Política

AGENDÃO REGIONAL
A SALVO DE ELEIÇÕES

DANIEL LIMA - 27/07/2026

Os avanços da regionalidade em determinadas áreas nestes dois primeiros anos de nova safra de prefeitos do Grande ABC sofrem os mesmos problemas e impactos de um passado repetitivo, desestimulante e compulsório: as disputas eleitorais para a composição da Assembleia Legislativa e a Câmara Federal (quando não ao governo do Estado e ao governo federal) sabotam os progressos obtidos. Por isso, regionalidade tem parentesco irritante com a síndrome explicada no filme Feitiço do Tempo.

Estamos vivenciando ao vivo e em cores a subjugação de esforços de regionalidade que sugeriam multiplicação de ações. A turbulência de disputas eleitorais como as que se avizinham não se esgota com o preenchimento do calendário eleitoral em outubro próximo. Ficam sempre rescaldos de rivalidades e animosidades que contaminam o futuro imediato que sempre chega.

Basta ficar atento ao noticiário e entender alguma coisa do risco político-partidário presente na região para detectar fios desencampados de atritos disfarçados ou explícitos de individualidades políticas e também de grupos políticos a promoverem dissensões próprias da democracia, mas letais aos objetivos de regionalidade que tanto perseguimos.

CÁLICE ENVENENADO

O calendário eleitoral desta temporada, como de tantas outras oportunidades, é aquele cálice de vinho envenenado que se serve ao distinto público sedento de mudanças. A festa da democracia ganha a forma complementar senão de eutanásia da integração regional, mas em algo anestesiante num primeiro estágio. E em seguida, o andar da carruagem de fogo de conflitos eleitorais solidifica placas irremovíveis.

Não adianta acreditar em papei Noel e subestimar o tiroteio que já se observa. Não existe barreiras de contenção quando se pretende chegar à vitória eleitoral. O municipalismo do eleitorado a ser conquistado se mistura com efeitos ramificadores de votos suplementares em cidades vizinhas. A pretendida regionalidade eleitoral é uma contradição à baixa regionalidade institucional e só potencializa perdas e danos. Essa característica comum na região não é, portanto, completo regionalismo do voto, mas é efetivamente realidade prática.

DISPUTA ENCARDIDA

Não vou destrinchar o que já detectei como alianças circunstanciais envolvendo candidatos do Grande ABC às duas casas de leis porque poderia sair do foco com que me meti nesta análise. Mas nada impede, por exemplo, que cite entre outras alquimias um dos modelos preferidos para impactar adversários políticos locais.

O golpe tático mais comum é o prefeito de plantão sustentar várias candidaturas com projeto de eleger alguém de confiança e ao mesmo tempo bombardear o principal reduto eleitoral do adversário mais poderoso. Bombas de efeitos eleitorais atiradas no próprio Município costumam provocar estragos municipalistas e regionalistas.

Há quem faça isso sem a menor cerimônia pública, enquanto outros são dissimulados. Nada disso, compreendam os leitores, tem a tessitura crítica no sentido mais ácido da palavra. É apenas uma constatação evidente.

Por essa e por tantas outras razões defendo de forma quase intransigente uma modelagem complementar e,  por que não mitigatória, quando não, quem sabe, redentora, de dar um nó nessa irregressível modalidade de fragmentação.

AGENDÃO SALVADOR 

A regionalidade só ficaria a salvo de idiossincrasias individuais, políticas e partidárias dos candidatos que querem ver seus adversários alijados de qualquer cargo se houvesse algo que unisse os concorrentes acima de interesses particulares, porque essa união seria benéfica a todos como tiro de largada de comprometimento com o eleitorado regional.

Chamaria de Agendão Regional um bloco de propostas que teriam de ser assumidas publicamente por todos os candidatos aos cargos parlamentares, independentemente da perspectiva de sucesso ou fracasso nas urnas.

O Agendão Regional seria lançado em evento público que teria o significado tácito de compromisso com a regionalidade acima de quaisquer outros valores particulares e partidários.

Votar em candidatos do Grande ABC (e já escrevi muito sobre isso) a pretexto de simplesmente comporem o que chamam de Bancada Regional seguirá sendo senão uma farsa, porque não existiria maliciosidade na proposta, certamente uma ingenuidade. Tem-se provado ao longo dos tempos que não basta votar em candidatos da região. É preciso que os concorrentes da região saibam distinguir a diferença entre regionalidade e individualidade.

MODELO EM DEBATE

Vou produzir em seguida uma lista de 10 pontos indispensáveis do Agendão Regional.  Seria, propositadamente, hermético nos enunciados. E o farei por duas razões. Primeiro, a lista não é um modelo pronto e acabado para ser efetivado como ação prática. Segundo, há camadas de interpretações que necessariamente exigiriam consenso.

Uma lista com enunciados que retratassem uma espécie de coleção de resolutividades poderia dar a sensação de que se pretenderia impor determinados referenciais. Entendo que a elasticidade incorporada ao Agendão Regional poderia ser guardada para debates posteriores àquilo que chamaria de adesão dos concorrentes às vagas parlamentares.

Os debates sobre cada indicador da lista dariam respaldo necessário à construção coletiva de enunciados complementares que demarcariam as respectivas ações práticas.

Acredito que só existiria a possibilidade de os candidatos se moverem pelo interesse coletivo como guarda-chuva das próprias campanhas caso prevaleça na exposição do Agendão Regional uma conexão só aparentemente inconciliável de focalização dos objetivos pretendidos combinada com pragmatismo das iniciativas práticas.

RELAÇÃO BÁSICA 

Embora pudesse elaborar uma lista com pelo menos três dezenas de prioridades, decidi restringir o Agendão Regional a 1º quesitos como antídoto à guerra fraticida dos votos que torna a regionalidade escorregadia, fugidia e vacilante ao longo de décadas: 

1. Participação efetiva e reestruturante da Universidade Federal do Grande ABC às transformações econômicas.

2. Integração de professores e alunos universitários da região na construção de indicadores multitemáticos para potencializar estratégias econômicas e sociais.

3. Avaliação detalhada dos impactos econômicas após a construção dos trechos Oeste e Sul do Rodoanel Mário Covas com extensão suplementar aos demais trechos.

4. Analisar e oferecer medidas que equalizem as alíquotas do Imposto Sobre Serviços nos sete municípios do Grande ABC de modo a eliminar a guerra fiscal interna.

5. Analisar e propor medidas compensatórias à chegada de potentados do comercio eletrônico na região de maneira a contemplar fundo financeiro específico para reorganizar institucionalmente os pequenos varejistas familiares mais suscetíveis aos efeitos deletérios da tecnologia digital.

6. Promover varreduras intensas e profundas para detectar possibilidades de incrementar eventuais políticas locais de fortalecimento de cadeias de produção duramente impactadas nas três últimas décadas.

7. Incrementar medidas institucionais de modo a levar principalmente aos alunos do Ensino Básico e do Ensino Fundamental ações extracurriculares que disseminem preceitos de regionalidade.

8. Definir políticas de sustentabilidade ambiental que entre outras iniciativas transformem as barreiras ocupacionais da Serra do Mar em ativos financeiros para aplicações específicas de desenvolvimento sustentável.

9. Estruturar legislação regional de ocupação e uso de solo para conciliar a imperiosidade de combinar densidade demográfica e qualidade de vida.

10. Definir modelos de ações públicas que priorizem a redução do déficit de atendimento em diferentes áreas com base nos melhores endereços nacionais.

QUEM VAI CUIDAR?

Para complementar, de modo que não pareça um sonho especulativo de verão sem base instrumental ao desenvolvimento conjunto de tantas tarefas, vou deixar para outra edição a sugestão sobre quem cuidaria do Agendão Regional.  A resposta é tão óbvia quanto desafiadora.



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