Política

PAULINHO EXAGERA
NA AMBIÇÃO ELEITORAL

DANIEL LIMA - 15/09/2026

Paulinho Serra é um rodízio permanente de trapalhadas políticas.  Se fosse um rodízio de carne, engrossaria a lista de Recuperação Judicial. Qualquer outro tipo de rodízio teria o mesmo destino. Resta saber se o rodízio político de Paulinho Serra será diferente de uma tragédia ou ele se consagrará gênio da lâmpada eleitoral.

Para que o leitor tenha ideia do ponto a que chegou, Mario Covas Neto quer ver Paulinho Serra fora do PSDB de Mario Covas e de tantas outras lideranças estaduais e nacionais que deram personalidade à agremiação como símbolo democrático.

Não tenho a menor ideia da viabilidade da proposta do neto do ex-governador paulista, mas os efeitos reputacionais à candidatura de Paulinho Serra a deputado federal possivelmente se espalharão como ervas daninhas.

A questão-chave que envolve o ex-prefeito bom de voto e ruim de governo é que a disputa por uma vaga de deputado federal em outubro próximo é apenas pretexto estratégico para chegar ao que Paulinho Serra obcecadamente já expôs (e a mulher, dona Carolina também) com a frieza de quem se acha ungido pelo destino.

ENSAIO À PREFEITURA

Paulinho Serra faz da corrida a deputado federal um ensaio geral a candidatura incontestável ao Paço Municipal nas eleições de 2028. Talvez por isso continue a subestimar o prefeito Gilvan Ferreira, que, equilibrado emocionalmente, discreto, resolutivo, vem-se mostrando muito mais qualificado que o antecessor.

Os marqueteiros de Paulinho Serra são os mesmos que o colocaram como suprassumo do Executivo de Santo André neste século. Eles têm o desenho completo da cidade e sabem ou supostamente saberiam o que é melhor para Paulinho Serra voltar ao cargo em janeiro de 2029. Só falta combinar com a realidade, que, por ser realidade, não pode ser confundida com o passado, mesmo o passado recente.

O plano para tornar Paulinho Serra de novo prefeito de Santo André após apenas um intervalo para os comerciais de Gilvan Ferreira é sair das urnas locais com votação estrondosa à Câmara Federal.

Os mais entusiastas correligionários de Paulinho Serra chegam a arriscar algo como 200 mil votos em Santo André. Outros, menos empolgados, optam por algo como 150 mil votos. Ou um quarto do total de eleitores. Entretanto,  já há rumores de que, diante de tantas trapalhadas, 120 mil votos seriam suficientes para assustar o grupo de Gilvan Ferreira. Talvez o sarrafo venha a passar por nova quebra de expectativa. Difícil seria sustentar a ideia de que cada voto destinado a Paulinho Serra de pretensa estrondosa votação agora é voto garantido a Paulinho Serra em 2028.

SONINHA ATROPELADA

Seja qual for o total de votos nesta temporada, a missão do grupo de Paulinho Serra está delineada. E por estar delineada, será levada adiante de qualquer forma. O atropelamento da candidatura de Soninha Francine, numa traição partidária que Mario Covas Neto condena publicamente, é apenas um detalhe. Contar com as companhias de André do Prado e Guilherme Derrite, concorrentes à direita por São Paulo ao Senado, daria reforço e tanto à corrida de Paulinho Serra à Câmara Federal. E o faria ainda mais forte para 2028 em Santo André.

Os marqueteiros de Paulinho Serra que prepararam essa lambança partidária demonstraram reconhecida habilidade eleitoral. Mas talvez tenham se excedido na expectativa de que não existiria do outro lado do lado de todas as variáveis eleitorais quem tivesse cabeça razoavelmente apetrechada para indignar-se. Desta vez foi Mario Covas Neto. E as repercussões são péssimas tanto na classe politica quanto no eleitorado mais atento. Muitas lambanças que poderiam passar sem mover um voto sequer viram estragos monumentais.

Embora se deva reconhecer que a jogada com os candidatos da direita ao Senado é mesmo um golpe de mestre para elevar o potencial de votos de Paulinho Serra, há contraponto que poderá tornar o capital eleitoral do prefeito às eleições municipais de 2028 menos genuinamente fruto de propriedade individual.

MISTURANDO AS BOLAS

Paulinho Serra candidato a deputado federal sem apadrinhamentos e sem companhias estranhas aos eleitores de Santo André, como são a dupla de concorrentes ao Senado ao qual se juntou, esse Paulinho Serra é uma coisa. Outra coisa é Paulinho Serra como integrante de uma cola eleitoral impressa ou mesmo apenas na memória dos eleitores como voto dependente dos concorrentes ao Senado.

O que quero dizer é que o prestígio popular de Paulinho Serra em qualquer situação quantitativa de votos perderá muito da musculatura avaliativa com o novo desenho da cédula eleitoral informal. O que se pergunta é se Paulinho Serra e seus marqueteiros teriam cometido o equívoco de ganharem no curto prazo e perderem mais adiante. A candidatura a deputado federal que deveria lubrificar a candidatura a prefeito teria efeito contrário também sob o ângulo eleitoral restrito, além da já deflagrada promiscuidade política que fez também das lideranças do Cidadania revoltosos confessos?

DISSIDENTES LOCAIS

Que o diga o presidente da agremiação, deputado federal Alex Manente, até outro dia muito próximo de Paulinho Serra. E que de próximo parece não ter mais nada, juntando-se aos candidatos a deputado estadual Luiz Zacaria e Bahia do Lava-Rápido, também dissidentes de Paulinho Serra.

Paulinho Serra e seus marqueteiros ganhariam no curto prazo, outubro próximo, ao se acreditar no adicional de votação em caso de propagação popular de que as duas candidaturas ligadas ao governo do Estados seriam compreendidas pelo eleitorado como casamento perfeito. Mas perderiam, agora com vistas a outubro de 2028, de eleições municipais, porque os dados do acasalamento desta temporada seriam maculados pela quebra da individualidade de prestígio popular em favor de uma chapa informal sem a intimidade do municipalismo próprio de disputas locais.

A medida pronto-socorrista de levar a candidatura de Paulinho Serra como apêndice dos dois concorrentes ao Senado seria mesmo gol de placa eleitoral, porque de fato reforçaria a candidatura do ex-prefeito, mas é, ao mesmo tempo, uma prova provada das repercussões das lambanças do grupo até outro dia situacionista em Santo André.

Como assim? Basta verificar o painel de controle de Paulinho Serra após completar oito anos de governo – bom de voto para valer – e, em contraponto, menos de 24 meses depois,  atentar às mudanças que o remeteram a um desgaste em todas as torres trigêmeas – de Poder Político, de Poder junto aos formadores de opinião e do Poder do assistencialismo da periferia.

EXCESSO DE APETITE

O fio condutor do rebaixamento do capital político de Paulinho Serra nesse período a ponto de virar cabo eleitoral de terceiros é o excesso de ambição eleitoral identificado em várias fontes, entre as quais o desprezo a vários companheiros do grupo então monolítico do poder polÍtico em Santo André.

Fruto desse agrupamento, depois de uma carreira sofrível como vereador e secretário de Mobilidade Urbana do prefeito petista Carlos Grana, Paulinho Serra é acusado de autoritarismo, arrogância e deslumbramento após ter chegado aonde chegou, inclusive como presidente estadual do PSDB, mesmo com o PSDB em desmanche inexorável.

Ainda não faltam possibilidades de que Paulinho Serra e seus marqueteiros compreendam que não valeria a pena no futuro que sempre chega manter o ritmo individualista do presente que se torna cada vez mais nebuloso. O custo-benefício não valeria a pena.

BATALHA INDIGESTA

Entenda-se custo-benefício o resultado final de uma disputa que começa com o que Paulinho Serra dispunha de potencial de votos para deputado federal sem atropelar a cronologia de possíveis dois mandatos de Gilvan Ferreira e o que Paulinho Serra teria com a abertura das urnas parlamentares em outubro próximo.

No primeiro cenário, de parceria com o Paço Municipal, tanto Paulinho Serra quanto Carolina Serra, que disputa a reeleição à Assembleia Legitima, teriam o respaldo da máquina pública e teriam mandatos parlamentares concentrados em tudo que se relacionasse a Santo André, principalmente.

Agora a perspectiva é de que sem a máquina pública, sem a aprovação acrítica da classe média e sem o monopólio nas periferias de programas públicos municipais,  Paulinho S

Serra e Carolina Serra encontrarão barreiras ao pretendido gigantismo de votos. Com isso, teriam em outubro de 2028, especialmente Paulinho Serra, uma batalha local indigesta diante de um Gilvan Ferreira que parece trilhar algo mais consistente que o antecessor, na forma de bom de voto, bom de governo.

CAVALO DE TRÓIA

Procurei com esse texto ser o mais didático possível, porque as veredas de um dos trechos mais importantes da vida política em Santo André não guardam relações hitchcockianas.  O que temos são encaminhamentos estupidamente concorrenciais que os próprios então situacionistas liderados por Paulinho Serra e seus marqueteiros decidiram patrocinar, à falta de oposição de verdade. Como se sabe, o PT de Santo André há muito foi para o beleleu.

Aliás, foi para o beleleu desde que, ou principalmente, permitiu que o conservador Paulinho Serra virasse secretário de Carlos Grana e, em seguida, confirmasse a condição de infiltrado e se colocasse como candidato à sucessão, vitória garantida pelo desastre chamado Dilma Rousseff.

Não parece que a história vai se repetir tendo como base os infiltrados de Paulinho Serra na gestão de Gilvan Ferreira. Antes ou imediatamente após as eleições de outubro é provável que o espectro de Cavalo de Tróia finalmente se dissolva em Santo André.

Resta saber se, desgastado, Paulinho Serra não lançaria mão de parceria do próprio PT decadente para votar à cena política. A elasticidade prática de Paulinho Serra não pode ser subestimada.



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