Para quem está desembarcando no território do Grande ABC ou mesmo para quem está por estas bandas há pelo menos duas décadas e conhece pouco ou insuficientemente a história vivida no Grande ABC, o capitulo que se segue de Arca de Noé contra o Gataborralheirismo poderá ser chocante.
Não estou exagerando. Saímos do final dos anos 1990 de um ambiente criminal de Baixada Fluminense e registramos nesta década de novo século resultados espetaculares. Saímos do caos de fatos concretos e ingressamos num mundo de inquietações sensoriais, principalmente. Já é um avanço e tanto, embora não possa ser o ideal.
O fator-chave que determinou a ruptura do estado de carnificina em direção à indicadores mais civilizados ocorreu a partir dos desdobramentos do assassinato do então prefeito de Santo André, Celso Daniel, em 2002.
Esse histórico de redenção criminal do Grande ABC, algo que não se vislumbra na Economia cada vez mais fragilizada, está sintetizado em quatro análises que selecionei entre muitas que produzi para a revista de papel LivreMercado e a sucessora editorial, no caso esta publicação digital.
Saio de 1999 e chego a 2022. Há, portanto, um vácuo de quatro anos em relação aos dias de hoje. Nada que esta série inédita de 60 anos de jornalismo não venha a avaliar no futuro próximo. Ainda temos mais de quatro dezenas de textos a selecionar para completar a coletânea.
Para não cometer o crime de ejaculação editorial precoce, nada melhor aos leitores que descobrirem por iniciativa própria o histórico da grande revolução na área de Segurança Pública no Grande ABC. A Baixada Fluminense do Grande ABC, apontado por um entrevistado da alta cúpula da Polícia Militar no Grande ABC, ficou no passado. Celso Daniel morreu para salvar muitas vidas. Leia para entender. E se atualizar.
PRIMEIRA MATÉRIA
A primeira matéria-análise sobre a criminalidade no Grande ABC foi publicada na edição de maio de 1999 da revista LivreMercado sob o título “Comandante da PM promete reação”. A reprodução se limita ao texto de abertura, porque esta série não abre espaço a entrevistas. Que ficarão para outra série. Acompanhem:
A promessa é do coronel Roberto Nogueira, comandante do 6º CPA (Comando de Policiamento de Área-6) da Polícia Militar, com atuação nos sete municípios do Grande ABC: a Polícia Civil e a Polícia Militar vão atuar mais próximas entre si e também com a comunidade para combater a criminalidade na região.
A declaração do coronel Nogueira foi a mais contundente — e a que oferece melhores perspectivas para a região — durante entrevista especial com a cúpula do policiamento no Grande ABC. Além do coronel Nogueira, participaram os delegados seccionais de Santo André, João Gilberto Pacífico, e de São Bernardo, Pedro José Liberal, responsáveis pela Polícia Civil.
Os três chefes da segurança no Grande ABC foram entrevistados separadamente, em dias diversos. A estratégia se revelou frutífera, porque retrata sem retoques as diferentes interpretações que o comando da Polícia oferece sobre determinados temas.
NA MESMA DIREÇÃO
O coronel Nogueira e os delegados Liberal e Pacífico, como são chamados pelas respectivas tropas, caminham na mesma direção, entretanto, quando se trata de avaliar o grau de periculosidade dos criminosos que atuam no Grande ABC: eles não ficam a dever nada, absolutamente nada, aos marginais que fazem de São Paulo e do Rio de Janeiro verdadeiros campos de batalha entre si, por disputas de territórios, e contra a população, vítima preferencial de seus ataques.
Combater para valer a criminalidade de modo a rebaixar gradualmente os indicadores que estão transformando o Grande ABC num barril de pólvora é o grande desafio da cúpula da Polícia. O coronel Nogueira afirma que vai buscar parcerias de autoridades públicas e entidades representativas da comunidade e das empresas para promover vigorosa cruzada contra os criminosos.
Nesse ponto também eles concordam: só com apoio da comunidade será possível diminuir o aprofundamento da onda de violência no Grande ABC.
ONDA DE CRIMES
Uma onda, aliás, que cada vez mais faz a alegria dos surfistas da marginalidade. Entre 1995 e 1998, aumentou em 42% o índice de homicídios no Grande ABC. Isso mesmo: 42%. Em 1995 foram cometidos 788 assassinatos na região. O número aumentou para 904 no ano seguinte, para 1.115 em 1997 e atingiu 1.119 no ano passado. É gente demais assassinada. O rastro da criminalidade segue os passos do poderio e dos reveses econômicos: São Bernardo e Diadema, que representam 60% do PIB (Produto Interno Bruto) regional, acumularam 654 homicídios em 1998 — isto é, 58% dos casos na região.
O desequilíbrio maior tem Diadema como responsável. Os números indicam que praticamente não há rival nacional para os indicadores de homicídios: foram 351 casos em 1998 para uma população de 323 mil habitantes, o que significa, segundo padrões da ONU (Organização das Nações Unidas), 108 assassinatos para cada grupo de 100 mil habitantes. Para se ter ideia sobre o que esse índice representa, é nada menos que 50% superior aos 70 homicídios contabilizados no ano passado em Vitória, no Espírito Santo, a Capital mais violenta do País segundo estudos de secretarias de Segurança e do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas).
MÉDIA ALTÍSSIMA
No conjunto dos municípios do Grande ABC, que reúne 2,3 milhões de habitantes, a média de criminalidade para cada grupo de 100 mil habitantes é de 50. A taxa é elevadíssima, porque é o dobro da média nacional. Só dois municípios da região estão abaixo da marca nacional — São Caetano com 10,72 e Ribeirão Pires com 19,48. As demais ultrapassam largamente: Santo André tem 40,48; São Bernardo tem 45,90; Mauá, 47,80 e Rio Grande da Serra, 40,34.
A situação de Diadema é gravíssima porque, com população levemente inferior a Mauá (342 mil habitantes contra 323 mil) e com características socioeconômicas próximas, a diferença da taxa de homicídios é exagerada — mais que o dobro.
Se confrontar o número de homicídios de Diadema com São Caetano, o contraste fica ainda mais evidente e preocupante. Embora São Caetano tenha 2,3 vezes menos população que Diadema, a incidência de homicídios é 10 vezes menor. Resumidamente: no ano passado morreram assassinadas em São Caetano 15 pessoas. Bastam 15 dias para que se tenha o mesmo número de homicídios em Diadema.
SEGUNDA MATÉRIA
Na edição de setembro de 2000 fiz uma correlação entre o surgimento do sindicalismo no Grande ABC e a decadência social. A análise “República Sindical, República Criminal” não carrega correlacionamento de causa e efeito, como alguns interpretaram ou venham a interpretar. Uma coisa e outra coisa são apenas uma coisa e outra coisa; portanto, distintas. Leiam:
A máscara do rebaixamento da qualidade de vida do Grande ABC caiu de vez e nem de longe tem semelhança com o estardalhaço festivo que marcou a queda de outra máscara, da deslumbrante Feiticeira, nas páginas de Playboy. O fechamento do comércio e de escolas de cinco bairros de São Bernardo em represália à morte de um traficante na cadeia pública ganhou o noticiário de jornais, rádios e emissoras de televisão provavelmente com o mesmo impacto com que no final dos anos 1970 os metalúrgicos comandados por Lula revolucionaram as relações trabalhistas.
Entre a República Sindical e a República Criminal existe um histórico de desvios e omissões institucionais e socioeconômicas que ultrapassa a superficialidade do desmantelamento dos quadros policiais. Simplificar o cenário caótico da segurança pública que abala a autoestima de 2,3 milhões de habitantes de uma região ainda cantada em prosa e verso como referência de potencial econômico é acreditar que com um simples binóculo será possível enxergar o mundo.
HERÓI-VILÃO
Na verdade, não foi a primeira vez e nem terá sido a última que cerrar as portas de estabelecimentos comerciais, suspender aulas e trancar os portões de residências são rituais de pura sobrevivência. O Grande ABC, principalmente São Bernardo e Diadema que concentram o maior naco do PIB e do desemprego regional, já vive essa situação faz tempo.
Muitos casos seguem no anonimato e na impunidade. Poucos aparecem na mídia impressa e eletrônica, como o de novembro do ano passado, quando cerca de seis mil pessoas passaram pelo Cemitério do Jardim das Colinas, em São Bernardo, durante o funeral de Euler Vidal da Silva.
Embora tivesse nome de jogador de futebol, Euler era conhecido mesmo por ser apontado pela polícia como traficante e principal criminoso com atividade na área. Quando seu corpo desceu ao túmulo, foi aplaudido freneticamente. Havia tanta gente que o corpo do traficante teve de ser velado ao ar livre. No dia anterior, quando explodiu a notícia sobre a morte de Euler, cinco bairros de São Bernardo foram fechados para o comércio por ordem dos traficantes dos morros da Vila São Pedro.
PROTETOR DA COMUNIDADE
O herói-vilão era espécie de protetor daquela comunidade. Onde a polícia não marca suas pegadas, onde o desenvolvimento econômico tropeça, os bandidos carimbam impressões digitais a bala.
O que mais dói no peito do Grande ABC não é propriamente o agravamento do nível de criminalidade patente em cada esquina e nos registros policiais, por mais que a população deixe de oficializar queixas de percalços rotineiros em delegacias geralmente tão abarrotadas quanto lentas no atendimento.
O problema é que não há mais como esconder para o público externo que a região vive espécie de guerra de guerrilhas, com bandidos cada vez mais ousados. Eles abandonaram as ações exclusivamente noturnas, de quem sabe que na penumbra todo gato é pardo. À luz do dia arrancam motoristas dos veículos diante da incredulidade e do temor dos demais. A impunidade garante sob a luz do sol o que a iluminação deficiente assegura à noite.
REALIDADE NA CARA
O que fere fundo o orgulho provinciano do Grande ABC, principalmente os construtores de artificiais cenografias de prosperidade, é que agora não dá mais para enganar. A região ainda opulenta na economia está despudoradamente nua em segurança pública perante todo o País.
De República Sindical, com sua veia corporativa mas democrática, transformou-se em República Criminal. Por mais que tentem transformar a Polícia Militar e a Polícia Civil em protagonistas da explosão de ocorrências no Grande ABC, o que de fato exala cheiro de podridão do tecido institucional é a constatação de que são os bandidos as estrelas dos espetáculos de assaltos, furtos, roubos, latrocínios e tantas outras infrações ao Código Penal. À polícia está reservada toda carga de antipatia dos vilões de telenovelas.
BAIXADA FLUMINENSE
Eleger a Polícia de um Estado historicamente perdulário a grande vilã do fortalecimento da indústria da bandidagem na região, e também no País, é tática que serve para desviar a atenção sobre os próprios fracassos das instituições que gravitam no entorno das administrações públicas. Não é de hoje que o Grande ABC ingressou definitivamente no clube de alto risco no Brasil. A Baixada Fluminense já é aqui há muito tempo.
A periferia do Grande ABC vive em convulsão há muitos anos. Quadrilhas de assassinos e traficantes tomaram conta de cada metro quadrado de exclusão. Transformaram populações inteiras em refém.
Caminhões de entrega de alimentos e de eletrodomésticos só ingressam em muitos dos bairros do Grande ABC mediante sinalização codificada de subalternos dos líderes da bandidagem. A diferença dos últimos tempos é que agora assaltantes e traficantes descem o morro com mais frequência. Não há reduto de classe média que não esteja sobressaltado.
ROMBO NO MARKETING
O Parque dos Pássaros, bairro de classe média-alta de São Bernardo, já superou o estágio de assaltos, furtos e roubos. Chegou aos sequestros, típicos de quadrilhas de traficantes colombianos.
O rombo no marketing do Grande ABC provocado pelo mais recente incidente policial em bairros de São Bernardo -- e foram tantos que o antecederam, como o caso da Favela Naval -- exuma uma reflexão que poucos se atrevem a formular, porque não é politicamente correto. Trata-se da insofismável avaliação de que a imagem institucional da região vive provavelmente um de seus momentos mais agudamente sofríveis.
Não bastasse todo o acúmulo de dificuldades que colocam o Grande ABC como periferia da Capital, agora se tem, definitivamente, a face da criminalidade como contraponto a um sindicalismo nem sempre bem entendido, nem sempre maduro, mas reformador de costumes trabalhistas e políticos e, pelo menos, de forte impacto positivo junto à intelectualidade formadora de opinião.
EFEITOS COMBINADOS
Mais polícia nas ruas do Grande ABC vai ter efeito terapêutico importante, como comprovam as estatísticas. Diadema, por exemplo, está conseguindo diminuir a incidência de assassinatos depois que a Polícia Militar passou a colocar mais homens, veículos e equipamentos em áreas de maior risco.
No primeiro semestre deste ano houve queda de 28% no número de homicídios. Em relação ao mesmo período do ano passado, houve 54 assassinatos a menos este ano. Mesmo assim, 140 corpos tombados em seis meses é um número extravagante. Seriam 280 mortes em 12 meses. Ou perto de 90 homicídios para cada grupo de 100 mil habitantes. Quase quatro vezes a média nacional.
O problema é que só policiamento nas ruas não resolve. A violência no Grande ABC, como em todas as regiões metropolitanas, é sistêmica. Deriva principalmente dos efeitos combinados de globalização econômica recente e administradores públicos inconsequentes ao longo de décadas. Mais do que qualquer outra região do País, o Grande ABC sofre fundo com as transformações macroeconômicas.
REESTRUTURAÇÃO PRODUTIVA
Nenhuma outra área econômica de tanta densidade populacional acusou tantos golpes de reestruturação produtiva, porque a indústria automotiva e de autopeças foi duramente colocada à prova internacional.
Dezenas de milhares de empregos industriais desapareceram no ritmo da competitividade. Além das contrações industriais, o comércio foi invadido por grandes empreendimentos sem que nenhuma autoridade pública ousou projetar e enfrentar o impacto da concentração dos negócios gigantes nos estabelecimentos familiares de subsistência.
O pior de tudo é que ainda não se chegou ao fundo do poço de rebaixamento da qualidade de vida. A reestruturação operacional das indústrias da região não terminou. Ainda há muita água para correr sob a ponte da mundialização dos negócios industriais. A queda do potencial de consumo da região na década de 1990 não chegou a 21,5% por obra do Espírito Santo. O refluxo do poderio industrial oferece o contraponto do debilitamento social.
CRIMINALIDADE CRESCENTE
A criminalidade no Grande ABC vive escalada crescente. Já houve final de semana em que 27 vidas desapareceram -- um recorde histórico. Chacinas antes raras fazem parte do noticiário policial. Roubo de veículos -- isto é, com a presença do motorista -- teve crescimento de 42,5% no ano passado em relação ao mesmo período do ano anterior. Foram 29.174 veículos roubados. O número de furtos -- ação praticada sem a presença do proprietário -- também cresceu na região, com 22.625 registros.
Um dos pontos negros do genoma da criminalidade viária do Grande ABC é a Avenida Lions, transformada em corredor do medo. O trecho do Anel Viário é o preferido pelos assaltantes.
A violência não é, evidentemente, ônus exclusivo do Grande ABC. Tanto que nos últimos 20 anos o número de homicídios no País aumentou 273%, sete vezes mais do que o percentual de crescimento da população brasileira, de 37% entre 1979 e 1998. Houve, nesse período, 515.986 pessoas assassinadas. Quase uma Santo André inteira de cadáveres e o equivalente à população do Acre.
DADOS GERAIS
A estatística, da Secretaria Nacional de Segurança Pública, registra 11.194 casos de homicídios em 1979, contra 41.802 em 1998. Há aumento médio anual de 1,5 mil crimes.
No Grande ABC, segundo dados da Polícia Militar, o número de homicídios aumentou 42% entre 1995 e 1998. De 788 assassinatos em 1995, atingiu 1.119 em 1998. Número extraoficial do fechamento de balanço de 1999 aponta 1.250 mortes. Um salto de quase 70% nos últimos cinco anos.
A falta de preparo e o número reduzido de policiais são faces da mesma moeda para o entendimento da equação da criminalidade. Também faltam equipamentos, logística e melhores salários.
Mas no fundo o que pesa mesmo é o subdesenvolvimento. PIB e criminalidade correm na mesma raia. O aumento de um ponto percentual no Índice Gini, um dos principais indicadores usados na medição da concentração de renda, eleva em 3,7% o número de homicídios e em 4,3% o de roubos.
PIB E CRIME
Recente estudo do Bird (Banco Mundial) conclui que o aumento de um ponto percentual do Produto Interno Bruto reduz, a curto prazo, em até 2,4% o número de homicídios e em 13,7% o de roubos. "O impacto negativo do crescimento do PIB nas taxas de crimes violentos indica que a incidência de crimes é contracíclica e que a atividade econômica estagnada reforça a atividade criminal" -- afirma o trabalho elaborado sob coordenação do economista Daniel Lederman, do Bird, e dos pesquisadores Pablo Fanjzylber, da Universidade Federal de Minas, e Norman Loayza, do Banco Central do Chile.
Como se observa, não há nada de acidental entre o tobogã econômico do Grande ABC e o alpinismo criminal. Até quando as questões envolvendo a economia regional vão estar em segundo plano na pauta dos administradores públicos?
TERCEIRA MATÉRIA
O assassinato de Celso Daniel em 2002 e os efeitos matemáticos na área criminal foram analisados de forma inédita por este jornalista na edição de 8 de fevereiro de 2011 desta revista digital sob o título “Quase 50 mil vidas poupadas após a morte do prefeito Celso Daniel”. Acompanhem:
A Imprensa desmemoriada não associa as repercussões nacionais e internacionais do assassinato do prefeito Celso Daniel em janeiro de 2002 ao rebaixamento drástico de casos de homicídios dolosos no Estado de São Paulo, inclusive no Grande ABC, a partir de então. Trata-se de amnésia causada pelo sucateamento das redações e pelo fastfoodiano método de produzir notícias burocráticas, subestimando-se a inteligência dos leitores com produtos pobres em análises, pesquisas e massa cinzenta.
Tendo-se como referência 2001 — quando Celso Daniel ainda vivia — e chegando a 2010 recém-encerrado, contabilizamos exatamente 49.401 vidas poupadas por conta da reação ao escândalo da falta de segurança pública entre os paulistas naquele período de empobrecimento escandaloso da Região Metropolitana de São Paulo. Tempos de abertura econômica desastrada, de juros elevadíssimos, de guerra fiscal e muito mais. Tempos de uma metrópole entregue às baratas.
BUCHA DE CANHÃO
Celso Daniel também serviu de bucha de canhão para uma das manobras mais mesquinhas da história da criminalidade nacional, ou seja, a busca desesperada de um bode expiatório, no caso Sérgio Gomes da Silva, pautado pelo Ministério Público como mandante do assassinato.
Ao final deste texto os leitores terão a oportunidade de verificar um dos muitos trabalhos que realizamos à frente da revista LivreMercado. Naquela edição de maio de 1999 — portanto, já se passaram praticamente 11 anos — ouvimos o que era de mais importante no setor de Segurança Pública no Grande ABC, no caso o coronel Roberto Nogueira, titular do 6º Comando de Policiamento de Área-6 da Polícia Militar, com atuação nos sete municípios do Grande ABC, e os delegados seccionais de Santo André, João Gilberto Pacífico, e de São Bernardo, Pedro José Liberal, responsáveis pela Polícia Civil. Menos de dois anos após aquela entrevista, Celso Daniel estava morto. Uma morte comprovadamente de ocasião, como tantas outras.
TERRA SEM LEI
A leitura daquela entrevista é obrigatória para quem pretende entender o caso Celso Daniel. A Grande São Paulo era uma terra sem lei. Sequestros abundavam. O prestígio da cúpula da Segurança Pública do Estado escorria pelos ralos do descrédito. Viviam-se situações de tensão. Até que veio o assassinato de Celso Daniel, marco zero no restabelecimento da lei e da ordem não só na Grande São Paulo, mas em todo o Estado.
Os índices de criminalidade foram reduzidos drasticamente. Ainda estão um pouco acima dos níveis internacionais de civilidade, mas houve avanços consideráveis.
O governador Geraldo Alckmin é responsável pela ação desencadeada no dia seguinte ao sepultamento de Celso Daniel. A comoção nacional determinou mudança havia muito solicitada pela cúpula da Polícia Civil e da Polícia Militar do Estado. O PT não desperdiçou a oportunidade política e eleitoral ao partidarizar o assassinato de uma de suas maiores estrelas. Com isso, abriu uma vereda imensa ao contragolpe tucano de imputação do caso a possíveis propinas na administração municipal em Santo André. O resto da história todo mundo conhece. O que era um crime comum, virou crime de encomenda.
REPRESÁLIA PETISTA
Vejam o que disse a então prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, indignada com o sequestro:
A Capital chegou no limite de tolerar, de conviver com essa onda de violência e sequestro. Providências mais sérias têm de ser tomadas. O governador Geraldo Alckmin tem de agir. Ninguém aguenta mais, desabafou Marta, em Santo André, num texto publicado pelo Estadão.
O governador Alckmin não quis rebater as afirmações da petista: “Não vou fazer debate político sobre isso, afirmou em Barretos, no Interior do Estado, à tarde, ao afirmar que estava em contato permanente com o secretário de Segurança Pública, Marco Vinício Petrelluzzi, naquela tarde de sábado, 19 de janeiro de 2002. O corpo de Celso Daniel foi encontrado na manhã seguinte em Juquitiba, na Grande São Paulo.
SECRETÁRIO DEFENESTRADO
O secretário Marco Vinício Petrelluzzi, nomeado em fevereiro de 1999 pelo então governador Mario Covas, não agradava às forças policiais. As tropas estavam desaparelhadas, os soldos seguiam ritual ofensivo às responsabilidades funcionais e à qualidade de vida do efetivo, mas a contrapartida a eventuais excessos nos embates com facções criminosas era extremamente desestimulante.
A demissão de Marco Vinício Petrelluzzi pelo governador Geraldo Alckmin, candidato à reeleição, foi apenas uma face da moeda da reviravolta da política de Segurança Pública do governado do Estado. Petrelluzzi foi substituído pelo implacável promotor público Saulo de Castro Abreu Filho. Adeus política de Direitos Humanos. É verdade que colaborou para a queda dos casos de homicídios e sequestros, entre outras iniciativas, o acordo entre facções criminosos e policiais civis e militares de preservação das cidadelas de tráfico de entorpecentes.
CONTAGEM DE MORTOS
A contabilidade que permitiu chegar ao total de 49.401 vidas poupadas desde o assassinato de Celso Daniel é simples. Começa com o total de homicídios em 2001 no Estado de São Paulo (exatamente 12.475). Mantido esse total em cada um dos nove anos subsequentes (os números avançavam ano a ano no Estado, mas fiquemos com a estabilização), chegaríamos a 112.275 casos registrados. Como houve o efeito Celso Daniel, durante todos os demais anos que se seguiram, até 2010, os homicídios caíram drasticamente no Estado. Nesse período, foram assassinadas 62.874 pessoas. A diferença entre a projeção e os registros (112.275 menos 62.874) é de 49.401.
Já quanto ao Grande ABC, que registrou 949 assassinatos em 2001, a conta de 5.093 vidas poupadas segue a mesma linha. Seriam 8.541 homicídios nos nove anos seguintes, ante 3.448 de fato ocorridos. Uma queda de 60%.
QUARTA MATÉRIA
E chegamos à edição de 23 de março de 2022 desta revista digital. Sob o título “Morte matada cai na região; Diadema é o melhor exemplo”, avaliamos a situação criminal no Grande ABC que, nos últimos anos, melhorou ainda mais quando, sempre, se tem o número de homicídios como referencia principal. Acompanhem:
O melhor do Grande ABC neste século que já invadiu duas décadas poderia estar no campo da produção de riqueza e retomada da mobilidade social, almas gêmeas da pátria chamada Desenvolvimento Econômico Sustentável, mas não está. Não está é força de expressão. Longe está de estar.
O melhor do Grande ABC neste 2022, quando se olha retrospectivamente para o começo do século, está na esfera criminal. A morte de Celso Daniel e o consequente abandono de um processo de negligência estatal estão na raiz das explicações. Vocês vão entender.
Para o leitor entender a manchetíssima do dia, é preciso explicar que o indicador mais garantidamente qualificador de melhoria no ambiente criminal (embora não seja soberano a ponto de dissipar a desconfiança e a segurança psicossocial da população) é o que registra crimes de homicídios, ou seja, quando há intenção de matar.
É o que costumo chamar de morte matada, porque morte matada geralmente está fora da agenda do dia da vítima letal.
TIPOS DE MORTE
Ninguém vai a um pet shop, por exemplo, esperando que ao invés de apanhar suas cachorras leve um tiro na cara. Isso é, portanto, morte matada, se a vítima morre de fato. Se não morrer é uma outra modalidade, que chamo de morte não consumada. Que é diferente de tentativa de assassinato. Pelo menos para quem sobrevive.
Morte morrida de alguma forma, conforme as comorbidades, é uma morte esperada, morte de expectativa, embora sempre indesejável.
Também é morte matada estar num boteco qualquer, altas horas da noite, encher a cara e dar de cara com quem também encheu a cara e os dois que encheram a cara se estranharem e, um deles, saca a faca ou o revolver e agride com letalidade. Morte matada é isso, portanto.
Há quem não se conforme com a morte morrida que se aproxima e recorre ao expediente da eutanásia. O quase nonagenário Alain Dellon não encara a velhice com as consequências compulsórias da velhice e, depois de viver uma vida intensamente gloriosa, recorre a inapelável pedido de morte assistida. Aí é outra história, outro departamento.
SITUAÇÃO GRAVÍSSIMA
Mas vamos ao que interessa. Morte matada era fluvial no Grande ABC em 2001, começo deste século. Anos anteriores ainda mais, mas em 2001 continuava a ser.
A insegurança pública era a marca regional, em sintonia com uma crise econômica que nos anos 1990, principalmente após o Plano Real e durante o governo Fernando Henrique Cardoso, retirou um terço do Valor Adicionado dos sete municípios. Uma catástrofe desafiadora.
Morte matada, portanto, era a grande chaga regional. Tanto é verdade que em 2002, logo após o assassinato de Celso Daniel, em 16 de abril, lancei o livro “Complexo de Gata Borralheira”, e um dos personagens da trama era justamente a violência. Afinal, tratava-se de homenagem ao maior gestor público regional que o Grande ABC já conheceu – e, lamentavelmente, único.
Pois foi Celso Daniel, sacrificado por sequestradores pés de chinelo, o agente da motivação principal, básica, da grande reviravolta no mapa de criminalidade do Grande ABC e do Estado de São Paulo como um todo.
POLÍTICA LINHA-DURA
Logo em seguida à morte do prefeito de Santo André, e com a troca do comando da Secretaria de Segurança Pública, o governador Geraldo Alckmin impôs política de linha-dura aos criminosos, apesar dos pesares de derivativos que incrementaram facções criminosas.
A política de Direitos Humanos herdada de Mario Covas, morto em 2001, foi para o beleleu. Resultado? Drástica redução do indicador principal da temperatura do ambiente criminal no Estado. Os homicídios desabaram.
Se a economia do Grande ABC seguisse as pegadas de eficiência estatística do mapa de criminalidade da região e do Estado, não estaríamos contabilizando neste século uma derrocada monumental. Não estaríamos nos últimos lugares no ranking do G-22, o Clube dos Municípios Mais Importantes do Estado.
PREPARE-SE AOS DADOS
Vamos aos dados, então? A nova geração social consumidora de informação não tem ideia do que se registrou no Grande ABC em 2001, ano anterior ao assassinato de Celso Daniel. Foram 948 assassinatos nos sete municípios. Querem saber quantos foram os mortos de mortes matadas no ano passado?
Antes de revelar quantos morreram de morte matada no ano passado, graças sobretudo às ações do governo do Estado também descuidado na Economia, sugiro aos leitores que façam uma especulação. Que tipo de especulação? Ora, se morreram de morte matada quase mil pessoas em 2001, com o acréscimo de quase 500 mil moradoras da região em 20 anos, teríamos, então, quantas mortes matadas?
Chega de segredo e de suspense: foram exatamente 95 assassinatos. Vou repetir: 95 assassinatos. Tradução: foram assassinados na região em 2021 apenas 10% do total de assassinatos na região no começo do século. É verdade que as 95 mortes matadas no ano passado poderiam ser 96, mas há sempre um milagre a espreitar os injustiçados, não é verdade?
CORTE GERAL NO ESTADO
No Estado de São Paulo como um todo os dados também são significativamente positivos. Em 2001, foram assassinadas 12.475 pessoas, ou 33,13 para cada grupo de 100 mil habitantes. Em 2021, ano passado, morreram de morte matada no Estado de São Paulo 2.713, ou seja 6,04 para cada grupo de 100 mil habitantes.
Num balanço rápido sobre o comportamento individual dos municípios da região neste século no quesito morte matada, Diadema ocupa a primeira colocação na relativização dos números: reduziu a 102,82 para apenas 2,96 assassinatos para cada grupo de 100 mil moradores. Foram 237 mortes matadas em 2001 ante 12 no ano passado.
O melhor resultado no sentido pragmático da estatística é o de São Caetano que, ano passado, contabilizou apenas dois casos letais, o que representou 1,32 para cada 100 mil habitantes. Em 2001 os 20 assassinatos representaram 12,01 por 100 mil habitantes. Já imaginaram se o resultado fosse repetido nas estatísticas do Coronavírus, que fez de São Caetano moradia permanente?
MAIS RESULTADOS
Mauá e São Bernardo tiveram resultados semelhantes: em Mauá foram assassinadas no ano passado 15 pessoas, ante 184 em 2001. O índice de Mauá é de 3,24 mortes por 100 mil habitantes, ante 51,94 no começo do século. Com índice de 3,56 por 100 mil habitantes, São Bernardo acumulou ano passado, 29 assassinatos. Bem menos que os 264 de 2001, que representaram índice de 51,19 por 100 mil habitantes.
Santo André e Ribeirão Pires completam a relação. Em Santo André, ano passado, foram assassinadas 30 pessoas, ante 213 em 2001. Resultado? Índice de 4,32 para cada 100 mil habitantes, ante 39,43 do ano de 2001.
Em Ribeirão Pires foram sete mortes matadas no ano passado, ante 22 em 2001. O índice por 100 mil habitantes caiu de 22,55 para 5,87. Rio Grande da Serra registrou apenas uma morte no ano passado e não entra no cálculo por 100 mil habitantes. Em 2001 foram oito assassinatos.
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31/07/2026 ARCA DE NOÉ CONTRA O GATABORRALHEIRISMO (18)