Aos poucos vai ganhando corpo e alma o esquema que o PT desenha para as eleições do ano que vem em Santo André, São Bernardo e São Caetano. Temos um caso de tríplice identidade. Algo pior que uma esquizofrenia convencional, mas que se justifica porque a ordem dos fatores sempre altera o produto final na política.
Santo André, São Bernardo e São Caetano têm prefeitos do moribundo PSDB. Todos estão no cumprimento do segundo mandato. São sete anos de labuta. Paulinho Serra, Orlando Morando e José Auricchio não podem voltar a concorrer sem cumprir a quarentena de quatro anos determinada pela legislação eleitoral.
Essa situação facilitaria a vida dos oposicionistas que pretendem chegar aos respectivos paços municipais. A premissa vale tanto para São Bernardo quanto para São Caetano.
Em Santo André do imperialismo político-partidário-administrativo-social e tudo o mais, a democracia restrita a votos é apenas um jogo de cena que a sociedade acompanha inerte.
AMBIENTE ASFIXIANTE
Ser oposição em Santo André, em qualquer atividade, é flertar com o sacrifício pessoal. Os imperialistas rastreiam todos os passos de quem contraria os interesses do Paço. Quem resiste à cooptação, que se cuide.
Entenda-se como oposição em Santo André qualquer coisa que conflite com o Paço Municipal. Qualquer questionamento é visto como petulância, quando não, provocação.
Se disserem a você que Santo André é uma Cidade Inteligente, você tem duas saídas: acredita, mesmo não sendo a verdade posta, ou finge que acredita para não ser perseguido.
O PT da região vai do fingimento concorrencial em Santo André ao vale-tudo em São Bernardo, passando pela tutela de um concorrente do campo conservador em São Caetano.
META PRINCIPAL
O PT nutre ambição de fato única, porque se encaixa no espaço da probabilidade, mesmo que se admita que o grau de certeza está sujeito à mitigação. O PT da região e o PT Federal querem retomar a Prefeitura-símbolo de São Bernardo. Ainda não há nome do indicado pelo prefeito Orlando Morando para confrontar o PT. O tucano faz suspense.
Orlando Morando trabalha com a perspectiva de que sendo disparadamente o melhor prefeito da região, poderia estender o prestígio a quem bem entender. Os eleitores o seguiriam.
É claro que Orlando Morando não deixaria de contar com o apoio do governador Tarcísio de Freitas, de muito mais prestígio que o carro-chefe petista em São Bernardo, o presidente Lula da Silva.
Não é a primeira vez que escrevo sobre as eleições do ano que vem na região, mas não custa repetir. Entre outras razões, tem gente que se mete a escrever sobre isso sem o aparelhamento informativo indispensável e confunde as bolas. Chamam Jesus de Genésio e imperialismo de competência.
A situação em Santo André é conhecida de todos que se interessam por política. O PT ou petistas ainda agregados ao PT, ou outros tantos que já mandaram o PT às favas, dormem e acordam nos lençóis do grupo do qual faz parte o prefeito Paulinho Serra.
FAZENDO DE CONTA
O PT das eleições do ano que vem em Santo André está sendo pasteurizado. Tem-se o ensaio de um simulacro de competitividade para não parecer demais uma vergonha partidária.
O PT de Santo André apoia oficialmente a ex-vereadora Bete Siraque. Trata-se de apoio tão confortável quanto servir uma rodada de café bem quente em copos de plástico transparente.
A situação em São Bernardo é de indisfarçável vale-tudo. A candidatura preliminar do deputado estadual Luiz Fernando Teixeira está posta com todo o suporte logístico-financeiro-político e o escambau do governo federal de Lula da Silva e do ministro Luiz Marinho.
O mesmo Luiz Marinho que foi prefeito entre 2009-2016 e que só não terminou os dois mandatos com saldo razoavelmente favorável porque foi dinamitado pelas travessuras de Dilma Rousseff e a gastança anterior de Lula da Silva em segundo mandato. Um Luiz Marinho que, mesmo assim, seria muito mais viável e menos custoso em termos de campanha do que Luiz Fernando Teixeira. Um Luiz Marinho que só seria chamado se as circunstâncias locais e nacionais exigirem.
NOVO PAULO PINHEIRO
Em São Caetano, o que se imagina é uma visita ao sistema ou esquema ou estratégia, o que for que reproduza tecnicamente, e quem sabe nas urnas, a operação Cavalo de Troia que, em 2012, fez do conservador Paulo Pinheiro prefeito. Ele superou a candidata do prefeito José Auricchio.
O PT, sem possibilidade alguma de vencer eleições em São Caetano, reduto mais conservador da região, ganhou com Paulo Pinheiro nacos valiosos da gestão municipal durante os quatro anos seguintes.
O Paulo Pinheiro da vez do PT intervencionista seria Tite Campanella ou Fabio Palacio. A adversária é a mesma de 2012, a secretária de Saúde Regina Maura Zetone.
A dúvida do PT em São Caetano é se escolhe Palacio ou Tite para ser o Paulo Pinheiro da vez, mas não se descarta que sejam os dois, numa dobradinha praticamente invencível, segundo avalições de pesquisas que não se publicam.
Em Santo André o ex-prefeito Carlos Grana, que chegou a botar a cabeça de fora numa pesquisa que o Diário do Grande ABC escondeu dos leitores, está alijado do combate. A Grana foi oferecido um trabalho em Brasília, ao lado do ministro Luiz Marinho, de quem é amigo.
Entre um combate interno desgastante e inútil, porque a máquina partidária petista de Santo André estará mesmo empenhada nas eleições em São Bernardo, e a segurança de uma atividade na Capital Federal, Carlos Grana mudou-se de mala e cuia.
Não era o que certamente Grana desejava no fundo do coração, mas quando se trata de PT o fundo do coração perde prioridade em nome da causa e a causa da vez chama-se São Bernardo.
QUALQUER NEGÓCIO
O PT faz qualquer negócio para investir na vitória do candidato na Capital Econômica da região. Até mesmo em Luiz Fernando Teixeira, que não tem cara nem de classe média da cidade nem de sindicalista, mas conta com suporte não muito convicto do jornalismo diário.
Isso mesmo: o jornalismo diário transforma Luiz Fernando Teixeira em porta-voz de racionalidade e sapiência. É uma espécie de ombudsman especial. Toda vez que há problemas de fato ou problemas imaginários em São Bernardo envolvendo o prefeito Orlando Morando, eis que aparece Luiz Fernando Teixeira para intervir em forma de ouvidor da sociedade.
A cassação do mandato do deputado federal e ex-vice-prefeito Marcelo Lima, ontem à noite pelo Tribunal Superior Eleitoral, essa corte que exige cortes rápidos porque não é flor que se cheira, talvez não signifique nada na temporada de votos em São Bernardo.
TRES FATORES
Marcelo Lima é um dos nomes especulados como indicado de Orlando Morando à disputa do ano que vem. Uma especulação que até agora não encontrou resposta do prefeito. E talvez nem encontre. A possibilidade de desgaste eleitoral de Marcelo Lima o retiraria do grupo supostamente preferencial à escolha de Orlando Morando.
Certo mesmo em São Bernardo é que Orlando Morando não terá a vida fácil de Paulinho Serra em Santo André para fazer sucessor. O eleitorado é diferente por razões históricas e contextuais, além de econômicas.
Razões históricas porque São Bernardo é o berço do PT, enquanto Santo André sempre foi uma linha petista auxiliar na esteira do movimento sindical.
Razões contextuais porque o PT comanda o País e tem massa crítica e financeira para investir pesado em São Bernardo numa vitória que teria sabor de mata-mata de final de Copa do Brasil ou de Libertadores. Em Santo André o jogo é amistoso. Os petistas foram acolhidos ou traídos pelos tucanos e os tucanos hoje não têm meios de abandonar os petistas.
E razões econômicas porque o sindicalismo de São Bernardo forjou uma classe média de operários, enquanto Santo André tem a tessitura de uma classe média de empreendedores de pequenos negócios.
DOENÇA SÉRIA
Somente os doentes da cabeça ou ruins dos pés não enxergam que, embora vizinhos, Santo André e São Bernardo estão longe de serem iguais. As diferenças na composição social estabelecem ramificações político-eleitorais. Basta pegar o mapa dos votos de Lula da Silva e Jair Bolsonaro nas duas cidades. Lula ganha em São Bernardo e Bolsonaro em Santo André.
Competições anteriores também podem ser cavoucadas. Os tucanos que governaram o Estado durante três décadas sempre foram mais bem votados em Santo André do que em São Bernardo.
Quem mede a competência dos dois prefeitos, de Santo André e de São Bernardo, pelas lentes embaçadas de votações presidenciais ou governamentais, é doido varrido ou ignorante contumaz. Quando não, portador de alguma deficiência de caráter.
Observando-se que eleição também é investimento conectado à produtividade do voto, o PT sabe que para tentar ganhar a cidadela de São Bernardo precisa investir exatamente onde tem mais probabilidade de sucesso.
CATÁSTROFE ABAFADA?
Em Santo André seria dispendioso e desnecessário canalizar recursos quando se sabe que há um aconchego natural entre tucanos e petistas. Por isso mesmo o PT vai fingir que vai competir.
A única exceção a essa premissa é se o trem da gastança da Administração Paulinho Serra, que faz água e deverá registrar números alarmantes quando se apurarem os dados desta temporada, descarrilar publicamente. Algo muito improvável.
Paulinho Serra, o imperialista do reino condominial do Paço Municipal, será sempre protegido. Protegê-lo é evitar uma catástrofe do entorno que o controla.
Em São Caetano o que se tem é uma oportunidade de juntar dois adversários que supostamente seriam derrotados pela candidatura situacionista e torná-los, na soma dos fatores, potenciais vencedores.
Esse ajuntamento envolvendo Fabio Palacio e Tite Campanella seria uma jogada tão certeira nas urnas quanto improvável na composição. O passado de sucesso eleitoral com Paulo Pinheiro é um estímulo aos petistas. A diferença que pode fazer toda a diferença é que desta vez existe uma terceira via em São Caetano (Tite Campanella), sem a qual não se produziria um Paulo Pinheiro em forma de Fabio Palacio, ou um Paulo Pinheiro em forma de Tite Campanella.
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09/02/2026 DUAS FACES OCULTAS DA ENTREVISTA DE DIB