Integrante do Conselhão Regional desta revista digital, o consultor empresarial José Batista Gusmão não tem dúvidas: a Província do Grande ABC, que ele prefere chamar de Grande ABC, só reagirá ao estado morno em que se encontra, segundo sua opção de adjetivação, a partir do surgimento de uma grande liderança regional. Algo assemelhado ao que representou Celso Daniel nos anos 1990. O mesmo Celso Daniel com quem Gusmão atuou como integrante de uma das instâncias de integração regional.
Gusmão concorre ao cargo de vereador em Santo André, razão pela qual CapitalSocial resolveu entrevistá-lo mais detalhadamente. Ex-operário e ex-executivo da Bridgestone Firestone, com fábrica no Município, José Batista Gusmão tem inserção em várias organizações de Santo André, entre as quais a Acisa (Associação Comercial e Industrial de Santo André). Participa ativamente de ações sociais e ao longo dos anos tornou-se um dos mais efetivos agentes de consultoria das publicações dirigidas por este jornalista, tanto no Conselho Editorial da extinta revista LivreMercado quanto do Conselhão Regional de CapitalSocial. "De um modo geral e ao longo desse período de campanha percebi que os munícipes avaliam como de baixa produtividade a atuação dos vereadores, sobretudo pela ausência de projetos e ações concretas que resultem em benefício para a sociedade" -- afirma Gusmão, ao avaliar os Legislativos municipais.
Disputar uma vaga na Câmara Legislativa de Santo André é algo como uma corrida de espermatozoide ou o senhor entende que, seguindo-se um planejamento bem elaborado é possível transformar o projeto em realidade?
José Batista Gusmão – Se considerar que as propostas mais inclusivas aos anseios da sociedade sejam reconhecidas, sim. O óvulo eleitoral será vencido por aqueles que possuem propostas concretas; por outro lado, um bom planejamento de campanha é forte aliado para obter sucesso eleitoral. Porém, não se pode depender apenas de planejamento. Sem mídia de massa para defender propostas e mostrar qualitativamente o potencial que o candidato tem para contribuir a um Legislativo forte e independente, prevalecem os três S no processo: Suor, Saliva e Sapato -- o que não pode ser terceirizado.
A quase totalidade de vereadores eleitos nos mais diferentes municípios de grande porte é resultado de ações localizadas em determinadas comunidades, o que chamamos de distritalização de voto, ou por conta de ações temáticas de grande apelo, além, é claro, e mesmo assim residualmente, das chamadas subcelebridades. O senhor conta com que respaldo social para competir ante muitos adversários que já se estabeleceram há muito tempo em microterritórios?
José Batista Gusmão – Notadamente a maioria absoluta é eleita pelo fenômeno da distritalização. Cabe ressaltar que essa condição, frente ao que se espera na gestão do mandato, propicia diferenciações de ações em determinada região do Município em detrimento de outras que efetivamente necessitam e que não possuem vereador-padrinho.
Ao longo das últimas décadas de minha atuação profissional, como diretor de relações corporativas da maior empresa geradora de emprego e renda da cidade de Santo André; organizacional, calcada em um histórico de participação no corpo diretivo da maior entidade representativa da indústria, comércio e serviços da região do Grande ABC; como voluntário em clubes de serviços e suas instituições mantidas da maior ONG do mundo, conferem condição de que minha candidatura é efetivamente temática, trilhando para as questões do desenvolvimento econômico regional e organizacional, pela busca da universalização dos direitos fundamentais que a sociedade anseia. Nesse contexto, minha experiência de vida proporciona amplas condições de atuar de forma a pensar o Município como um todo (universalização) e não distritalizado (focalização).
Qual sua avaliação geral e independente de localidade a respeito das Câmaras Legislativas no quesito produtividade?
José Batista Gusmão – Dê um modo geral e ao longo desse período de campanha percebi que os munícipes avaliam como de baixa produtividade a atuação dos vereadores, sobretudo pela ausência de projetos e ações concretas que resultem em benefício para a sociedade. Percebe-se também inércia na efetiva atuação na fiscalização das ações do Executivo, um dos pilares da atuação do vereador.
Quais são as maiores lições que sua vivência municipal e regional lhe deixaram como premissa à possibilidade de atuar como parlamentar?
José Batista Gusmão – A principal lição, sobretudo a partir do positivo convívio que mantive com o saudoso prefeito Celso Daniel, foi ver as macro questões municipais sob ótica regional. Não há como pensar de forma exclusiva no âmbito municipal assuntos como drenagem urbana, resíduos, mobilidade, entre outros. Outra lição é que faz-se necessário atuar de forma integradora com outros atores da sociedade civil organizada. Minha experiência empresarial de cerca de 30 anos associada à virtuosa vivência junto ao Poder Público local e regional nos últimos 15 anos, permitiu que desenvolvesse profícuas habilidades e competências para a compreensão de problemas e soluções de forma ampla e, nestes termos, constituindo-se premissa para atuação proativa no Legislativo andreense.
Estamos gelados, mornos ou quentes como definição do grau de institucionalidade na Província do Grande ABC? Entenda-se por institucionalidade a nossa capacidade ou incapacidade de somar esforços de diferentes associações de classe, de empresários, sociais, de trabalhadores e culturais, para interferir de forma produtiva no destino regional tendo-se como objetivo o futuro hoje incerto.
José Batista Gusmão – Estamos mornos. No final da década de 1990 a questão da institucionalidade regional estava em franco processo de maturação. Com o falecimento do principal articulador e líder nesse processo, Celso Daniel, preponderou o dissenso que acarretou em pulverização das iniciativas formuladas até então. A região carece de uma liderança com o perfil de agregar e liderar esforços na direção da institucionalidade.
Como ex-operário e ex-executivo de uma empresa de autopeças, no caso a Bridgestone Firestone, como o senhor avalia a realidade dos tempos de industrialização efervescente da região e as transformações por que passamos e que continuamos a passar, com o setor de serviços de baixa tecnologia concentrando a maioria dos empregos que rareiam nas indústrias?
José Batista Gusmão – Essa é uma realidade, inclusive de âmbito nacional nas principais regiões metropolitanas. É necessário avaliar a vocação local com respeito às indústrias do polo petroquímico e de plástico para fortalecê-las, além de estabelecer novos paradigmas às tecnologias de informação de alto valor agregado, como contrapeso ao setor de serviços. Santo André tem potencial para o pleno desenvolvimento de novas economias, aproveitando o potencial técnico-científico advindo da UFABC (Universidade Federal do Grande ABC) e Fundação Santo André.
O senhor acha possível resgatar, com as adaptações que se fazem necessárias, o legado municipal e regional de Celso Daniel? Não corremos o risco de produzir uma cópia ordinária, como é o caso da tentativa de recuperação do projeto Cidade Pirelli, transformado em arremedo?
José Batista Gusmão – Para dar conta do legado de Celso Daniel é preciso, acima de tudo, de um líder regional de alta capacidade intelectual, técnica, empreendedora e de visão de futuro, sob pena, do contrário, de realizar ações que se tornam inócuas frente às efetivas demandas da sociedade. A região tem sofrido nos últimos anos pós Celso Daniel uma vacância de lideres dessa estirpe. Não é somente abrir os arquivos da competência deixada por ele; é preciso ter pessoas que possam compreender e dar vida aos ainda excepcionais projetos pensados a curto, médio e longo prazos. Entenda-se como 5, 10,15 e 20 anos. Assim pensava o maior de todos os prefeitos da história de nossa região e um dos pilares referencia do pensamento do Estado moderno.
A Universidade Federal do Grande ABC, voltada quase que exclusivamente à produção de cérebros para o País, é a instituição que imaginava para mudanças de conceitos e de matrizes econômicas da região?
José Batista Gusmão – A universidade, de um modo geral, sobretudo as públicas, tem como premissa a participação na construção do ideário local/regional. Até o presente momento não identificamos inserção regional de impacto nas ações da UFABC. E aqui visualizo a falta de interesse mútuo, da independência medíocre de todos os atores regionais, em todos os níveis.
Como o senhor analisa o escândalo do Semasa?
José Batista Gusmão – A questão do Semasa denota tácita fragilidade institucional corroborada pela falta de transparência nas ações da autarquia. Na atualidade, com a producente inserção digital, é inadmissível que a sociedade não tenha à disposição mecanismos de acompanhamento dos processos. O legislativo andreense não pode esmorecer; precisa exercer o papel que lhe é dado: fiscalização. Por outro lado, tendo em vista que o assunto tramita no Ministério Público, para emitir opinião calcada em fatos concretos é prudente aguardar que os desdobramentos que esperamos não caia na vala comum do arquivo sobreposto de escândalos sucessivos.
Entre a verticalização quase coercitiva que move as lideranças do mercado imobiliário e a densidade de ocupação do espaço urbano de maneira equilibrada, com prédios de poucos andares sob a premissa de sustentabilidade, qual é a sua opção?
José Batista Gusmão – O crescimento populacional nas cidades da região tem sido um fenômeno marcante nas últimas quatro décadas e tem refletido de forma preocupante no uso e ocupação do solo. Em Santo André, o Plano Diretor Municipal não acompanhou, no tempo e espaço, o dinamismo de crescimento e, por isso, enfrentamos um conjunto de problemas que repercutem de forma negativa no cotidiano do cidadão. O gabarito (número de andares máximos permissível) dos prédios precisa ser revisto, definido por zonas, trilhando assim por políticas que permitam a descentralização que, além de ajudar a fortalecer comércio local, amplia a geração de trabalho e renda e proporciona melhorias na mobilidade urbana.
Na qualidade de membro do Conselho Municipal de Políticas Urbanas (CMPU), defendi a adoção de políticas que permitam crescimento de forma sustentável. Hoje a sustentabilidade deve ser encarada de forma ampla, suportada pelos aspectos ambiental, econômico, sociocultural e espacial, condição que impõe a efetiva necessidade de avaliar qualquer novo projeto sob essa égide. É uma questão real de "desenvolvimento sustentável". Santo André, com sua pujança regional e nacional, pode encabeçar uma nova forma de crescimento, conduzindo o processo para um Município saudável para as vindouras gerações. A especulação imobiliária não pode e não deve prevalecer sobre o interesse da cidade.
A indústria automotiva já dá sinais de preocupação com a qualidade de vida das grandes metrópoles, excessivamente motorizadas. É possível salvar o ambiente urbano de uma catástrofe ainda maior?
José Batista Gusmão -- A visão de integração regional precisa preponderar nesse contexto, o que repercute na efetiva necessidade de estabelecimento de rodízio, como experimentamos no passado em situação muito inferior ao caos que vivemos hoje. Aliado a esse fato, a adoção de inspeção veicular, não paga, é uma medida que permite melhor controle de emissões atmosféricas da queima de combustíveis fósseis.
De modo geral, notadamente não exclusivo a Santo André, dever-se-ia regular a produção de álcool e, ao mesmo tempo, desonerá-la de tributos para incentivar o consumo desse combustível, cujo impacto ambiental é efetivamente menor quando comparado à gasolina. A construção de grandes obras viárias resolve parte do problema porque, além de necessitarem de grandes investimentos, tornam-se impotentes a curtos e médios prazos. É essencial estabelecer em Santo André e região modais de transporte que viabilizem a locomoção para São Paulo e região com qualidade e segurança.
Por que a Província do Grande ABC não consegue encontrar agentes sociais que possam copiar o modelo de organização e de atuação do Movimento Nossa São Paulo, que atua diretamente junto à Administração Pública na tentativa de obter maior equilíbrio na relação entre Mercado, Sociedade e Poder Público? Mergulhamos inexoravelmente na apatia, no conformismo? O Movimento Nossa São Paulo tem o objetivo de promover iniciativas que possam recuperar para a sociedade os valores do desenvolvimento sustentável, da ética e da democracia participativa, buscando transformar São Paulo em uma cidade segura, saudável, bonita, solidária e realmente democrática.
José Batista Gusmão -- A principal questão é a inércia pela ausência de integração regional, impeditiva à visão de futuro. Vivemos ainda um modelo de política regional em que os currais eleitorais, e suas repercussões, preponderam sobre as efetivas necessidades regionais e, de forma abrupta, dificultam a organização e as possibilidades de interlocução entre os importantes atores da sociedade.
Os conselhos municipais precisam ser reativados, na essência. A sociedade civil organizada precisa articular-se de forma a fortalecer os espaços ocupados e conquistar novos, sob pena de continuar mergulhada na apatia. A experiência exitosa do Projeto Santo André Cidade Futuro, conduzido pelo memorável prefeito Celso Daniel, foi esquecida nas gavetas do individualismo do Estado que, há quase 15 anos, convidava a sociedade, nos moldes do Movimento Nossa São Paulo, a cultivar os valores do desenvolvimento sustentável, da ética e da democracia participativa.
Experimentei, como Coordenador do Eixo de Desenvolvimento Econômico, o quanto a colaboração de todas as frentes representativas do tecido social pode fazer por uma sociedade. Esperamos que todos, Poder Publico, entidades de classe, sindicatos, movimentos sociais, movimentos religiosos, representantes das empresas, potencialmente geradoras de trabalho e renda da nossa cidade, tenham a oportunidade de formar fileiras em beneficio de cidade e de todos os seus cidadãos.
Total de 201 matérias | Página 1
02/12/2025 CARLOS FERREIRA E O PODER EXECUTIVO