Antecipei em dois de abril último a manchetíssima de primeira página do Diário do Grande ABC de domingo, que apontou a aproximação agora nada dissimulada entre Orlando Morando e Alex Manente. Os dois deputados estaduais da região vão caminhar juntos nas disputas proporcionais desta temporada como ensaio geral à coalizão dos respectivos partidos com vistas às eleições municipais de 2016.
Com o cuidado de quem pisa em ovos de relacionamentos que não podem ser atirados no lixo, o jornal preferiu não enveredar pelos caminhos políticos, partidários e ambientais que regem essa orquestração até outro dia considerada tão improvável como canibalizadora. Tanto a improbabilidade como o duplo suicídio sugerido eram burrices, porque desprezam a realidade de que só existe uma maneira razoavelmente sensata de tirar o PT de qualquer poder: unir as forças opositoras ao PT.
Foi assim, aliás, que o PT chegou ao governo federal e à maioria das demais instâncias. Mais que isso: o PT se especializou na arte da sedução político-eleitoral. Santo André está aí para confirmar. Carlos Grana é a síntese cabocla da filosofia do mestre Lula da Silva, confesso parceiro, padrinho e tutor. Quantos dos chamados direitistas históricos que hostilizaram o PT e o sindicalismo não estão de braços dados com Carlos Grana? Quantos não cansaram de sacudir a roseira da difamação contra Celso Daniel e hoje estão de braços dados com Carlos Grana? Quantos não vibraram com as investigações do Ministério Público sobre o caso Celso Daniel e estão hoje de braços dados com Carlos Grana?
Juntar os deputados estaduais Orlando Morando e Alex Manente numa chapa de cooperação para potencializar o monopólio do eleitorado de centro-direita da Província do Grande ABC, notadamente de São Bernardo, não é nenhum lance de genialidade. É a constatação de que o mundo dos equinos políticos de vez dá espaço aos humanos.
Orquestra de violinos
O Diário não se meteu em nenhum trecho da matéria de domingo a discorrer sobre as profundezas políticas que levam Morando e Manente a beberem da mesma fonte de interesses. Não convém ao Diário do Grande ABC mexer em determinados assuntos, porque, por ser um veículo eclético, tenderia a desagradar parceiros gregos ou parceiros troianos. Dar uma de Pilatos é, nessas circunstâncias, a única forma razoavelmente competente de se mostrar independente, quando de sabe que de boas intenções o inferno está cheio.
A banda de Alex Manente que pretende tocar em Brasília e a banda de Orlando Morando que deverá continuar a tocar na Assembleia Legislativa de São Paulo formam uma orquestra de violinos mágicos. Juntá-los não só elevaria a racionalidade eleitoral como também projetaria portentosa produtividade de campanha. Gastar proporcionalmente menos para eleger os dois candidatos é um drible e tanto nos custos financeiros e, sobretudo, na redução do estresse. Eles deixarão de se hostilizarem na calada da noite. Dormirão sob os mesmos lençóis de propostas estratégicas.
Azar, muito azar, do candidato preferido de parte do Paço de São Bernardo, Luiz Fernando Teixeira, neopetista, presidente do São Bernardo Futebol Clube e homem forte no cadastramento de empresas decididas a desembolsar rios de dinheiro em campanhas eleitorais.
O namoro entre Manente e Luiz Fernando estaria suspenso, vestibular do descarte, mas em política tudo é possível. E muito desse tudo vai depender do grau de agressividade com que elementos oriundos do PT e da constelação de suporte ao governo federal refestelaram-se das entranhas da Petrobrás, em uma sucessão de escândalos cabeludos que não poupam nem a presidente da República.
Há tentáculos do escândalo na Província do Grande ABC, inclusive com o uso e abuso de recursos a campanhas eleitorais. O que os políticos que pretendiam aproximar-se de candidaturas petistas mais temem nestas alturas do campeonato é que respingos os atinjam. Por isso é melhor prevenir do que remediar. O PT não seria uma companhia das mais seguras. Eventuais enxertos financeiros de terceiros corresponderiam a potenciais dores de cabeça de denúncias no futuro.
Olhos bem abertos
Como há indicações mais que sustentáveis de que o panorama político nacional vai seguir uma rota que provocará olheiras cada vez mais profundas na presidente Dilma Rousseff, porque a Petrobrás tem todas as características de um estrondo eleitoral às avessas e muito mais contínuo, dilacerante e comprometedor do que as manifestações de junho do ano passado, o melhor é os leitores ficarem de olhos bem abertos.
Manente e Morando são jovens políticos, mas bem escolados. Eles sabem reconhecer o cheiro da brilhantina porque vivem intensamente a oficialidade e o oficiosidade dos poderes.
O sonho de Luiz Fernando Teixeira penetrar na classe média de São Bernardo, uma classe média cada vez menos importante no cômputo geral dos votos (porque decresce assustadoramente em relação ao conjunto da população), está indo ladeira abaixo. O ponta-de-lança com o qual pretendia contar, Alex Manente, ex-aliado petista nas eleições municipais de 2008, quando ajudou Luiz Lula Marinho a virar prefeito, está bandeando para outras plagas.
O instinto de sobrevivência fala mais alto. Principalmente em geografias metropolitanas mais hostis aos descalabros petistas, situação que os tucanos estão a comemorar porque obscurece seus próprios desatinos, comprovadamente menos sistêmicos e, por isso mesmo, menos aviltantes.
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09/02/2026 DUAS FACES OCULTAS DA ENTREVISTA DE DIB