A debandada de petistas aboletados na Administração do tucano Paulinho Serra é uma questão de tempo. De tempo e de perspectivas. De tempo, de perspectivas e de confiabilidade. De tempo, de perspectivas, de confiabilidade e de entusiasmo.
São, portanto, quatro estágios a demarcar até que ponto qualitativo e quantitativo os petistas que aderiram à gestão multipartidária de Paulinho Serra vão abandonar o barco situacionista.
Até a semana passada, tratar desse assunto seria brincadeira de mau-gosto. Com a pesquisa do Instituto Paraná, de resultados omitidos pelo Diário do Grande ABC, tudo se alterou. Como, aliás, escrevi nesta revista digital.
De agora em diante, o calibrador do processo estará muito interconectado ao ambiente federal. Notadamente a dois centros de custos do governo Lula da Silva. O oito de janeiro e seus desdobramentos e a reforma fiscal aparentemente complicada demais.
Mas vamos ao que mais interesse no momento, ou seja, aos quatro períodos que se esperam diferenciados e complementares com vistas às eleições municipais num dos 20 municípios brasileiros de maior arrecadação de tributos, mas que no ranking de PIB per capita não passa da 168ª colocação no Estado de São Paulo.
1. TEMPO
2. PERSPECTIVA
3. CONFIABILIDADE
4. ENTUSIASMO
FATOR TEMPO
Não há como desvincular do tempo que passa a cada dia a mobilização discreta de petistas que ocupam cargos oficiais ou comissionados no Paço Municipal. Ainda há muito tempo para as urnas eletrônicas apareceram no horizonte em forma de materialidade. Os petistas do Paço Municipal não têm pressa porque o calendário eleitoral permite e até incentiva que não tenham pressa. Mas isso não significa que se furtarão a manter encontros discretos com seus pares para sondarem o terreno. No caso, terreno é uma metáfora de potencial eleitoral do candidato do partido, provavelmente o ex-prefeito Carlos Grana.
FATOR PERSPECTIVA
Quando o fator tempo for sobreposto pelo fator perspectiva, os petistas do Paço Municipal vão começar a aquecer os motores de possível transposição que separaria o conveniente do indispensável. Conveniente é o cargo que cada um ocupa no tabuleiro recheadíssimo de palitos partidários na gestão de Paulinho Serra. Na exata proporção em que a perspectiva passa a ser elemento garantidor e sustentador de iniciativas mais sólidas, os petistas do Paço Municipal de Santo André começarão a mostrar as manguinhas da ideologia e do companheirismo. E as respectivas expertises.
FATOR CONFIABILIDADE
A ultrapassagem da fase inicial de tempo como fator essencial e também de perspectiva para agregar valor para chegar à confiabilidade de que o PT poderá sim competir para valer pelo Paço Municipal significará mais que uma sequência de avanço. Chegar-se-á, como pretendem os petistas cansados das aproximações com o governo de Paulinho Serra, ao momento de juntar as forças para o projeto decisivo, que é alcançar o sexto mandato intercalado desde os anos 1990, quando Celso Daniel ocupava a Prefeitura pela primeira vez. Se chegar a esse ponto – petistas não suportam mais seguirem como apêndices dos tucanos e agregados – estará finalmente dado o tiro de larga fatal rumo às urnas de forma consistente.
FATOR ENTUSIASMO
Esse é o quarto e último estágio esperado pelos petistas de Santo André. Acredita-se que ao faltarem no máximo seis meses às eleições em outubro do ano que vem os petistas já estariam ocupando o carro-chefe do comboio de sacramentação integral da disputa em Santo André, quando todas as arestas já estariam eliminadas ou minimizadas.
Toda essa sequência tem o ambiente estritamente municipal como muro de arrimo.
Isso quer dizer que os petistas de Santo André entenderiam que para chegar a esse ponto interno, de mostrar que é para valer e irreversível a ação rumo ao Paço Municipal, não podem se deixar contaminar por fatores externos.
O ambiente político municipal, regional, estadual e federal não estará fora do radar do grupo que pretende mostrar ao Paço Municipal que o período de amasiamento de petistas e tucanos foi uma suruba com tempo determinado pelas circunstâncias que colocaram Dilma Rousseff na presidência da República e os desdobramentos letais que todos conhecem.
O PT de Santo André que não se dobrou aos encantos dos tucanos do Paço Municipal têm no íntimo partidário a certeza de que a grande maioria dos dissidentes circunstanciais voltará à pátria vermelha querida. Haveria um ambiente municipal propício para tanto.
AMBIENTE EXTERNO
Não se pode, entretanto, desdenhar do ambiente político externo que acabará por avançar internamente.
Quem sonha ter Lula da Silva como cabo eleitoral especial na reta de chegada da disputa eleitoral sabe que o governo de Lula da Silva no período de eleições municipais não poderá ser avalanche de complicações.
Afinal de contas, por mais que o voto inercial numa agremiação sob a liderança de Lula da Silva seja um voto cantado na caçapa petistas, qualquer coisa mais ou menos grave teria repercussão nefasta para o sonho dos candidatos petistas às prefeituras do PT na região.
Principalmente porque as maquininhas diabólicas dos smartfones estão em alerta.
Em 2016, no desastre de Dilma Rousseff, quando a massificação de aplicativos não era nem sonho como agora, o PT do Mensalão e principalmente da Lava Jato não elegeu um prefeito sequer na região e perdeu centenas de titulares do Executivo no Brasil inteiro.
VOTO DOS EXLUÍDOS
Talvez um dos pontos que mais preocupam o grupo de Paulinho Serra é o ouro líquido dos pobres e miseráveis. Tudo isso se deve após a constatação de que o Instituto Paraná desfilou números fúnebres em termos de entusiasmo até então incontido de vitória de tucanos a agregados com os pés nas costas em outubro do ano.
Vou explicar: Paulinho Serra e seus geniais marqueteiros fizeram da pobreza crescente de Santo André, ex-Viveiro Industrial, um manancial enorme de votos. A dona da casa de Paulinho Serra, Carolina Serra, secretária de ações sociais, capturou com tanta competência lideranças e liderados de 120 entidades sociais de Santo André que acabou por se eleger deputada somando 90% do total nos votos em domicílios locais. A Santo André que virou Viveiro Assistencial é a Santo André da vitória de Carolina Serra.
Esse estoque de votos, entretanto, tem paternidade de digitais anteriores e diferentes. As digitais do principal cabo eleitoral de Carlos Grana.
BOLSA FAMÍLIA
O presidente Lula da Silva descobriu os pobres do País no primeiro mandato ao criar o Bolsa Família. Os tucanos cobram a patente dessa iniciativa, mas não convencem. Fernando Henrique Cardoso e seus colaboradores contavam sim com programas sociais, mas dissociados entre si. Além de não os juntar num só pacote de marketing e ações, não os fortaleceu em termos orçamentários.
É pouco provável que um candidato do PT com a identidade popular do PT e que tenha sido forjado nas bases metalúrgicas como Carlos Grana vai deixar de graça esse monumental estoque de votos assistencialistas a um concorrente escolhido pelo prefeito, pela agora deputada estadual Carolina Serra e por outros integrantes da Administração.
O Bolsa Família tem mais peso eleitoral entre os excluídos do que qualquer somatório de programas municipais de Santo André. O que foi excelente para uma candidatura a deputada estadual não terá o mesmo efeito para o candidato do Paço Municipal quando o governo federal entrar na parada.
A pasmaceira institucional de uma cidade tão necessitada de programas reformistas mas, contraproducentemente, adepta da exaltação entusiástica de políticas varejistas, talvez seja o principal motivo de observar com mais dedicação a antiga capital econômica da região, ruim de logística, de estatística, de autocrítica e, portanto, de cidadania.
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09/02/2026 DUAS FACES OCULTAS DA ENTREVISTA DE DIB