Política

PESQUISAS ELEITORAIS
ALÉM DOS NÚMEROS (1)

DANIEL LIMA - 26/08/2024

Há exatamente 201 textos no acervo desta revista digital, a partir de janeiro de 2004, que tratam de pesquisas eleitorais em dimensões que não se limitam às urnas. Todos as análises foram produzidas por este jornalista, que, a partir de então, aprofundou uma paixão quase obcecada pela temática. Como se não bastasse a paixão por futebol, economia, música, cinema, essas coisas que valem a pena viver enquanto se respira.

Da massa de textos fiz um corte rápido, tramontinesco, para selecionar três dezenas. É o material que reproduzirei a partir de hoje, sem cronologia definida. Certo é que o calendário dessa série vai ultrapassar o primeiro turno das eleições municipais e vai invadir e se esgotar antes que o segundo turno se encerre.

Qual é a finalidade desta série? Cumprir a terapia com que me lanço à cata de tudo que tenha a ver com pesquisas eleitorais. O propósito principal que não nego e, mais que isso, afirmo e reafirmo, é consolidar  a garantia de que temos uma modalidade que, em regra, subverte a cidadania eleitoral, quando não a democracia política.

Não  pretendo repetir mesmo que como amostra o que todos que me acompanham sabem de cor e salteado: em larga escala, pesquisas eleitorais são uma farsa repetitiva que encontra o bálsamo ético de exceções em alguns institutos, e mesmo assim merecedores de vigilância permanente.

A primeira análise dessa safra em forma de série foi publicada em agosto de 2004, quando ocupava a direção de Redação do Diário do Grande ABC e mantinha uma coluna fixa, “Contexto”. O título original é mantido, concebido seguindo a ditadura editorial, como chamamos espaços previamente determinados à definição do conjunto  dos enunciados. 

 

Pesquisa eleitoral 

 DANIEL LIMA - 03/08/2004

Resultados de pesquisas eleitorais são como galanteios. Se correspondidos, podem gerar novos relacionamentos. Se contrariados, provocam irritação. Esperar de vencedores temporários o comedimento de que uma nova rodada pode colocar tudo a perder é tão ingênuo quanto acreditar que derrotados circunstanciais compreenderão a possibilidade de os dados serem inquestionáveis.

É difícil assimilar maus resultados de tendências de votos, tanto quanto é compreensível que desgarramentos de euforia rompam o lacre da cautela dos bafejados pelo eleitorado.

Quem perde sente que a mobilização de correligionários poderá refluir, que os já escassos financiadores de campanhas podem bater em retirada, que a desconfiança sobrevenha, que as intrigas se eternizem.

Quem ganha pode cometer o pecado da gula eleitoral e considerar o jogo decidido. A soberba não resiste à desmobilização. A historiografia é extensa na detecção de razões psicológicas nas grandes surpresas eleitorais. Quem não sabe vencer temporariamente perderá em definitivo. Quem não consegue superar a derrota circunstancial afunda-se na derrocada irreversível.

Por isso, considerando-se que as pesquisas eleitorais são batalha de uma grande guerra, exige-se dos generais mais racionalidade que passionalidade.

Velhos cacoetes que tentam disfarçar o dispersar de forças não podem compor a artilharia de reação, porque sempre soarão falsos e, como tais, não penetrarão na alma dos aliados.

O disfarce do desencanto de uma derrota não convence ninguém quando se tenta desclassificar as fontes de sondagens. Trata-se de uma ladainha tão antiga quanto bravatas de palanques. Arrancam aplausos dos mais próximos por algum tempo, mas provocam zombarias dos mais distantes. No final, acabam desmoralizadas.

Números reluzentes também são um inferno se não forem interpretados como precários. Batalhas são batalhas. Um arrefecimento aqui, um descuido ali, uma manobra mal executada mais à frente e pronto! Lá se vão preciosos pontos percentuais para a cucuia. Sempre em dose dupla, como se sabe, já que uma diferença de 10 pontos, por exemplo, de fato é de apenas oito, porque um ponto que se perde lá em cima para quem está imediatamente em baixo é contado em dobro. Quem tem 10 de vantagem e perde um para o perseguidor, fica com oito.

Como se vê, não é um jogo de futebol, onde a lógica do encurtamento da diferença no placar é de grão em grão. Um gol marcado não diminui os gols feitos pelo adversário. Mas em política, como se sabe, tudo é diferente.

Dá para imaginar os pensamentos que povoam candidatos às prefeituras dos sete municípios do Grande ABC quando o assunto é pesquisa eleitoral. Todos, indistintamente, devem viver momentos de agonia, angústia, ansiedade, coisas assim. Mesmo os eleitoralmente menos volumosos em possibilidades de chegar ao topo.

Não é porque estejam fora da zona de disputa que esses concorrentes entregam os pontos. Mais alguns avanços percentuais de um e de outro fora do páreo podem colocá-los no jogo das negociações para composições estratégicas. Há secretarias a ocupar, há cargos de confiança a distribuir, há empregos públicos sempre à vista. Quem vai negociar com franciscanos eleitorais?

Jogar o jogo dos votos deve ser mesmo uma empreitada vocacional. Não é possível que se tenham tantas perspectivas emocionais em troca da simples participação descomprometida com resultados.

Por isso, quando rodadas eleitorais aparecem nas páginas de jornais, o estresse é generalizado. Chovem telefonemas por números que, antecipados, minimizam o sofrimento, abreviam a curiosidade. Quando o placar é negado em nome da credibilidade, porque números antecipados são números previamente metralhados pelos eventualmente desventurados, o inconformismo é geral.

Protelar a publicação de rankings eleitorais já esquadrinhados é a convocação a desarranjos intestinais. Estabelece-se frisson extraordinário. Algo como prometer contar a alguém uma grande novidade e, em seguida, adiar a notícia para o dia seguinte ou para a próxima semana.

Nada, entretanto, mais emocionante para o eleitorado e, principalmente, para os protagonistas das pesquisas.

Que seria da vida se não houvesse espaços para emoções? Seríamos todos previsíveis, ordinários. A alegria e o sofrimento fazem o espetáculo de viver. Terrivelmente.



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