Atenção senhores políticos ou candidatos a: pelo menos 70% dos eleitores brasileiros já pertencem aos chamados redutos racionais, onde o voto deixa o coração para subir à cabeça, nas palavras de um especialista no assunto, Gaudêncio Torquato, consultor de Marketing Institucional e Político. Em linguagem bem simples, isso quer dizer que a população está se deixando levar menos por discursos e fazendo mais pressão por ações práticas, sobretudo por serviços mais próximos do cotidiano, como escola, transporte e segurança. Esse universo da micropolítica, como chama o professor da USP (Universidade de São Paulo), se dá basicamente na municipalidade, portanto, junto a prefeitos e vereadores. "O eleitorado está olhando muito para o fisiologismo. Prefeitos e vereadores têm de tomar cuidado" -- avisa Gaudêncio Torquato com a autoridade de quem já planejou e coordenou desde campanhas para a Presidência da República, em 1989, e para o governo do Estado de São Paulo, em 1992, até para mais de 20 prefeituras de diversos Estados.
O consultor é otimista ao afirmar que político ineficaz não elege mais o sucessor nos centros mais desenvolvidos do País e que vem aí uma fornada de líderes modernos. Eles estariam mais embasados no que chama de discurso de compromisso, até por força de uma sociedade mais exigente e participativa, embora ache que grandes compromissos sociais, mesmo, só daqui uns 30 anos. Os caciques estão saindo de cena aos poucos, acredita. No Grande ABC Gaudêncio Torquato assessorou o prefeito Maurício Soares, em São Bernardo, entre 1998 e 1999. A integração regional sofrerá certo atraso com a morte de Celso Daniel, de Santo André, segundo Gaudêncio, que ressalva: "Creio que as idéias e os planos, quando bem concebidos, não morrem".
Não há convicção exagerada na sua tese de que político ineficaz não mais se reelege e não faz mais o sucessor? Como explicar o estouro de Roseana Sarney nas intenções de votos à Presidência da República sendo ela membro de uma família que domina há mais de três décadas o Estado mais miserável e atrasado do País, para citar um fato recente?
Gaudêncio Torquato -- Político ineficaz não faz o sucessor em centros mais desenvolvidos. Mas há regiões que ainda convivem com a cultura política tradicional e suas mazelas: o mandonismo, o fisiologismo, o caciquismo, o clientelismo, o compadrismo. O eleitor brasileiro está mais consciente e começa a votar de maneira mais tradicional. O voto deixa o coração para subir à cabeça. Dos 115 milhões de eleitores, cerca de 70% já pertencem aos redutos racionais. A herança do passado, porém, ainda é forte em certos núcleos do Nordeste, Norte, Centro e Centro-Oeste. Veja o caso de Tocantins, onde os Siqueiras querem entronizar no poder mais herdeiros da casta.
Roseana, mesmo com o sobrenome Sarney, passa idéia de modernidade. O fato de ser mulher a ajuda, porque a mulher não está tão comprometida com a onda de escândalos e denúncias por que passa o País. Ademais, ela tem se aproveitado bem da mídia televisiva: é bonita e jovem. Trata-se, portanto, de um fenômeno de marketing televisivo. Poderá cair se não exibir discurso, conteúdo, um ideário que chegue a cooptar o interesse dos eleitores. O Maranhão foi cosmetizado. Os dados de pobreza do Estado têm sido pouco divulgados. Roseana, contudo, tem feito boa administração. Não se deve esquecer, ainda, o fato de que ela conta com forte apoio do Nordeste, que soma cerca de 27% dos votos. Essa é a moldura que cerca a candidatura Roseana Sarney.
O senhor se mostra bastante persuadido sobre a mudança, também, da figura do vereador, que estaria, a seu ver, mais consciente sobre o papel combativo e fiscalizador que lhe cabe. Várias cidades, incluindo a Capital, só conseguiram aprovar o polêmico IPTU progressivo de 2002 com negociações de cargos e favores junto a vereadores opositores e mesmo da base aliada. Não lhe parece que o fisiologismo histórico continua predominante em grandes e sobretudo pequenos municípios?
Gaudêncio Torquato -- Sem dúvida, o fisiologismo é uma doença que corrói o tecido político a partir do primeiro pilar desse edifício, que é o Município. Tenho constatado que o nível de conscientização e responsabilidade política é mais elevado nos graus superiores da representação, abrangendo deputados federais, senadores etc. Depois, aparecem as instâncias legislativas nas Assembléias estaduais, vindo, por último, as Câmaras de Vereadores. Por isso mesmo em Câmaras de grandes metrópoles, a onda fisiológica se faz presente. O vereador é espécie de despachante municipal; precisa de estrutura de poder para ajudar e dar assistência a seu eleitorado. Há contingentes periféricos que vivem em grande miséria. Pedem assistencialismo. E o vereador acaba assumindo posicionamento fisiológico que ultrapassa a força partidária. Isto é, até os partidos considerados éticos ou que desfraldam a bandeira ética agem de maneira fisiológica quando a esfera é a da Câmara Municipal. Na Capital, o IPTU progressivo foi uma conquista do fisiologismo praticado pela prefeita Marta Suplicy, do PT.
Que perfil o senhor vislumbra para o prefeito moderno?
Gaudêncio Torquato -- O conceito de modernidade na política abriga um conjunto de valores, entre os quais destaco honestidade pessoal e assepsia política, ou seja, a distância das práticas corruptas; a experiência, o preparo, a capacidade; além da visão de conjunto. Também são importantes a capacidade para controlar a máquina administrativa, vida limpa e passado decente, e um programa de trabalho fincado sobre as reais demandas da população. Completam esse círculo virtuoso a lealdade partidária, firmeza e atuação forte em todos campos da administração, entre outros fatores.
E como forjar lideranças com essas qualidades num País ainda fortemente dominado por clãs e caciques, a ponto de todas as pesquisas indicarem que Antonio Carlos Magalhães voltará pelos braços da Bahia?
Gaudêncio Torquato -- Forjar uma liderança moderna é desafio complexo, que passa pelas virtudes pessoais e profissionais dos quadros e vai até os compromissos assumidos por eles. Os perfis mais aceitos pelo eleitorado são aqueles que se despojam das riquezas, que se afastam das redes de corrupção. São aqueles políticos fiéis aos compromissos partidários, os mais éticos, os mais honestos. Ora, essas virtudes não se adquirem na escola, a não ser na escola da vida. O que se observa é o crescimento desse tipo de perfil.
O cacique, do tipo ACM, está saindo de cena. Não ele, propriamente, porque será mais uma vez consagrado na Bahia. Há de se considerar sua trajetória naquele Estado, onde é uma espécie de imperador, de semideus, de um santo babalorixá. Se quisermos apurar a visão, devemos medir a força de um cacique em sua região, porque esse tipo de perfil é, geralmente, proprietário de meios de comunicação, domina as máquinas administrativas e perpetua-se no poder por meio de novos coronéis, seus filhos e netos, os herdeiros. A política brasileira está mudando, mas a política de grandes compromissos sociais, com a renovação mais geral de quadros, é coisa para 30 anos.
À parte o grau de violência que o País atingiu, o assassinato do prefeito de Santo André, Celso Daniel, trouxe a debate a eficiência do poder público. Celso Daniel era unanimidade sobre ser um prefeito com mais visão administrativa e noção de planejamento estratégico, um exemplar de administração contemporânea que enfatizava, inclusive, a integração regional para justamente potencializar as forças individuais de cidades vizinhas. Pelo seu conhecimento sobre o Grande ABC, o que acontecerá ao Município e ao projeto integracionista da região com a morte do principal incentivador?
Gaudêncio Torquato -- É claro que o desaparecimento de Celso Daniel provocará certo atraso no calendário dos ciclos de reforma. Jamais um sucessor terá o mesmo perfil do antecessor. O sucessor poderá até ser mais moderno, mais agressivo. Talvez não seja o caso do sucessor de Celso, em Santo André. Ele estava comprometido com a coordenação do programa de governo de Lula e muitas de suas idéias e sentimentos iriam banhar a moldura programática da candidatura petista. Tratava-se de uma pessoa com grande noção de planejamento, coordenação, controle, conceitos-chave para um bom administrador.
Será possível, porém, que a nova administração queira implantar o legado de Celso Daniel. Basta que esse legado seja permanentemente lembrado e cobrado pelos meios de comunicação, que agitam e energizam a opinião pública. Creio que as idéias e os planos, quando bem concebidos, não morrem. Podem hibernar por um tempo. Mas voltam com a força da criatividade e da fortaleza conceitual com que foram concebidos.
Pelo comportamento padrão dos políticos brasileiros, Celso Daniel parece integrar um grupo de exceções. De modo muito tímido se espalha pelas esferas de poder no Brasil o conceito do gerente de cidade, que busca eficiência e qualidade total em serviços públicos -- como Vicente Fox vem fazendo no México e exigindo dos prefeitos mexicanos, pois entende que a base de todas as inovações públicas deve partir das cidades. É possível mexicanizar o Brasil e diminuir o grau de populismo e de prefeitos reduzidos a coisas miúdas da política brasileira, ou o senhor acha que devagarinho está surgindo uma nova geração de administradores públicos?
Gaudêncio Torquato -- Percebo que um dos maiores fenômenos do Brasil contemporâneo é a organicidade social, ou seja, a capacidade de a sociedade organizar-se, criar entidades, fazer pressão, contrapressão, ir às ruas, denunciar, exigir das autoridades mais ação e menos discurso. Percebo, ainda, que esse conjunto de pressões se projeta para as demandas mais próximas e imediatas dos cidadãos, o que chamo de micropolítica, a política das coisas do cotidiano: a escola próxima de casa, o transporte fácil e barato, o alimento farto e acessível, a segurança sólida. Os cidadãos desejam, cada vez mais, agir de maneira pragmática, defendendo seus interesses mais urgentes. E urgência está em torno de sua família, de sua casa. Portanto, expande-se o ideário da construção de uma Nação para já, e não a Nação para os netos e bisnetos.
Tudo isso demanda maior eficiência e eficácia dos governos, a partir da municipalidade. Ora, onde estão as maiores demandas dos cidadãos? No território que os abriga; portanto, na localidade, em seu território, que é o seu bairro, a sua cidade. Essas demandas, por sua vez, estão a exigir mais ações imediatas, mais inovações, maior alavancagem dos programas municipais. A ordem política começa com a ordem municipal. Ou seja, as mudanças devem ocorrer de baixo para cima, do Município para as esferas superiores. Por isso, vereadores e prefeitos passarão a ser mais cobrados doravante. O eleitorado está olhando muito para o seu fisiologismo. Eles têm de tomar cuidado.
Essa nova geração de administradores contém nomes novos ou são herdeiros de políticos tradicionais que assumem novas posturas?
Gaudêncio Torquato -- Há novos nomes comprometidos com um ideário de compromissos sociais. A Câmara Federal tem muitos deles, mas dispenso-me de citar nomes para não cometer injustiças. Percebemos, porém, que entre os herdeiros políticos, que carregam sobrenomes e a tradição da velha política, há alguns que possuem identidade própria. A própria Roseana Sarney, sabe-se, é muito diferente do pai. Artur Vigílio, deputado pela Amazônia, é impetuoso e incorpora certa modernidade. Sérgio Machado, empresário e senador pelo Ceará, é bastante diferente do pai, o ex-ministro da Viação e Obras Públicas de João Goulart e ex-deputado Expedito Machado.
Em muitos Estados, podemos distinguir posturas novas, embasadas no discurso de compromissos. São políticos com bagagem intelectual formados em batentes acadêmicas, são profissionais liberais saídos de suas organizações de classe, são professores vindos dos bancos acadêmicos. As novas posturas são consequência das exigências de uma sociedade mais consciente de seus direitos, mais participativa e mais cidadã.
Em que medida a Lei de Responsabilidade Fiscal vai começar a moralizar a gestão pública, já que a resposta dos prefeitos aos menores repasses da União e aos limites para endividamentos e gastos foi um brutal aumento nos impostos municipais? Ou seja, acharam outra fonte de arrecadação. O senhor acha que a maioria está realmente preparada para uma gestão austera e transparente ou vai continuar jogando para a platéia com grandes (e desnecessárias) obras e ações?
Gaudêncio Torquato -- Sem dúvida, a Lei de Responsabilidade Fiscal é um instrumento de moralização da administração pública. Impõe limites de gastos e delimita responsabilidades. É claro que muitos prefeitos assumiram heranças pesadas de administrações corruptas e fraudulentas. Por isso, procuram mecanismos de compensação e aumento de receitas. Mas a regra geral é de observância dos preceitos da Lei de Responsabilidade Fiscal.
Aumentos de impostos não são mais toleráveis pela população. Se o governante encontra nesse meio a única alternativa para viabilizar sua administração, terá vida curta, pois o eleitorado, mais adiante, vai dar o troco, vetando suas pretensões de reeleição. É bom repetir: a sociedade está atenta. E age com muita força no momento adequado, pois possui a maior arma contra um político: o voto.
E a população, estaria preparada para exercitar o que as esquerdas chamam de controle social do Estado, a partir do estímulo que a LRF dá à prática do orçamento participativo e de audiências públicas na elaboração de leis orçamentárias? Não lhe parece que a montanha de ações voluntárias e de ONGs surgidas nos últimos anos seja uma demonstração do descrédito da sociedade nos governantes?
Gaudêncio Torquato -- Duas observações se fazem necessárias. Primeiro: a sociedade se organiza por meio de entidades representativas de interesses de grupos, o que é absolutamente legítimo. Segundo: as organizações não-governamentais constituem, sim, um instrumento de pressão e força da sociedade e, ainda, uma espécie de contraponto à mesmice da política. As práticas de orçamento participativo são aperfeiçoadas quando contam com o efetivo engajamento das representações sociais, ou seja, as entidades intermediárias. Nesse sentido, tem mais força e legitimidade a vontade da entidade do que de pessoas, isoladamente. O buraco criado no meio da sociedade pela descrença e decepção com os políticos adensa a força do universo organizativo. Trata-se de uma maneira de a população procurar outro tipo de intermediação.
Até que ponto a explosão das metrópoles -- que dá ao Brasil o status único de ter 81% da população morando nas cidades -- ajuda ou atrapalha a boa gestão pública? Atrapalhar no sentido de dar conta da avalanche de demandas sociais e impedir a intensa participação de todos, como ocorre em pequenas comunidades européias. Ajudar no sentido de estarem nos grandes centros os segmentos privilegiados da população com capacidade para fiscalizar, vocalizar e pressionar os prefeitos.
Gaudêncio Torquato -- A explosão das cidades, com seu consequente fenômeno da conurbação, é fator de complexidade para as administrações na medida em que as demandas sociais se expandem de forma geométrica, enquanto as ações e os recursos financeiros aumentam de maneira apenas aritmética. O gigantismo urbano traz como consequências a proliferação das mazelas, dentre as quais podemos distinguir as ondas de violência, a deterioração dos equipamentos urbanos e a competição entre grupos marginais, com todas as sequelas que se apresentam nas metrópoles. Para dar um dado: apenas 10% das estruturas urbanas do País contam com serviços completos de saneamento básico, o que denota que o Brasil navega, literalmente, sobre um mar de lama.
A solução, sabe-se, está na desconcentração, na descentralização dos serviços, o que resultaria em melhor atendimento, mais atenção, mais sentido de prioridade e mais acolhimento às necessidades dos grupamentos humanos. Infelizmente, no Brasil, as grandes cidades funcionam como chamarizes para as populações mais jovens, que nelas vêem melhores condições profissionais. Os meios de comunicação, particularmente a TV, vendem o glamour das grandes cidades, colaborando para a criação de efeitos miméticos -- de imitação -- das culturas urbanas.
Precisamos desconcentrar o País, abrir as possibilidades de cada região, mostrar como o Interior oferece boas perspectivas de desenvolvimento e progresso. Trata-se de um processo de aculturação com o qual todos nós, formadores de opinião, estamos comprometidos.
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02/12/2025 CARLOS FERREIRA E O PODER EXECUTIVO