O planejamento de ações de desenvolvimento econômico para além dos limites geográficos dos municípios é uma das recomendações do vice-presidente da A. T. Kearney, George Freund. O executivo graduado em ciência da informação no Reino Unido utiliza a experiência de duas décadas em consultoria corporativa para garantir que incentivos fiscais não estão mais no topo dos fatores que atraem investimentos privados. Mas não deixa de destacar a importância do papel prospectivo dos gestores públicos na indução do crescimento ao lembrar que o grande desafio de governantes e urbanistas em todo o mundo é reverter o quadro de deterioração das áreas metropolitanas.
George Freund é um dos responsáveis pelo projeto de industrialização da zona leste encomendado pela Prefeitura de São Paulo. Formatado para induzir o desenvolvimento econômico do entorno da avenida Jacu-Pêssego -- que tem planos de ser estendida de um lado até o Grande ABC e de outro até Guarulhos -- , o estudo acendeu o sinal de alerta no Grande ABC depois que a newsletter Capital Social Online advertiu que mais indústrias poderiam deixar a região atraídas por condições favoráveis na vizinha Capital. Até então, autoridades da região festejavam o viário Jacu-Pêssego apenas sob o aspecto logístico, sem fazer avaliação mais profunda sobre o ecossistema. O conceito de ecossistema é utilizado pelo próprio Freund para definir as cadeias produtivas e todos os agentes capazes de interagir com o processo de produção. Se depender do executivo e da A. T. Kearney, o desenvolvimento da zona leste trará impacto positivo para o Grande ABC, desde que a região saiba planejar seu próximo ciclo produtivo.
A A.T. Kearney está presente no Brasil há 10 anos e tem se especializado em ajudar o setor público a traçar planos de desenvolvimento econômico e setorial. Muitos desses trabalhos têm a parceria do Global Business Policy Council, entidade do mesmo grupo dedicada exclusivamente a temas de desenvolvimento global e regional. A carteira de clientes da A. T. Kearney no Brasil reúne BNDES, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e Petrobras, além do governo do Estado de São Paulo e Prefeitura de São Paulo. A empresa está presente em 60 países e trabalha para os governos do México, Porto Rico, Reino Unido e Shangai.
O mapeamento industrial que a A.T. Kearney produziu para a zona leste de São Paulo não indica empresas de logística, apesar da expansão estar induzida pelo prolongamento da Avenida Jacu-Pêssego entre o Grande ABC e Guarulhos. A justificativa é de que o setor não foi escolhido justamente para evitar concorrência predatória com a zona oeste de São Paulo e Guarulhos, onde essa atividade está consolidada. Essa recomendação demonstra mudança de postura na orientação do desenvolvimento econômico, depois do canibalismo praticado por municípios e Estados para atrair empresas com guerra fiscal e incentivos de todas as espécies?
George Freund -- O desenvolvimento de uma região dificilmente pode ser limitado pelas fronteiras geográficas, já que as áreas de influência de investimentos em infra-estrutura e atividades econômicas ultrapassam esses limites. É inconcebível planejar o desenvolvimento da zona leste de São Paulo sem considerar o impacto nas outras regiões de São Paulo e principalmente em vizinhos como Guarulhos, Poá, Ferraz de Vasconcelos e Grande ABC. Mais que considerar o impacto, o estudo da A.T. Kearney leva em conta com as características econômicas e sociais de toda a Região Metropolitana de São Paulo. É uma metodologia que analisa o ecossistema de forma ampliada e permite definir e evitar possíveis conflitos de interesses entre municípios. A possibilidade de uma guerra fiscal entre os municípios da Região Metropolitana certamente seria prejudicial a todos.
Ao falar em ecossistemas, o senhor se refere à cadeia produtiva e aos agentes que interagem em todas as etapas da produção?
George Freund -- O conceito de ecossistemas é realmente mais abrangente porque envolve as relações tanto dos componentes da própria cadeia quanto a interação dos agentes públicos e privados em todo o processo.
Existe consenso entre especialistas de que a cidade de São Paulo teve o perfil econômico alterado nas últimas décadas. Saíram empresas intensivas em mão-de-obra e chegaram empresas intensivas em capital, o que derrubou os empregos industriais em 48% entre 1985 e 2002, segundo dados do Ministério do Trabalho. A indicação dos setores têxteis e de bens de capital para povoar industrialmente a zona leste, significa tentativa de reverter um quadro que produziu uma legião de excluídos do mercado formal de trabalho?
George Freund -- Foram vários os critérios adotados para identificação dos setores prioritários para investimentos na cidade de São Paulo, entre os quais a geração de empregos. Também foram levados em conta o tamanho e o potencial de crescimento desses setores no Brasil e no mundo, compatibilidade com as prioridades definidas pelo governo federal, impactos na balança de pagamentos, conteúdo de conhecimento tecnológico e adequação ao Plano Diretor de São Paulo, além da vocação da região e do entorno. Os critérios foram adotados em função dos objetivos definidos pela Prefeitura e espera-se que, além da atração e fixação de novos investimentos, consiga-se também a retenção e expansão das empresas já sediadas na região.
A A.T. Kearney concluiu também que as cadeias produtivas de bens de capital e têxtil seriam adequadas para povoar o entorno da nova Jacu-Pêssego por se encontrarem em expansão no mundo. Que outras atividades hoje, também pródigas em absorver o perfil do trabalhador desempregado nas áreas metropolitanas, poderiam ser desenvolvidas na Grande São Paulo. E por que a zona leste paulistana é ideal para abrigar empresas desses dois segmentos?
George Freund -- A A.T. Kearney analisou dezenas de ecossistemas e cadeias produtivas. A Região Metropolitana de São Paulo tem possibilidades de desenvolver vários ecossistemas e os três escolhidos para a zona leste (têxtil, máquinas-ferramenta e turbinas a gás) atendem aos critérios já mencionados e podem florescer no local. Vários outros ecossistemas foram analisados e poderão desenvolver-se em outras partes da Região Metropolitana, desde que adequadamente estimulados. É prematuro tirar conclusões definitivas, mas os setores de call center, químico-farmacêutico e logística podem perfeitamente integrar o plano futuro de desenvolvimento e revitalização da Grande São Paulo.
A síntese da pesquisa que a A.T. Kearney preparou para a Prefeitura paulistana observa que as cadeias produtivas sugeridas para a zona leste podem estar ou não conectadas às do Grande ABC e Guarulhos. A recomendação pode ser entendida como sinal de alerta para que os municípios vizinhos atentem para projetos conjuntos de desenvolvimento, conforme alertou Capital Social Online?
Goerge Freund -- A A.T. Kearney avalia sempre toda a região de influência para os investimentos a serem feitos. É obvio que a Jacu-Pessego, uma vez concluída entre Guarulhos e o Grande ABC, será a mais importante ligação norte-sul desses municípios da Região Metropolitana. Dentro desse contexto, o potencial para impulsionar atividades econômicas é enorme, principalmente para atividades que podem e precisam beneficiar-se da proximidade com o Aeroporto de Guarulhos e o Porto de Santos.
A Grande São Paulo e principalmente o Grande ABC perdem pujança econômica para áreas menos habitadas, mas continuam a concentrar a maior densidade demográfica do País e precisam encontrar alternativas de crescimento. Essas áreas adensadas e duramente atingidas pela exclusão social têm atrativos para investidores?
George Freund -- A única maneira de desenvolver uma região é atrair investimentos industriais, comerciais, de serviços e lazer que possam gerar empregos, renda e melhores condições de vida para a população. Uma região como a zona leste, estrategicamente localizada no centro geográfico da Região Metropolitana de São Paulo, oferece aos investidores mão-de-obra de todos os níveis de qualificação, acesso fácil ao maior mercado consumidor do Brasil e aos principais portos de entrada e saída do País, além de áreas com boa infra-estrutura física e bom potencial de valorização.
Sob esse ângulo, o papel prospectivo do poder público é fundamental para reverter o quadro de perdas econômicas e empobrecimento da população?
George Freund -- O poder público deve criar condições básicas para o desenvolvimento. Deve tornar a região atrativa por meio de investimento na infra-estrutura urbana e social, que auxiliam na atração e principalmente permanência de atividades econômicas de todos os tipos. Evitar e reverter a deterioração das grandes metrópoles é o grande desafio deste século para governantes e urbanistas em todo o mundo. Por meio de acordo com os governos estadual e federal, o Município de São Paulo, por exemplo, pode oferecer incentivos fiscais que tornem ainda mais atrativo o investimento na cidade.
Mas estaríamos falando novamente em guerra fiscal?
George Freund -- Os principais quesitos para atração de investimentos estão em geral relacionados à atividade-fim do negócio. Contam infra-estrutura, recursos humanos, leis regulatórias e outros fatores. Atendidas essas condições básicas, incentivos como isenção de impostos, redução de alíquotas e outros podem ser o diferencial entre a escolha de uma região ou país. Mas apenas incentivos são insuficientes para atração de investimentos significativos e de longo prazo. Podem, sim, atrair uma empresa ou outra, mas dificilmente terão sustentabilidade no longo prazo se os quesitos básicos não forem atendidos.
Muitos Estados e cidades do Interior seduziram empresas com guerra fiscal e incentivos de todas as espécies, num verdadeiro leilão em busca de investimentos. Até que ponto a A.T. Kearney leva em consideração impostos municipais, custo de mão-de-obra local e qualidade de vida para indicar locais a futuros empreendedores?
George Freund -- O trabalho específico para a Prefeitura de São Paulo recomenda a melhor estratégia de desenvolvimento para uma região pré-determinada, adotando série de critérios técnicos, econômicos e sociais. Incentivos fiscais, sempre que adotados com critério e de forma planejada e coordenada, podem ajudar a decisão final de atrair ou reter um determinado tipo de investimento para o Brasil. Conhecemos bem os critérios que levam a uma decisão de localização de investimentos em várias indústrias e podemos afirmar, sem medo de errar, que para investimentos de longo prazo o critério de benefícios fiscais não está entre os primeiros. Se não forem criadas condições para desenvolver o ecossistema de uma região, os incentivos fiscais dificilmente levarão ao desenvolvimento sustentado. Nosso propósito sempre foi o de buscar o desenvolvimento sustentado e não o de atrair investimentos fugazes para a região.
E qual o peso dos fatores logística e facilidade operacional nas recomendações de localização dos investimentos?
George Freund -- A importância dos fatores de atração de investimentos varia de indústria para indústria. As questões logísticas e operacionais, no entanto, sempre aparecem no topo da lista, especialmente para setores que envolvem importação ou exportação. Dependendo da atividade, fatores como disponibilidade de mão-de-obra, estabilidade política e econômica, além de clareza do ambiente regulatório, também têm importância muito grande.
Recentemente o sociólogo francês Alan Touraine disse que o governo federal brasileiro deveria prestar mais atenção às áreas urbanas do que à reforma agrária porque 80% da população do País vive nas cidades. A observação tem ligação direta com a ausência de políticas públicas que criou o cinturão de exclusão espalhado pelas áreas urbanas. Como o senhor analisa esse contexto?
George Freund -- Repito que as grandes metrópoles são realmente um grande desafio não só para o governo, mas para as organizações da sociedade. As grandes metrópoles, que em épocas de crescimento econômico são um pólo de atração, em momentos de menor ou nenhum crescimento ampliam os problemas causados pelo desemprego e pela sobrecarga da infra-estrutura urbana. Creio que o governo federal brasileiro já está voltando as atenções para os problemas das grandes metrópoles, mas qualquer solução passa obrigatoriamente por ações conjuntas de todas as instâncias de governo e da sociedade. Não podemos e não devemos esperar que o governo sozinho resolva todos os problemas das grandes metrópoles. Contudo, não há dúvida sobre o papel de liderança do gestor público na catalisação das demandas da sociedade e na indução do desenvolvimento regional.
O Grande ABC foi uma das regiões que mais sofreu com o processo de desindustrialização e perdeu 39% do Valor Adicionado nos últimos oito anos, além de 100 mil empregos industriais na década de 90. Durante algum tempo, propagandeou-se que o setor de serviços -- sobretudo a chegada das grandes redes de varejo -- iria compensar esse rombo, o que obviamente não ocorreu. Como a A.T. Kearney atua nos principais mercados mundiais, o senhor conhece alguma região altamente industrializada que conseguiu reconverter-se economicamente para o setor terciário sem amargar queda nas receitas e na qualidade de vida?
George Freund -- A migração da economia para o setor terciário está se verificando em várias regiões do mundo, mas não é um efeito de curto prazo e nem sempre decorrência automática de redução da atividade industrial. Assim como a indústria, também o setor de serviços requer planejamento e condições favoráveis para se desenvolver. É imprescindível um plano para organizar e fomentar o desenvolvimento. Políticas públicas podem direcionar e resultar destes planos, como o que São Paulo está desenvolvendo para a região leste do Município. O Grande ABC, por exemplo, pode sofrer impacto positivo do desenvolvimento econômico da zona leste de São Paulo. Mas deverá, sem dúvida, planejar seu próximo ciclo de desenvolvimento, considerando tanto o setor industrial quanto o terciário sempre em sincronia com os outros municípios da Região Metropolitana.
O senhor arriscaria um palpite de como poderia ser esse planejamento?
George Freund -- É prematuro opinar sobre um planejamento para o Grande ABC neste momento. As informações de que disponho não permitem tirar conclusões a respeito.
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02/12/2025 CARLOS FERREIRA E O PODER EXECUTIVO