Saiu a primeira pesquisa de peso institucional com vistas às disputas de outubro na Província do Grande ABC. Os resultados publicados pelos jornais virtuais e impressos não superam os limites do estado bruto dos números propriamente apurados. Acho que posso avançar bastante. Números foram feitos para serem debulhados, senão não passam de elementos sem alma. Ainda mais números políticos.
O que mais me chamou a atenção é que metade dos eleitores entrevistados pelo Ibope Inteligência não tem uma definição consistente sobre em quem votará para o comando do Paço Municipal de São Bernardo -- é desse território municipal que tratou a pesquisa -- e um quinto deles não pretende votar em ninguém. Ou seja, são 72% dos votos em questionamento interpretativo.
Perguntados sobre em quem votariam, 51% disseram que não sabiam, enquanto 21% pretendem votar em branco ou anular o voto. É um contingente elevadíssimo. Voto convicto o eleitor diz na lata do entrevistador. Quando titubeia, há espaço para avanços subsequentes à exploração tática e estratégica de marqueteiros de plantão. Aliás, é por conta disso e de tantas outras que existem os marqueteiros eleitorais. Alguns são fanfarrões, outros vão muito além dos números.
Quando se deixa o terreno do voto espontâneo e se invade a área do voto estimulado, cai para 29% o total de eleitores que votariam em branco ou anulariam o voto (23%) e não sabem ou não responderam (6%). Esses percentuais relacionam-se ao cenário mais provável da disputa, entre Alex Manente, Orlando Morando e Tarcísio Secoli. Manente lidera com 33%, contra 30% de Morando e apenas 8% de Secoli. Há empate técnico entre o deputado federal que representa o PSD e o deputado estadual tucano estadual Orlando Morando, porque a margem de erro é de quatro pontos. Margem dessa largura significa elasticidade de até oito pontos percentuais, para baixo e para cima. É uma banda larga demais, muitas vezes preparada para salvar a honra dos pesquisadores e também de institutos de pesquisas que publicarem balanços invejáveis em termos de acertos.
Vulnerabilidade dos números
Com base na literatura de especialistas, asseguro que há vulnerabilidade nos apontamentos do Ibope Inteligência. O universo de 72% de eleitores que integram o bloco dos pouco convictos e de desinteressados que apontei acima tem em larga escala grau de certezas muito aquém do necessário. Quando se passa para a etapa de voto estimulado, que coloca Manente e Morando em semelhante barco de viabilidade à vitória, o que encontramos é uma acentuada escolha taxa de escolhas com potencial de mudanças.
O que significa potencial de mudanças? Significa que as próximas rodadas de pesquisas poderão apontar redução do exército de eleitores sem candidatos consolidados quando o voto é espontâneo na exata proporção de queda de eleitores com candidatos vulneráveis quando o voto se tornar estimulado.
Isso quer dizer que tanto o staff de Orlando Morando quanto de Alex Manente não devem estar a soltar rojões.
Primeiro, porque somente uma margem de erro não totalmente esgotada os separa. Quando a margem de erro entra em campo, todos sabem, é melhor não cantar vitória mesmo que provisória.
Segundo, porque parte dos eleitores mais gelatinosos dos dois concorrentes mais fortes em São Bernardo pode mudar de lado diante de eventuais tropeços de peso midiático, entre outras variáveis. Quem a estas alturas do campeonato está com a pulga atrás da orelha é o petista Tarcísio Secoli. Os 8% de votos estão muito aquém do razoável que o PT deveria alcançar em outubro. Quanto mais distante de 20% -- possivelmente o teto nesta campanha em que o PT está no fundo do poço -- menos o partido terá condições de negociar algum tipo de acordo com Alex Manente ou Orlando Morando, prováveis finalistas.
Aliás, quanto maior for a dieta eleitoral de Tarcísio Secoli, maior será a probabilidade de a disputa se encerrar no primeiro turno. É bastante improvável que isso aconteça, exceto se a cúpula petista tomar a iniciativa de, na reta de chegada do primeiro turno, bandear votos deliberadamente a um dos dois favoritos, provavelmente Alex Manente. Essa iniciativa é avaliada como suicídio eleitoral que afundaria de vez a carreira do prefeito Luiz Marinho porque, além de não fazer o sucessor, seria massacrado pelos oposicionistas.
Mapeamento completo
É muito arriscado aprofundar análises ao contar somente com dados disponíveis à Imprensa. O relatório da pesquisa do Ibope Inteligência seria providencial a incursões mais sofisticadas. A repartição de votos por estratos econômicos, geográficos e educacionais permitiria atravessar sem riscos elevados a estrada de análises. Dados sistêmicos são espécies de pontes a auxiliar observações sobre o conjunto dos movimentos socioeleitorais. Dados fragmentados são mata-burros.
De qualquer maneira, como sou teimoso segundo meus opositores, ou determinadíssimo, segundo eu mesmo, prefiro mais algumas observações. Pretendia saber, ao ver os dados dos três cenários traçados, qual a influência do ex-prefeito Maurício Soares no conjunto da obra.
Maurício Soares, que pode ser vice de Orlando Morando, aparece em duas alternativas. Na primeira, ao lado de Morando, de Manente e de vasta rede de candidatos nanicos, obtém 6% dos votos, contra 25% do tucano e 28% do candidato do PSD. Num outro cenário, também desconsiderado por mim como o modelo a ser seguido, Mauricio Soares soma 7% dos votos de uma lista em que apenas Orlando Morando não aparece como concorrente.
Espólio de Maurício Soares
Vamos nos fixar no cenário em que os três principais candidatos (Manente, Morando e Secoli) dividem a lista do Ibope Inteligência, de modo a comparar a distribuição de votos destinados nos dois outros cenários a Maurício Soares. Sem o ex-prefeito de São Bernardo, Alex Manente e Orlando Morando ganham individualmente cinco pontos percentuais de votos. O petista Tarcísio Secoli ganha três pontos percentuais.
Como acredito que a maior parte do eleitorado desconhece a aproximação entre Orlando Morando e Maurício Soares, é possível que o tucano venha a contar com adicional de votos de eleitores do ex-prefeito em maior proporção em relação aos eleitores do ex-prefeito que optarem por Alex Manente ou por Tarcísio Secoli. Ou seja: o capital de potenciais 6% de votos de Maurício Soares num dos cenários em que integra a lista de candidatos, e de 7% em outro cenário, não deve ser jogado fora. Quem ficar com a maior parte entende da arte.
É preciso, entretanto, relativizar a distribuição do potencial de votos de Maurício Soares quando se observa que no cenário em que conta com 6% do eleitorado, os demais candidatos nanicos listados somam 7% -- casos de Marcelo Lima (4%), Professor Aldo Santos (3%) e Evandro de Lima (0%).
Ora, se sem os votos dos nanicos e de Maurício Soares no cenário mais importante, limitado aos três maiores concorrentes, os 13% de votos desse grupo foram automaticamente repassados, não se pode afirmar categoricamente que o processo se deu de forma aritmeticamente igualitária.
Ou seja: a tese acima de que Alex Manente e Orlando Morando cresceram cinco pontos percentuais na votação do cenário principal porque supostamente teriam tido igual quantidade de votos dos eleitores de Maurício Soares pode não ser verdadeira, porque havia outros 7% do total de votos dos candidatos nanicos a ocupar espaços distributivos em beneficio dos três concorrentes de maior peso.
Rastreamento específico
Somente um estrato da pesquisa do Ibope Inteligência que rastreie com segurança o destino dos votos de Maurício Soares daria maior margem de garantia a qualquer interpretação. É possível que os candidatos principais já tenham levado isso adiante até mesmo para prepararem artilharia construtiva ou destrutiva à integração de Maurício Soares oficialmente na chapa de Orlando Morando.
Esperava que o potencial do estoque de votos favoráveis ao ex-tri-prefeito de São Bernardo fosse mais robusto, mas quem levar a maior parcela dos 6% inicialmente apontados pelo Ibope Inteligência não pode reclamar. Muito pelo contrário, porque, ao que tudo indica, Orlando Morando e Alex Manente poderão disputar uma das eleições mais acirradas das últimas décadas em São Bernardo. E também não se deve desdenhar da premissa de que Maurício Soares em campo é diferente de Maurício Soares numa maquininha de pesquisador.
Os 6% burocraticamente registrados pelo Ibope Inteligência podem ser muito mais nas ruas. Se o ex-prefeito tem uma qualidade a ser reconhecida é a capacidade de sensibilizar eleitores quando se mete a descer e a subir ruas e avenidas do centro e da periferia.
Ainda não escalei toda a montanha de argumentos para tentar levar os dados do Ibope Inteligência muita além da numeralha apresentada pela mídia em geral. Como disse antes, em outros textos, sou um serial killer estatístico. Não posso botar os olhos sobre resultados publicados que viro um Jack Estripador.
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09/02/2026 DUAS FACES OCULTAS DA ENTREVISTA DE DIB