Há intolerância disfarçada entre o PT de Santo André, do prefeito Carlos Grana, e o PT de São Bernardo, do prefeito Luiz Marinho. Esses companheiros de direção do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo (e de Diadema) durante parte do período da mais terrível crise industrial da Província do Grande ABC, na década de 1990, mantêm relações protocolares, apenas. O centro da discórdia são dois pontos: a gulodice de financiamento eleitoral, centralizada em larga escala em São Bernardo, e o tratamento editorial contrastante do Diário do Grande ABC.
É notório aos leitores mesmo que ingênuos que a Administração Luiz Marinho, por mais insumos que forneça à incontestabilidade de erros, sofre assédio permanente do Diário do Grande ABC. Os níveis de cobrança e de revelação de podres poderes são notoriamente contundentes do diário mais antigo da região à gestão Marinho. Carlos Grana é premiado com extremo carinho e complacência, embora a gestão de Santo André seja medíocre e artificialmente transparente.
O noticiário envolvendo o prefeito de Santo André excede-se tanto ao ressaltar obras varejistas de Carlos Grana, como uma recente passarela construída na Avenida Prestes Maia, como ao ressalvar eventuais complicações, quando não na omissão, por exemplo, de dores de cabeça em forma de intervenções no sistema logístico de trânsito. Os comerciantes da Rua Carijó que o digam.
Já com Luiz Marinho o pau come solto. Dá-se tratamento igualitário a grandes contratempos e a questões menores da gestão petista, sem contar que aquela publicação pinça um grão de areia de inconformidade e o coloca como núcleo de informação de algo muito mais valioso. Caso do centro de atletismo recentemente inaugurado e que instala estruturalmente São Bernardo no topo da prática daquele esporte no País.
Diferenças explicam
Há muitos interesses em jogo envolvendo esse triângulo. Certo é que Carlos Grana é muito mais vulnerável administrativamente, muito mais submisso politicamente e muito mais excessivamente camarada como gestor do que Luiz Marinho.
A personalidade do prefeito Luiz Marinho, blindado pela primeira-dama e supersecretária, não tem semelhança alguma com o jeito de viver de Carlos Grana. Um é disparadamente mais simpático que o outro. Grana é afável, atencioso, politicamente astuto, embora contraditório e cada vez mais caminhando à mediocridade absoluta. Marinho é quase intragável, seletivo e politicamente enigmático, mas transmite a ideia de que sabe o que quer, de que preserva o horizonte de ambições conjugadas com compromisso que não podem falhar.
As vantagens de interlocução de Carlos Grana quando contrapostas ao perfil de Luiz Marinho decorrem de fatores associados que se misturam claramente: por ser mais gelatinoso como administrador, Carlos Grana não tem uma banda sequer estreita para comprar grandes encrencas. Assim, prefere sempre e sempre a conciliação, mesmo que conciliar custe os olhos da cara, dos dentes da boca e dos pelos do corpo.
Não à toa a gestão de Santo André é uma suruba de interesses muitas vezes contraditórios. A Administração Carlos Grana é um condomínio social, sindical, político e empresarial. Há tanto enrosco entre os vizinhos de janela que o titular do Paço de Santo André está imobilizado. Nem substituição de secretário ousa fazer, porque teme por alguma rebelião no entorno do poder que pensa exercer com mão de ferro, quando, de fato, está submetido a cabrestos variados.
Osso duro de roer
Já Luiz Marinho é osso duro de roer. Fosse menos Luiz Marinho e mais Carlos Grana no jeito de ser, sem os vícios de Carlos Grana, possivelmente o sonho de chegar ao governo do Estado não estaria tão distante das próximas eleições – as de 2018. Mas Luiz Marinho excede-se na antipatia muitas vezes ideológica muitas vezes política muita vezes econômica como ferramenta gerencial.
Nem mesmo o fato de que parte das idiossincrasias da Administração de São Bernardo é debitada à primeira-dama, um trator chamado Nilza, nem mesmo isso alivia a barra de Luiz Marinho. Dizem que lhe faltaria personalidade para contestar algumas ações intramuros da primeira-dama. Ações intramuros seriam medidas intempestivas em reuniões do secretariado, onde, garantem alguns frequentadores, a primeira-dama nada de braçadas.
Personalidades diferentes, Carlos Grana e Luiz Marinho têm outro vértice além do Diário do Grande ABC como elemento constrangedor das relações institucionais e políticas: o esquema de financiamento eleitoral que recrudesce a cada nova temporada de votos. Nas eleições de 2010 tanto na vitória de Carlos Grana como na dos demais petistas da região, além de outras siglas aliadas, como o PMDB de Paulo Pinheiro, em São Caetano, pesou a mão forte do comandante do processo de arrecadação de receitas, o agora candidato a deputado estadual Luiz Fernando Teixeira.
A regionalização da caça ao tesouro de recursos de doadores causou e ainda causa indignação nos petistas que resistem ao centralismo de São Bernardo. Carlos Grana e Luiz Marinho digladiam em torno da autonomia reivindicada pelo primeiro e da centralização defendida pelo segundo. A divisão orçamentária dos recursos financeiros de campanha é uma briga de cachorros grandes.
Bastidores aquecidos
Nos bastidores de São Bernardo o que mais se comenta é que Luiz Marinho não tem a menor preocupação com Carlos Grana, porque não o observa como concorrência à liderança regional que exerce. Primeiro porque ele, Marinho, ocupa a Prefeitura de maior massa crítica econômica da região. Segundo porque não tem os pecadilhos de subserviência à governabilidade necessária. Terceiro porque entende que Carlos Grana não tem maiores ambições na carreira por reconhecer-se no limite possível.
Já em Santo André, Marinho é alvo de críticas petistas porque carregaria um comboio excessivamente lotado de ambições que incluem, obrigatoriamente, a tutela dos demais petistas da região. Essa abrangência de atuação é vista como regionalização de araque, porque está respaldada no princípio de que a mobilização do partido na Província do Grande ABC é um processo de via única, sempre carreando recursos a São Bernardo, deixando os demais endereços com migalhas incompatíveis com os planos traçados por quem espera muito mais da condição de comandante de paço municipal.
Não duvidem os leitores de contraofensiva a este texto, disparada pelos marqueteiros petistas. Eles seriam capazes de encenar um encontro dos dois prefeitos, com troca de beijos supostamente efusivos. Nos bastidores, não faltam tapas, muitos tapas.
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09/02/2026 DUAS FACES OCULTAS DA ENTREVISTA DE DIB