Caso Celso Daniel

Múltipla derrota
dos especuladores

DANIEL LIMA - 05/03/2002

Tomara que o PT, o governo do Estado, o governo federal e parte da comunidade tenham aprendido muito com o caso Celso Daniel. Sem se dar conta da ambição oportunista, da inquietação eleitoral, do puro excesso de imaginação e da especulação à sombra da mídia rocambolesca e espetaculosa, respectivamente todos esses protagonistas suplementares do sequestro e assassinato do prefeito de Santo André patrocinaram paranóias que se tornariam imbatíveis não fosse a elucidação do caso -- enfim, mais um violento crime urbano promovido por numerosa quadrilha que elegeu um menor de idade para assumir os tiros no então prefeito.

Construíram-se tantos cenários a partir do momento da global e ibopeana notícia do sequestro que somente o empenho posteriormente sério, discreto e eficiente da Polícia Civil e da Polícia Federal conseguiu amenizar. Mas aí já era tarde, porque a memória do grande gerenciador público do Grande ABC sofreu espancamentos contínuos e os amigos mais chegados foram literalmente execrados, transformados em réus. Reputações passaram por máquinas centrífugas de ordinárias ilações, injustificáveis exageros metodológicos, artificialismo irresponsável de versões. Para completar o circo de horrores, uma insensibilidade doentia, ingênua e contaminada atingiu representantes da comunidade que se expressaram publicamente ou não.

O caso Celso Daniel atingiu em cheio principalmente a consciência de carniceiros de plantão que, numa evidente prova de que não medem esforços para alcançar seus objetivos, se lançaram em insidiosas aventuras que pretendiam não só estuprar a imagem da vítima, mas também dinamitar a dignidade de quem a cercava. Foi uma caçada sangrentamente aética, cujas recompensas esses carniceiros esperam contabilizar nas eleições municipais de 2004.

Também devem estar arrependidos todos os membros do Partido dos Trabalhadores que, alheios ao drama da família Daniel e também à própria cautela dos petistas de Santo André, desembarcaram no Paço Municipal a partir da manhã do sábado de expectativa do destino do sequestrado e arremeteram um Boeing de ambição eleitoral na direção que deveria ser exclusivamente de repúdio à fragilidade da segurança pública sob o comando do Estado. 

Vorazes na busca de reforço para a tese de crime político que também teria derrubado o prefeito do PT em Campinas, o que o tempo e o bando de Andinho trataram de desmentir, vários dos petistas visitantes jogaram todas as fichas na repercussão estridente do decantado sequestro com finalidade política para fragilizar o partido. Essa estratégia, garantiram os próprios malfeitores nos depoimentos à Polícia Civil e à Polícia Federal, colaborou para desestabilizar emocionalmente os sequestradores, que se descobriram com um mico nas mãos. 

Ao mesmo tempo em que a cúpula do PT politizava o sequestro, os comandos políticos do Estado e da Federação detonaram série de contragolpes igualmente desastrados para desviar o foco da atrocidade. O caso saiu da esfera criminal para as urnas eletrônicas de outubro muito antes que o corpo do então prefeito fosse encontrado numa estrada vicinal de Juquitiba. Depois, então, processou-se a guerra de guerrilhas de versões industrializadas. 

Não foi por acaso que nessa disputa em que a esquerda perdeu a oportunidade de caracterizar o crime como um caso típico da negligência da segurança pública e a centro-esquerda situacionista contragolpeou a pressão com medidas pontuais, além de ressuscitar propostas esquecidas nas gavetas da imprevidência, quem acabou ganhando o eleitorado tão disputado foi o candidato a governador do Estado Paulo Maluf e seu discurso de caça aos bandidos. 

Os números do DataFolha indicam conversão de parte do eleitorado a ações menos diplomáticas contra a marginalidade. Entretanto, como as pesquisas eleitorais não são apenas uma vitrine para se admirar os números, a reação do governo Geraldo Alckmin à queda na preferência do eleitorado foi imediata. Uma portentosa ação contra um bando do PCC que pretendia assaltar um avião pagador em Sorocaba, com a morte de 12 bandidos, e a estrondosa ação de 1,2 mil policiais espalhados no Jardim Pantanal, divisa entre a Capital e Diadema, território onde Celso Daniel passou parte do cativeiro, deram visibilidade à nova interpretação sobre direitos humanos da Secretaria de Segurança Pública. Provavelmente, essa nova leitura fez Mário Covas revirar-se no túmulo. A mensagem malufiana de rebaixar os níveis de criminalidade com energia e destemor foi incorporada por Geraldo Alckmin. 

Para completar o teatro de amadorismo de péssimo gosto que caracterizou o caso Celso Daniel, pessoas comuns não se permitiram nem ao respeito do velório ao iniciarem enxurrada de maledicências. Outras, levadas apenas pelo sabor dos acontecimentos e das versões, agarraram-se como náufragos a qualquer possibilidade que confirmasse suposições. Não faltaram alarmes falsos distribuídos pela mídia menos responsável, em alguns casos retribuindo generosidades decorrentes da proximidade com o poder político de plantão. A esse poder interessava sobremodo contrapor-se à ofensiva eleitoral dos petistas interpondo adereços no mínimo desrespeitosos, sob o pretexto de investigar todas as possíveis variáveis do crime. Qualquer prova, mesmo que para isso se invadisse com respaldo legal o apartamento de Celso Daniel no dia seguinte ao enterro, era considerada importante.    

Somente depois de 51 dias o Partido dos Trabalhadores deu o caso por encerrado, após anunciar em entrevista coletiva o que a Imprensa mais atenta definira vários dias antes. "Foi uma morte inglória, banal e sem motivo" -- disse o deputado federal Luiz Eduardo Greenhalgh, destacado pelo PT para acompanhar a investigação e que, com discrição, equilíbrio e ética conseguiu manter distanciamento dos diversos interesses em jogo, inclusive da cúpula de seu próprio partido. 

Greenhalgh deu detalhes da ação dos bandidos durante a entrevista concedida na Prefeitura de Santo André. Ao seu lado, o prefeito João Avamileno criticou a parte inicial das investigações, qualificando-as de irresponsáveis. "Vamos conversar com a família do Celso para decidir como vamos mover o processo contra o Estado" -- disse Avamileno, que também se referiu genericamente aos amigos do prefeito assassinado. Entre esses amigos está Sérgio Gomes da Silva, que dirigia a Mitsubishi Pajero blindada atacada pelos quadrilheiros frustrados com a impossibilidade de sequestrar o alvo inicial daquela noite de 18 de janeiro, um empresário com atividades na Ceagesp. 

Também outros executivos municipais mais próximos do prefeito e o secretário de Serviços Municipais de Santo André, Klinger Sousa, foram atingidos pelos estilhaços que procuraram reduzir e ao mesmo tempo repartir a carga de responsabilidade do Estado à falta de segurança pública. Amigo de Celso Daniel e preferido do então prefeito para disputar o Paço Municipal de Santo André em 2004, Klinger Sousa teria novas atividades este ano na Prefeitura. 

A partir da presença mais constante de Celso Daniel como coordenador do programa de governo do candidato petista à Presidência da República, Lula da Silva, Klinger Souza atuaria como espécie de multissecretário de Santo André. Foi por essa razão que desistiu de candidatar-se a uma vaga na Assembléia Legislativa, ritual comum mas geralmente desnecessário a quem pretende construir carreira ao cargo de Executivo municipal.


Leia mais matérias desta seção: Caso Celso Daniel

Total de 193 matérias | Página 1

11/07/2022 Caso Celso Daniel: Valério põe PCC e contradiz atuação do MP
21/02/2022 Conheça 43 personagens de um documentário histórico
18/02/2022 Silêncio de Sérgio Gomes em 2002 garante Lula presidente
15/02/2022 Irmãos colaboraram demais para estragos do assassinato
14/02/2022 MP desmente MP: Crime de Encomenda é insustentável
11/02/2022 Finalmente acaba a farra oportunista de sete mortes
08/02/2022 Previsão: jogo eletrizante no mata-mata da Globoplay
07/02/2022 Crime de Encomenda é casa que cai a cada novo episódio
04/02/2022 Bomba na Globoplay: Gilberto Carvalho admite Caixa Dois
02/02/2022 Série da Globoplay começa a revelar equívocos históricos
01/02/2022 Crime Comum em vantagem no mata-mata da Globoplay
31/01/2022 CapitalSocial torna prioridade análise da série da Globoplay
28/01/2022 Já se ouve a marcha fúnebre de uma narrativa fraudulenta
24/01/2022 Globoplay vai exibir segredo de Sérgio Gomes que MP queria?
20/01/2022 Documentário histórico põe fim ao totalitarismo midiático
14/01/2022 Entenda como e porque Lula e Alckmin fazem parte do crime
13/01/2022 Entenda como e porque Lula e Alckmin fazem parte do crime (4)
12/01/2022 Entenda como e porque Lula e Alckmin fazem parte do crime (3)
11/01/2022 Entenda como e porque Lula e Alckmin fazem parte do crime (2)