É natural que o prefeito Luiz Marinho, de São Bernardo, também prefeito dos prefeitos da região, à frente que está do Clube dos Prefeitos, faça esforços políticos, administrativos e eleitorais para garantir o máximo de sustentação à reeleição de Dilma Rousseff. Por isso, a manchetíssima do Diário do Grande ABC de hoje sobre um almoço-cooptação de Marinho com os demais prefeitos da região não é nada extraordinária. Faz parte do jogo de fisiologismos comuns na política, sejam quais forem os protagonistas.
O problema de Luiz Marinho, que o jornal não viu, e nenhum outro jornal viu, é que se Dilma Rousseff for derrotada no conjunto de quase dois milhões de votos desta Província, o prefeito de São Bernardo e líder político mais proeminente da região, ficará mal na fita.
O prefeito de São Bernardo cevado nas lides sindicais, instância na qual a pressão corporativa subjacente dos trabalhadores sempre garantiu diálogos e coerções vantajosíssimos à classe e também ao seu próprio currículo, sabe que corre imensos riscos.
O PT dificilmente alcançará o tetracampeonato de vitórias presidenciais na região. Nas disputas de 2002 e 2006 com Lula da Silva e em 2010 com Dilma Rousseff o PT obteve mais votos no segundo turno que os candidatos tucanos. O tricampeonato, entretanto, foi muito diferente do título de 2002 e mais complicado que o bicampeonato de 2006. A cada rodada eleitoral o PT teve proporcionalmente menos votos.
Pelo andar da carruagem econômica, que afeta fortemente a área social, com o desemprego industrial se acentuando, não há garantias de que Dilma Rousseff vai se dar bem por estas bandas. Mesmo com as promessas de investimentos gigantescos, que se contrapõem à realidade de inversões ainda acanhadas.
FHC ajudou demais
Graças aos oito anos mais que terríveis de Fernando Henrique Cardoso nos destinos da Província do Grande ABC, a partir do Plano Real de transformações sociais e econômicas que não conseguimos acompanhar, o PT deitou e rolou na geografia destes sete municípios.
No pleito de 2002 o candidato Lula da Silva deu uma sova e tanto no tucano José Serra. Sempre considerando os votos válidos, foram 60,89% a 39,11%. Nas urnas nacionais a diferença foi praticamente a mesma: 61,27% a 38,72%. Já em 2006, Lula da Silva se reelegeu com 60,83% a 39,17% de Geraldo Alckmin. A diferença no Brasil foi menor, mas assemelhada: 57,41% a 42,59%. Em 2010, com o PIB bombando 7,5% de avanço em relação ao ano anterior, a petista Dilma Rousseff sentiu um tranco nas urnas, obtendo 54,05% ante 45,95% de José Serra na Província e 56,05% a 43,95% no País.
Reparem que há mesmo muita proximidade entre os resultados gerais na Província do Grande ABC e os resultados gerais no País. Houve quem no jornalismo da Província propusesse, tempos atrás, que o Ibope deveria dispensar pesquisa em todo o território nacional para aferir as possibilidades eleitorais dos candidatos à Presidência da República. Bastaria pesquisar os eleitores desta Província. Uma barbaridade de proposta, convenhamos. Fosse assim, não faltariam municípios brasileiros cujos resultados presidenciais se encaixariam nos resultados gerais. Seria mais econômico ainda sondar algum desses eleitorados.
Disputa complicada
Como será agora o resultado eleitoral à Presidência da República em mais que provável segundo turno com o tucano Aécio Neves e um magérrimo PIB de não mais que 1,2% ao final da temporada?
Entenderam por que o prefeito Luiz Marinho tem de fazer das tripas da promessa de liberação de recursos para os prefeitos da Província o coração de industrialização de votos? Se como ponta de lança da presidente da República na região Luiz Marinho não provar que é mesmo um mandachuvão político capaz de contabilizar números sobre os quais o balanço nacional seria fichinha, o que lhe restaria fazer?
O emagrecimento do eleitorado petista na Província do Grande ABC, quando se trata de destinação de votos à candidatura do partido à Presidência da República, é um ritual que adiciona inquietação ao prefeito Luiz Marinho. Entre a vitória de Lula da Silva em 2002 e a vitória de Dilma Rousseff em 2010, passando pela reeleição do ex-sindicalista no meio do caminho, o mergulho percentual de sufrágios petistas é alarmante. Em 2002 Lula da Silva superou José Serra por 51,05% dos votos. Ou seja: a diferença entre o eleito e o perdedor foi estratosférica. Em 2006, nova vitória de Lula da Silva, mas agora com 25,81% de superioridade sobre Geraldo Alckmin. Em 2010, Dilma Rousseff superou José Serra por apenas 14,98% dos votos válidos na região.
Tudo indica que os escândalos petistas, sobretudo na Petrobrás, e a fragilidade do Produto Interno Bruto, mais acentuadamente preocupante na Província do Grande ABC dependente em excesso de uma indústria automobilística em crise, tornarão a vida política de Luiz Marinho um inferno.
Ao recorrer às máquinas públicas, colecionando apoios dos prefeitos num processo de regionalismo que tanto faz falta no setor econômico, Luiz Marinho trabalha com a perspectiva de que a sensibilização do eleitorado em favor da reeleição de Dilma Rousseff será automática. Talvez caia do cavalo. A cotação da maioria dos prefeitos da região no eleitorado é comprometedora. Como se não bastasse o prestígio ao rés dos carpetes dos políticos de maneira geral, conforme provam estudos respeitáveis.
Derrota comprometedora
Certo mesmo é que esse temário (o tetracampeonato pretendido pelo PT na Província) ocupará estas páginas com alguma prioridade. Os leitores e eleitores da Província precisam de alguma forma de monitoramento para entender mais calibradamente o que se passa muito além de cardápios de restaurantes finos paulistanos nos quais Luiz Marinho e sua trupe de ocasião desenham algo que poderia ser chamado de instinto de preservação. Afinal, Dilma Rousseff perder aqui e também em nível nacional, o orçamento virtual de investimentos em infraestrutura da Província sofrerá duro revés. Com reflexos nas eleições municipais subsequentes.
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09/02/2026 DUAS FACES OCULTAS DA ENTREVISTA DE DIB