Ao deixar a Secretaria de Saúde de São Bernardo e ganhar status de ministro, em substituição a Alexandre Padilha, candidato petista ao governo do Estado, Arthur Chioro avança algumas inesperadas casas que pareciam impossíveis à sucessão de Luiz Marinho. Arthur Chioro é destacado principalmente entre os petistas como concorrente forte porque levaria nítida vantagem interna sobre potenciais adversários, o secretário de Obras Tarcísio Secoli e o supersecretário sem pasta e presidente do São Bernardo Futebol Clube, Luiz Fernando Teixeira.
O calcanhar de Aquiles do PT em São Bernardo é encontrar antídoto ao quadro de metástase nacional: a dificuldade de conquistar a classe média tradicional, que não tem nada a ver com a classe média inventada por alquimistas numéricos que desdenham da etimologia cultural da expressão. Nossa nova classe media não passa de pobres para os padrões de Primeiro Mundo e de batalhadores no País, como definiu o sociólogo Jessé de Souza.
O eleitorado de São Bernardo reúne pelo menos 30% de classe média convencional, de gente com escolaridade nas alturas, de rendimentos que asseguram uma vida mais ou menos sem atropelos e bens matérias que não custam anos e anos de carnês. É essa classe média assalariada que sofre com a carga de Imposto de Renda tributado na fonte em faixa de desconto congelada ante a inflação, é essa classe média que consome informação, que sabe distinguir populistas num piscar de olhos, é essa classe média que o PT de São Bernardo quer conquistar em nível suficiente para reduzir a desvantagem ante um candidato de oposição de esperado discurso reformista.
O desafio de São Bernardo, assim como de todo o PT da Província do ABC, é encontrar um candidato que una o útil do partido ao agradável dos formadores de opinião; ou seja, um concorrente que tenha nas classes populares o respaldo de votos sobre os quais o PT já controla, e nas classes mais escolarizadas o respeito a induzir uma divisão menos desequilibrada de votos nas urnas de outubro de 2016.
Nem um, nem outro
Tem-se, sob esse aspecto, que nem Luiz Fernando Teixeira, que tenta virar deputado estadual, nem Tarcísio Secoli, um supersecretário oficial, encaixam-se nas prerrogativas essenciais à tarefa. Assim como Luiz Marinho jamais encaixou e que por isso mesmo precisou do suporte do primeiro-amigo Lula da Silva para arrancar na periferia os votos suficientes para enfrentar o antagonismo da classe média.
Arthur Chioro é considerado um gestor público com mais experiência que os eventuais concorrentes petistas à Prefeitura de São Bernardo. Carregaria o agora ministro da Saúde a discrição de Tarcísio Secoli e a determinação de Luiz Fernando Teixeira. Ou seja: reúne as duas principais características desses eventuais oponentes partidários. Outras qualidades que ostenta não estão entre as principais características de Tarcísio Secoli e de Luiz Fernando Teixeira.
Arthur Chioro é visto como executivo público brilhante, organizado, detalhista, intenso no trabalho, incansável em busca de atingimentos de metas, bom no convívio com gente enturmada e também com gente eventualmente opositora. É um Tarcísio Secoli com muito mais empatia e um Luiz Fernando Teixeira sem nenhuma antipatia.
Não por outra razão Arthur Chioro não gozaria do respeito principalmente de Luiz Fernando Teixeira, a quem se atribui um poder de bastidores que o relaciona a eminências pardas. Sofresse Luiz Marinho algum atentado como Celso Daniel sofreu e tivesse acompanhado de Luiz Fernando Teixeira, como estava Celso Daniel acompanhado de Sérgio Gomes, não faltariam ilações sobre os eventuais interesses em jogo. A diferença entre Luiz Fernando Teixeira e Sérgio Gomes é que o homem que serviu de bode expiatório à versão de crime de encomenda jamais se meteu em disputa eleitoral, exceto como comandante de campo das jornadas de Celso Daniel.
Chamamento inevitável
O que se sabe sobre a passagem de Arthur Chioro na Prefeitura de São Bernardo e também no Clube dos Prefeitos é que não foi confortável para quem estava acostumado a morosidades ter de acompanhar o ritmo que ele imprime. O chamamento pela presidente Dilma Rousseff era tão esperado por conta disso que as denúncias que o envolveram se fizeram presentes nas manchetes muito antes da troca de ministro porque se pretendia criar ambiente que sufocasse ensaio do recrutamento federal. Não deu certo porque Arthur Chioro tem aliados poderosos e, sobretudo, porque o governo Dilma Rousseff não pretendia uma substituição que colocasse em risco área tão sensível da administração pública.
O preparo midiático de Arthur Chioro está anos-luz à frente de Luiz Fernando Teixeira, um tagarela incontornável, e de Tarcísio Secoli, um introspectivo que a cultura política desaconselha como protagonista de campanha a cargo majoritário. Não seria, entretanto, o fala-muito de Luiz Fernando Teixeira e o fala-pouco de Tarcísio Secoli os mata-burros dos dois pré-candidatos. Valeria mesmo o brilho individual de Chioro. Não falta quem considere que ele poderia fazer a diferença no eleitorado mais resistente ao petismo de São Bernardo. Seria Chioro da escola de Fernando Haddad com a vantagem política de que não estaria a fim de estilhaçar cristais.
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