uma grande piada de deboche à liberdade de Imprensa e à democracia de informação. Pintam e bordam um sete ruborizado em suas fronteiras.
