Política

DUAS FACES OCULTAS
DA ENTREVISTA DE DIB

DANIEL LIMA - 09/02/2026

Acho que pouca gente entendeu a entrevista do ex-prefeito de São Bernardo, William Dib, à versão televisiva-internética do Diário do Grande ABC. Acho que muita gente não entendeu a entrevista transposta em novo formato de conteúdo à versão impressa do Diário do  Grande ABC. Essas são as faces ocultas envolvendo o médico cardiologista que há muito tempo deixou o protagonismo político na região.

O que pouca gente entende é que mesmo sem ser publicamente protagonista, William Dib ainda dá muitas cartas de influência e joga de mão de eficiência no ramo. Não está entre os primeiros em proeminência, mas faz parte de um elenco com carteira do clube exclusivo de mandachuvas e mandachuvinhas. Nem sempre mandachuvas e mandachuvinhas são expressões pejorativas. Nesse caso, não é. Apenas fiquei com preguiça mental de buscar uma alternativa que situasse William Dib nessa frondosa árvore genealógica de poder. Querem o quê? Domingo é domingo. E estou escrevendo este texto neste domingo.

Vou me fixar nas duas faces ocultas da entrevista, ou seja, a entrevista televisiva e a entrevista impressa. Quem acha que tudo é a mesma coisa possivelmente acredita que a bola de futebol em Portugal é quadrada. Uma ofensa aos lusitanos que têm, juntamente com a Argentina, entre outros destaques, os mais consagrados técnicos de futebol do planeta por quilômetro quadrado de expansão territorial.

JORNALISMO SEM ALMA

A entrevista transportada da telinha do podcast para as páginas impressas do Diário, em forma de reportagem, é protocolar. Excessivamente burocrática. É desses produtos que se encontram em qualquer jornal da praça, especialmente das praças interioranas. Jornalismo de Inteligência Artificial. Sem alma, quando não, também, monitoradíssimo; ou seja, dentro dos mandamentos de política editorial ditada pela cúpula empresarial.

Por conta disso, dessa formalidade textual impressa, que transformou a entrevista num pisar em ovos de autocensura e censura, quase desperdicei o filé mignon da entrevista televisiva. A reportagem impressa deu sonolência.

Como sou teimoso, fui à versão da entrevista na TV. Aliás, sempre faço isso. Sempre digo aos mais jovens que jornalista razoavelmente preparado jamais desperdiça uma oportunidade de duvidar de que não se tira nada de algo que aparentemente deu tão pouco – ou seja, de uma versão  impressa transportada à eletrônica.

Não vou recorrer a algumas anotações que identificaram William Dib num desempenho teatral somente detectado por especialistas em artimanhas políticas. Teatral não significa algo desprovido de realidade como matéria-prima. Tampouco de autenticidade. Teatral, nesse caso, é apenas um derivativo de esperteza, inteligência, sabedoria e tudo mais.

UM ENXADRISTA

Para compreender as respostas de William Dib é necessário decifrar, e às vezes,  extensivamente,  diagnosticar pausas, inflexões,  movimentos labiais, movimentos da cabeça. Tudo isso que os leitores e telespectadores menos atentos terão dificuldades de dimensionar ao avaliar o valor de cada frase. William Dib não é um político qualquer que fala pelos cotovelos. Ele é um jogador de xadrez cognitivo e verbal. O tom de voz utilizado na entrevista, por exemplo, soterrou estrategicamente uma dose de indignação, quando não de sarcasmo.   Isso não foi levado à reportagem escrita.

William Dib rasgou elogios ao cacique partidário Gilberto Kassab, do qual diz ser amigo pessoal. Os olhos brilharam quando confirmou o almoço que manteve com o presidente nacional do PSD, proprietário de imenso fichário de deputados estaduais, deputados federais, prefeitos e tudo o mais.

Na bolsa de valores de políticos de William Dib, Kassab está em altíssima avaliação. E isso significa a possibilidade de juntarem as peças caso os resultados eleitorais desta temporada lhes sejam favoráveis. Kassab joga em quase todas as posições, inclusive no PT, mas parece que Dib, por conta de São Bernardo, já largou mão dessa contradição. Como se sabe, William Dib e Partido dos Trabalhadores de São Bernardo jamais se entenderam. Mas, nas últimas eleições municipais, Dib foi candidato a vice-prefeito na chapa de Luiz Fernando Teixeira.

MANCHETE HILARIANTE

Talvez Dib jamais consiga explicar tamanha guinada. Se eu fosse o entrevistador do podcast do Diário do Grande ABC não teria perdido a oportunidade de perguntar sobre isso. Talvez tenha havido um acordo preliminar para não se mexer nessa ferida.

Um desdobramento da possível vitória eleitoral de Gilberto Kassab para os políticos que querem ver o PT fora de combate seria a ascensão de William Dib. Qualquer coisa que se especule hoje sobre William Dib de volta ao Paço Municipal de São Bernardo não passaria de ignorância eleitoral. O próprio William Dib admite essa dificuldade, para não dizer impossibilidade.

Por isso, a manchete do Diário do Grande ABC soa hilariante.  Entretanto, se o barco eleitoral que divide com Gilberto Kassab desembocar numa ótima pescaria, não se deve duvidar de que William Dib venha a retomar protagonismo, mesmo que um protagonismo auxiliar, de grande conselheiro e influenciador do candidato majoritário e provavelmente vencedor em São Bernardo  -- como aliás, o próprio entrevistado assim o admitiu. 

MARCELO ENRASCADO?

William Dib franziu a testa ao falar da Administração de Marcelo Lima, em São Bernardo. Não economizou crítica. Tocou na ferida de ética, moralidade e efetividade. Condenou a gestão de Marcelo Lima em todos os sentidos, inclusive nos campos de Educação, Saúde e Segurança Pública que constantemente ganham manchetes adocicadas do próprio jornal que o entrevistou.  Aliás, todos os atuais gestores públicos do Grande ABC são nota 10 em todos os quesitos. Deveriam desfilar no Carnaval do Rio de Janeiro.

Parece haver um abismo entre William Dib e Marcelo Lima. Possivelmente, e isso é especulação, William Dib tenha informações sobre o futuro do prefeito de São Bernardo que colocariam em xeque a ideia de que os acontecimentos denunciados no ano passado estariam fora da órbita judicial. Pareceu a mim que Marcelo Lima estaria fora do jogo eleitoral em 2028. Como assim? Dib se referiu especificamente sobre Orlando Morando de um lado e o PT do outro na perspectiva traçada para 2028.

Sobre Orlando Morando, ex-prefeito de São Bernardo como ele, e com o qual retomou diálogo recentemente, após mais de uma década de afastamento mútuo, parece que a aproximação está garantida, embora não se tenha ainda o quanto está distante ou não do ideal.

No caso, o ideal seria uma jornada conjunta para retomar a Prefeitura de São Bernardo. Dib fez restrições à gestão de Orlando Morando, mas não negou os bons resultados. Só não mencionou nenhuma coisa nem outra coisa. Prudente, como se vê. Ou faltou ao entrevistador algo que o retirasse do muro? Talvez não. Há certas situações que uma pergunta complementar pode se tornar invasiva e como tal gerar desconforto que não compensaria o produto final.

SARCASMO COM MORANDO?

Quase esqueço de uma resposta aparentemente absurda de William Dib sobre os motivos da derrota da sobrinha de Orlando Morando, que concorreu à sucessão municipal em 2024. Sabem o que disse Dib? Que Orlando Morando quis perder a disputa. Como assim? Não especificou a razão, mas deixou nas entrelinhas uma configuração convencional e muito levada a justificar possível apontamento de candidato à sucessão com o propósito de vê-lo derrotado. Na eleição seguinte, o retorno estaria garantido.

Acho que William Dib quis dizer em relação a Flávia Morando  que Orlando Morando teria errado grotescamente na escolha à sucessão. Talvez a explicação  que eliminaria a especulação esteja no pacote de restrições de William Dib à gestão de Orlando Morando. Reto e direto: se prevalecesse um grupo de apoiadores do ocupante do Paço Municipal, a definição por um nome de peso evitaria a derrota.  Traduzindo a linguagem cifrada de William Dib: Orlando Morando perdeu a eleição com a sobrinha porque quis perder no sentido de que teria desprezado parceiros de outras jornadas e particularizado a campanha.

Houve certo desconforto do entrevistador quando, com a finesse de cirurgião do coração disse William Dib que o Clube dos Prefeitos virou um centro de estética eleitoral, abandonando o que o ex-prefeito definiu como “um grupo de amigos com ideias e projetos”, referindo-se aos tempos de prefeito integrado ao Clube dos Prefeitos. Dib não deixou de registrar também sem detalhar a ruptura no Clube dos Prefeitos durante a gestão de Paulinho Serra, para confirmar o tom de reprovação ao grupamento cada vez mais festivo e menos produtivo --- essa conclusão é minha, embora Dib não deva fugir dessa constatação.

POUCO DINHEIRO

Também não foi nada agradável ao entrevistador, representante da direção do jornal, ouvir Dib dizer que as emendas parlamentares são individualmente e em conjunto uma merreca quando contrapostas aos orçamentos das prefeituras. Também nesse caso, “merreca” é por minha conta. Mas acredito que William Dib tenha pensado nessa adjetivação. Só não a expôs porque não é jornalista e precisa, claro, construir pontes.

William Dib, em  nenhum instante citou o nome ou fez qualquer menção direta ou indireta sobre o desempenho político de Paulino Serra, ex-prefeito de Santo André que, na semana da entrevista, um dia antes ou um dia depois, foi à mídia e desancou Gilberto Kassab. Tudo porque o time partidário de Kassab fez um rapa geral no time político, ou fim de feira, do PSDB, presidido em São Paulo por Paulinho Serra. Se a debandada foi depois da entrevista de William Dib, o entrevistador não tem culpa nenhuma no cartório de perguntas inescapáveis.

Estava esquecendo de outra informação de William Dib. Ele afirmou que coordena um grupo de políticos locais que estariam preparando encontros para discutir ideias sobre São Bernardo e o Grande ABC. Tomara que leve adiante essa proposta. Se temos o Clube dos Prefeitos que nada faz de substantivo, por que não um clube de inconformados? Seria isso mesmo?



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