O prefeito Luiz Marinho tem dedicado mais tempo ao processo eleitoral do que à Administração de São Bernardo. Nada surpreendente. Jamais esse ex-sindicalista avesso ao contraditório da mídia e crítico feroz do capitalismo nacional abdicou de costurar iniciativas político-partidárias em busca de novos saltos. Agora ele está preocupado em juntar o PMDB de Paulo Skaf, candidato a governador do Estado que mais rejeita o PT, à candidatura de Dilma Rousseff, que sofre com os paulistas. É o sindicalismo de resultados capitalistas, uma junção impensável como proposta explícita até outro dia.
Sem a competitividade esperada de Alexandre Padilha, detentor de míseros 4% das intenções de voto, Luiz Marinho sabe que também o barco de muitas candidaturas petistas à Assembleia Legislativa e à Câmara Federal pode afundar. A bancada petista na Assembleia Legislativa e em Brasília pode sofrer dieta comprometedora.
A companhia eleitoral de Paulo Skaf, entretanto, seria um abraço de afogados na visão do marqueteiro Duda Mendonça, que serve ao ex-presidente da Fiesp. A emenda seria pior que o soneto. O PMDB dispõe de pesquisas que indicam o óbvio: o eleitorado do ex-presidente da casa do capitalismo paulista tem certa ojeriza ao petismo. Por mais que uma gama imensa de empresários seja contraditória no comportamento político, subordinado a interesses negociais, o empresariado paulista não morre de amores pelo PT, filho dileto do sindicalismo cutista.
É comovente ver o prefeito Luiz Marinho arrastando asas em direção a Paulo Skaf. O titular do Paço de São Bernardo, entretanto, só está expondo publicamente concertos que se fazem já há muito tempo nos bastidores. Desconfia-se até que a pregação pela união explícita seja um jogo de cena para testar os limites de fidelidade informal entre os dois partidos. O peemedebista Michel Temer, vice-presidente da República, aparece no noticiário como interlocutor mais respeitável dos supostos contrários em São Paulo. Até que ponto as versões sobre táticas e estratégias eleitorais são o que parecem ser é um grande enigma. Convém aos leitores desconfiarem sempre.
Quadro comprometedor
É verdade que nesse caso a situação do PT paulista é mesmo de lascar. O reforço do ex-presidente Lula da Silva é intenso. Tornar Dilma Rousseff vencedora e lubrificar a campanha de Alexandre Padilha de modo a não passar vergonha nas urnas a ponto de contaminar a candidatura presidencial do partido, bem como dos candidatos aos legislativos, exigirão jornada física do ex-presidente que talvez suas condições de saúde não permitam.
Perder de goleada em São Paulo na disputa pelo governo do Estado e sofrer revés numérico comprometedor na corrida presidencial seriam o pior dos mundos para o PT no projeto de seguir no Palácio do Planalto. Particularmente os 44% dos votos que o Sudeste representa no conjunto do eleitorado do País inquietam os petistas. Trabalha-se até mesmo com a perspectiva de uma derrota, desde que por placar que se distancie da catástrofe do Mineiraço.
O prestigio interpartidário de Luiz Marinho está em xeque como um dos coordenadores da campanha de Dilma Rousseff entre os paulistas. Mais ainda se a votação da presidente e do candidato do partido ao governo do Estado for abaixo dos adversários na Província do Grande ABC. Marinho está tão perturbado com as pesquisas eleitorais que vai seguir adiante no plano de cooptação de quadros políticos da Província. Já tem todos os prefeitos no bolso ao acenar com investimentos do governo federal petista nas próximas temporadas. Outros estamentos políticos e também empresariais entregam-se aos encantos do prefeito. Agora só falta combinar com os russos, ou melhor, com os eleitores.
E a tendência é de complicações. A presidente Dilma Rousseff vai mal das pernas nas regiões metropolitanas, principalmente entre os mais escolarizados e os mais ricos, cujo poder de irradiar opinião não pode ser desprezado. O tetracampeonato petista na região em disputas presidenciais está ameaçadíssimo. O PT teme que os resultados sejam tão frustrantes quanto o decantado hexacampeonato da Seleção Brasileira. Por isso todo comedimento é pouco. Não passa pela cabeça do PT regional preparar adesivos e entulhar os veículos com uma frase que lembre vagamente a expressão de arrogância que contemplou o ônibus da delegação brasileira. Tetracampeonato eleitoral na região é palavra de ordem nos bastidores, apenas nos bastidores, com objetivo motivacional da tropa.
O engraçado em tudo que leio sobre as intenções de Luiz Marinho ao procurar o suporte de um candidato de viés capitalista para aprumar a candidatura de Dilma Rousseff e de Alexandre Padilha é o que o destino reserva aos ingratos. Luiz Marinho aprovou, quando não inspirou, a construção do Museu do Trabalho e do Trabalhador em São Bernardo, ainda a ser inaugurado, excluindo o combustível do capital como elemento essencial ao desenvolvimento econômico e social. Museu do Capital e do Trabalho, nem pensar. Campanha eleitoral entre Capital e Trabalho? Tudo pensado.
Alguém que trata o mercado a pontapés porque é indispensável manter intacto o ramal de relacionamentos com sindicalistas deveria cair em descrédito ante a tentativa de flertar com um candidato que até outro dia ocupava aquela imponente torre da Avenida Paulista. Entretanto, como política abarca tudo, inclusive o impossível, Luiz Marinho se expressa sobre o assunto com a cara dura de quem estaria seguindo um projeto coerente, ético e monolítico em moralidade.
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09/02/2026 DUAS FACES OCULTAS DA ENTREVISTA DE DIB