Menino de ouro do prefeito Celso Daniel, cantado em verso e prosa como natural sucessor no Paço Municipal, mas atropelado pelo imponderável da morte daquele que seria um dos homens mais importantes do primeiro mandato do governo Lula da Silva, Klinger Sousa concedeu entrevista ao jornal digital ABCD Maior no último dia 24. Valem a pena algumas observações.
O trabalho jornalístico comporta restrição ao título “Klinger avalia herança de Celso Daniel”. O legado do petista é tão vasto que não pode ser resumido a algumas questões. Mas isso é observação sem importância. Apenas pentelhação.
O substancial é que fiquei intrigadíssimo com as respostas de Klinger Sousa: como é possível passar o tempo todo sem ao menos resvalar na administração de Aidan Ravin?
É possível que um petista supostamente de carteirinha, um ex-secretário de Serviços Municipais que, quando do assassinato de Celso Daniel, já atuava como supersecretário, ignore os 12 meses do sucessor do PT na Prefeitura de Santo André?
Estaria Klinger Sousa desconsiderando o governo Aidan Ravin ou o avalia relevante a incursões pessoais e profissionais que achou melhor poupá-lo?
Repetindo: como pode um ex-agente público combativo e criativo passar o tempo todo sem ao menos fazer qualquer observação sobre Aidan Ravin, a ponto de não pronunciar o nome do prefeito de Santo André uma vez sequer?
Pode alegar que um ano é muito pouco para um novo prefeito, no que concordo, mas um ano é muito tempo quando se trata de analisar algo tão importante como o Eixo Tamanduatehy, lançado há mais de uma década.
Estaria Klinger Sousa mais próximo do petebista do que se possa imaginar?
Mais pesa a perplexidade à omissão de Klinger Sousa quando se constata que a engrenagem sobre o qual girou a bateria de perguntas do repórter Júlio Gardesani é o projeto Eixo Tamanduatehy, definido pelo ex-secretário como “a maior intervenção urbanística no Brasil”.
Esse, caro Klinger Sousa, foi o grande equívoco do Eixo Tamanduatehy, sem dúvida uma extraordinária prova do visionarismo de Celso Daniel. Equívoco por quê? Porque enfatizou muito mais aspectos arquitetônicos do que econômicos, num momento em que o Grande ABC passava por maus bocados.
Quero crer que arquitetos de nomeada nacional e internacional contratados para desenhar aquele pedaço de uma Santo André ultramoderna não compreenderam as reais intenções de Celso Daniel. Seria ingenuidade demais acreditar que Celso Daniel tão inquieto com o futuro do Grande ABC tenha consolidado um conceito em que a beleza plástica e a funcionalidade arquitetônica do Eixo Tamanduatehy suplantassem a racionalidade econômica?
O tempo todo o Eixo Tamanduatehy foi propagado em ação de marketing como tesouro arquitetônico, subestimando os valores desenvolvimentistas. Fiz observações neste tom já naquela oportunidade.
Ao descarregar o caminhão de melancia de responsabilidade do fracasso do Eixo Tamanduatehy na administração do petista João Avamileno, Klinger Sousa repassa apreciação biliar. Tem razão o ex-secretário sobre o rebaixamento da qualidade técnica e intelectual do secretariado que João Avamileno remontou após a morte de Celso Daniel e, principalmente, após as prévias eleitorais de 2008, mas nem se o ex-metalúrgico fosse mágico conseguiria levar adiante a grandiosidade prevista por Celso Daniel. Apenas Celso Daniel e seu grupo conseguiriam executar parte daquele sonho em forma de projeto. Sem a liderança de Celso Daniel, até as porções mais pragmáticas do Eixo Tamanduatehy viraram pó.
Devemos todos estar conscientes de que, salvo fenômeno econômico que nos últimos 20 anos não ousou aparecer no Grande ABC, nada indica que ocorrerá qualquer coisa que se assemelhe revolucionário no uso e ocupação do solo com fortes influências desenvolvimentistas. Por isso, forçar a barra em cima de João Avamileno é excesso do ex-secretário. O afrouxamento da gestão petista em Santo André seguiu o curso natural da vida depois da singularidade de Celso Daniel esvair-se. Aliás, a estatura da gestão de João Avamileno não diferiu da dos antecessores de Celso Daniel, que projetava uma Santo André dos próximos 20 anos, pelo menos. Os demais se satisfaziam com o aqui e agora.
Já com Aidan Ravin o petista Klinger Sousa foi generosíssimo, poupando-o nominalmente de lamentações, mesmo quando critica a precariedade de preservação do Parque Celso Daniel, os estragos nos corredores verdes, os reparos na área de educação. Dá-se a impressão que João Avamileno segue prefeito de Santo André.
Quando indagado sobre a retomada do projeto Eixo Tamanduatey, Klinger Sousa simplifica. Afirma que a proposta pode sim ser retomada, mas sobre outras diretrizes, “pois não tem mais sentido pensar o projeto como ele havia sido concebido”.
É verdade que uma década pode comprometer a concepção central da proposta, até porque, como já disse, os vetores urbanísticos desconectaram-se da viabilidade de investimentos entre outras razões porque o Grande ABC vivia situação de fundas perdas econômicas. Entretanto, esperava de Klinger Sousa, uma boa cabeça pública, resposta mais prospectiva. Talvez não pretendesse dar consultoria gratuita à administração de Aidan Ravin.
Já que não o fez, faço eu: o Eixo Tamanduatehy com as adaptações providenciais ditadas pelos novos tempos de dinheiro farto no mercado nacional, poderia ser reformulado para pegar carona no afluxo que o trecho sul do Rodoanel vai proporcionar alguns quilômetros à frente, na área central de Mauá, um dos três pontos de saída e entrada dessa serpentina viária que promete mudanças radicais na mobilidade urbana da metrópole.
Quem acredita, entretanto, que o prefeito Aidan Ravin ressuscitará o Eixo Tamanduatehy ou batizará algo semelhante com outra logomarca para fugir do espectro petista e de Celso Daniel?
Quem acreditar estará cometendo grandiosíssimo engano porque, infelizmente, Aidan Ravin não reúne agrupamento técnico para desenhar uma nova Santo André econômica e social numa área geográfica degradada, sub-valorizada e, agora muito mais que quando da concepção do Eixo Tamanduatehy, potencializada para atrair investimentos em moradias, fábricas limpas, comércios e serviços de qualidade. A Jacú-Pêssego, prolongamento do trecho sul do Rodoanel em direção à Zona Leste de São Paulo, fortalece essa projeção. Tudo porque somaria aquela área de três milhões de habitantes ao potencial natural disponível do chamado lado de cá da Avenida dos Estados.
Com toda a liberdade que me permite dialogar à distância com Klinger Sousa, a entrevista ao jornal ABCD Maior deixou uma enorme interrogação. Poupar Aidan Ravin ou qualquer um que fosse o substituto de João Avamileno num questionamento que trata da herança de Celso Daniel ganha a forma de um buraco negro incompreensível ou lamentavelmente compreensível.
Já sobre a gestão de Luiz Marinho, que encerra a entrevista, Klinger Sousa foi telegráfico e cauteloso, distribuindo comedidos elogios ao chefe do Executivo de São Bernardo e a seus secretários, além de projetar com certa desconfiança o futuro do menino dos olhos de Lula da Silva. Ou estaria equivocado este jornalista ao interpretar a seguinte frase (”Ele tem todas as condições de pensar a região com uma perspectiva propostiva para retomarmos este brilho que o governo de Celso Daniel tinha. Ainda não vi isso acontecer, mas é uma perspectiva, devido a pessoa do Marinho e às pessoas que trabalham na Administração de São Bernardo”) como algo que parece mais diplomático do que enfático?
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26/01/2026 VEJA A SELEÇÃO DO PREFEITO PERFEITO