Administração Pública

GILVAN VAI RESGATAR
CALÇADÃO DE CELSO

DANIEL LIMA - 17/09/2026

O prefeito Gilvan Ferreira era um pré-adolescente em 2002 quando Celso Daniel foi assassinado. Agora como prefeito da mesma  Santo André que não esquece de Celso Daniel, Gilvan Ferreira vai completar uma obra que Celso Daniel planejou, executou e deixou de herança, mas incompleta: o Calçadão da Oliveira Lima, corredor comercial mais charmoso e popular do Grande ABC, vai contar com o restante da cobertura.  Trata-se, como se verá em seguida, de um desafio imenso que, entre outras medidas, deverá preservar o conteúdo artístico com que foi concebido.

A proposta está incluída no plano de Gilvan Ferreira para revitalizar o Centro de Santo André. O Calçadão da Oliveira Lima é a coronária logística que faz bater resilientemente o comércio físico  do Centro de Santo André, desafiado a cada dia com a avalanche dos negócios de comércio eletrônico. No passado, que ainda é presente, o desembarque de shopping centers virou o comércio de rua do avesso.

Quase 30 anos depois de o Calçadão da Oliveira Lima ganhar  personalidade visual com fortes pitadas de arte, a Administração de Gilvan Ferreira está ouvindo opiniões de moradores, comerciantes, trabalhadores e tudo que se refere a consumidores e frequentadores. O projeto não se limitará ao amplo corredor da Oliveira Lima, porque o corredor da Oliveira Lima é elástico. Vai muito além de uma passarela de negócios em si. A vitalidade econômica da Oliveira Lima pode ser dimensionada pelo entorno.

FORÇA-TAREFA

Essa percepção de expansionismo comercial levou a gestão de Gilvan Ferreira a criar uma força-tarefa para redesenhar o futuro do Centro de Santo André primeiramente voltado às necessidades de equipamentos públicos. Nada que tenha sido feito para valer desde a morte de Celso Daniel.

Recuperar, adaptar e aperfeiçoar ideias, projetos e obras de Celso Daniel voltados ao Centro de Santo André faz de Gilvan Ferreira um prefeito completamente diferente dos antecessores. O vezo partidário e ideológico, ou mesmo a preguiça e a acomodação, estão deliberadamente descartados.

Gilvan Ferreira dinamita uma dupla barreira ao retroceder no tempo e se encontrar com legados de Celso Daniel. Primeiro, não  faz pouco-caso defensivo com medo de comparações, prática comum dos antecessores. Segundo, faz questão de tomar iniciativas que busquem no passado, como é o caso do Centro de Santo André, medidas que corrijam a rota do tempo que desafia o futuro que sempre chega.

SEM ESTRARDALHAÇO

Gilvan Ferreira não quer estardalhaços sobre o que viria após a consulta popular, mas é certo que transformações no Centro de Santo André vão ganhar tração sintonizada com as condições orçamentárias da Administração.

Veja o que o prefeito disse hoje em reportagem do Diário do Grande ABC sobre os planos para o Centro de Santo André:

 O Centro é uma região estratégica para Santo André e faz parte da história e da vida de milhares de pessoas todos os dias. Por isso, queremos pensar em uma nova configuração para esse espaço, mais moderna, acessível, arborizada, agradável e preparadas para as necessidades atuais da população. E esse processo precisa ser construído ouvindo quem vive, trabalha e circula pelo Centro – disse Gilvan Ferreira.

CONSULTA DEMOCRÁTICA

O projeto preparado pela Prefeitura coloca várias prioridades como objetivos relacionados às mudanças essenciais. Mobilidade, acessibilidade, paisagismo, condições das calçadas, iluminação, áreas de convivência, conforto urbano e valorização do comércio e dos espaços públicos. Tudo isso não é pouca coisa. O contexto, fruto de transformações sociais, econômicas e tecnológicas, torna a perspectiva da Administração um espetacular feixe de desafios.

A consulta popular é uma estratégia que democratiza os anseios por um Calçadão da Oliveira Lima valorizado e terá peso considerável na definição e na complementariedade de iniciativas. A extensão da cobertura do Calçadão da Oliveira Lima é observada como a pedra de toque do projeto.

Há orgulho dos frequentadores da Oliveira Lima relacionado a  obra deixada por Celso Daniel. O charme e das intervenções do pintor, desenhista e escultor Luiz Sacilotto e do arquiteto Decio Tozzi impediu que o corredor se perdesse como um endereço qualquer  de comércio e serviços.

DOIS MUNDOS

E a Oliveira Lima, com cobertura parcial ou sem cobertura antes de Celso Daniel, e no futuro próximo com cobertura total, é muito mais que um corredor comercial.  Dois mundos territoriais de Santo André se encontram. O lado de cá e o lado de lá da linha de trem se juntam muito além do consumismo material. O encontro diário de milhares de frequentadores dá dimensão de integração social. A Santo André popular tem encontro diário no correr da Oliveira Lima.

O Calçadão da Oliveira Lima no interior do  Centro Comercial de Santo André é uma atração permanente tanto aos moradores de Vila Luzita quando da Vila Metalúrgica, que simbolizam a classe popular de consumo de Santo André em extremos do território de 180 quilômetros quadrados e quase 800 mil habitantes. Nada que sequer resvale no perfil de frequentadores de shoppings. A identidade popular de Santo André vai ao Centro de Santo André. Representantes populares de dois terços dos habitantes de Santo André percorrem diariamente o Calçadão da Oliveira Lima e vizinhança.

A abertura do programa de reconfiguração do Centro de Santo André vai exigir da força-tarefa do prefeito Gilvan Ferreira muito mais atenção do que no passado de quase 30 anos Celso Daniel imprimiu projeto  que teve o Calçadão da Oliveira Lima com cobertura o ponto de largada de uma obra inacabada. 

COMÉRCIO ELETRÔNICO

Agora nestes tempos de comércio eletrônico que fazem vítimas comerciais uma atrás da outra, possivelmente os gerenciadores do projeto do Centro de Santo André estarão atentos aos cenários econômicos que se desenham  no mundo dos negócios.

Por mais que a demanda por comércios e serviços presenciais resistam, porque nem tudo está concentrado no mundo digital e ramificações de aplicativos de entregas, a perspectiva é de mais quebra da dinâmica presencial.

Mas, a bem da verdade,  as formulações de crescimento e resistência dos negócios são atribuições dos próprios empreendedores. O que estaria fora da responsabilidade ou sob o incremento do setor seria mesmo série de intervenções públicas que ofereçam infraestrutura à melhoria do ambiente. O Centro de Santo André é um dos passivos que Gilvan Ferreira herdou de antecessores que fecharam os olhos ao deslocamento de consumo aos shoppings.

Seguem três reportagens/analises publicadas na revista de papel LivreMercado, antecessora de CapitalSocial, que tratam diretamente do Centro comercial de Santo André e especialmente do Calçadão da Oliveira Lima. Os textos têm, portanto, ampla relação com a proposta do prefeito Gilvan Ferreira. 

Comerciantes e

Prefeitura juntos

 DANIEL LIMA -- 05/10/1998 

A sonhada revitalização estrutural e econômica do Centro de Santo André começa a ganhar contornos de realidade  com o encerramento da primeira etapa das obras antienchentes, problema antigo encarado como um dos principais desafios da administração do prefeito Celso Daniel. Porém, o Projeto Centro, que vai consumir investimentos acima de R$ 22 milhões da Prefeitura Municipal, não se limita à primeira etapa das obras de drenagem dos córregos centrais Carapetuba e Cemitério, além da ampliação da capacidade de retenção de águas dos lagos do Parque Central, o  que reduz a vazão e a possibilidade de alagamentos na Avenida Ramiro Colleoni.

A partir de agora, o próximo passo é sempre o mais importante para que o comércio de rua volte a crescer. É o que demonstram os representantes  do Poder Público e dos lojistas da SOL (Sociedade Oliveira Lima e Região).

ENCONTRO NO HABIBS

Reurbanização da área, mudança do sistema viário, criação de pelo menos mais 650 vagas de estacionamento, além  de cuidados especiais com segurança, iluminação, limpeza e implemento de projetos culturais e sociais fazem parte da sequência de passos do projeto que prega a modernização da tradicional Oliveira Lima e ruas adjacentes.

No ato de entrega oficial da primeira etapa das obras de drenagem, iniciada em 2 de fevereiro e encerrada no final de setembro, o Habibs da Oliveira Lima recebeu quase todo o secretariado municipal, além de lojistas e dirigentes da SOL e do presidente da Acisa (Associação Comercial e Industrial de Santo André), Saul Gelman. 

Para Flávio Martins, presidente da SOL, a parceria com a Prefeitura é relevante. "As obras de infra-estrutura da Administração Municipal são importantíssimas. Mas não basta a Prefeitura realizar obras. O lojista precisa participar ativamente para transformar o Centro, para que a Oliveira Lima mantenha a tradição aliada à modernidade, num ambiente agradável e seguro para o consumidor" -- afirma Flávio Martins. 

RADIOGRAFIA DO CORREDOR

Recente pesquisa da  SOL detectou que é de 81 mil/dia o público médio circulante no Calçadão da Oliveira Lima, o que dá 6.780 pessoas por hora ou 113 por minuto. Em relação a 1997 o total, composto por 63% de mulheres, representa redução de 12,6%. "Queremos um Centro bonito, limpo e atraente e uma Oliveira Lima que volte a receber perto de 150 mil pessoas por dia, como há alguns anos. Temos potencial para isso e não adianta lamentar ou querer definir a real vocação da rua. A globalização mudou tudo e temos de  buscar soluções. É esse o primeiro passo para receber o consumidor de volta com a fluidez que o espaço comporta, já que é um dos mais importantes do Grande ABC" -- sublinha.

O item segurança também foi enfatizado pelo presidente da SOL e pelo presidente da Acisa e reconhecido como calcanhar de Aquiles pelo secretário de Serviços Municipais, Klinger Luiz de Oliveira Sousa: "A segurança é problema antigo, de difícil solução. Há muita troca no comando policial e não estamos conseguindo acertar o passo. A Prefeitura tem pouca governabilidade sobre o assunto, mas há necessidade de interferir. Não podemos nos esconder" -- justifica Klinger de Oliveira, deixando transparecer a possibilidade de parceria entre Prefeitura e lojistas para que ocorra policiamento mais ostensivo da Guarda Municipal.

NOVOS EMPREENDEDORES

O secretário vê outro problema crucial, de natureza postural e econômica. "Não é só urbanizar. Precisamos de atitudes e movimentos vigorosos para buscar novos empreendedores. Temos o que oferecer. O Projeto Centro  é  muito mais do que isso. Depende da participação de todos e vai representar requalificação do Centro. Além do sistema de drenagem operacionalizado pelo Semasa, teremos remodelação do sistema viário. Vamos modernizar piso, iluminação e mobiliário do Centro, incluindo o entorno da Praça do Carmo. Também construiremos passarelas em frente ao Américo Brasiliense e na Perimetral e vamos reurbanizar a Bernardino de Campos, que ganhará nova iluminação" --  enumera.

Do Projeto Centro consta ainda para este ano a criação de estacionamento rotativo para 650 vagas no sistema de parquímetro eletrônico com tarifa  de R$ 0,80, a menor da região. "O mais importante é que a Prefeitura vai reverter os recursos para a qualificação dos serviços e para o Fundo Social. Vamos tirar as pessoas das ruas, principalmente as crianças" -- garante o secretário. 

Segundo o diretor-superintendente do Semasa, Maurício Mindrisz, a  segunda etapa das obras de drenagem  vai até dezembro. O conjunto de intervenções vai  representar gastos de R$ 7 milhões.  

SEGUNDA MATÉRIA

Pesquisa revela

estrago no Centro

 DA REDAÇÃO -- 05/04/2000 

Demoradas obras de revitalização, problemas no trânsito, chegada de novo shopping -- o ABC Plaza -- e fechamento de lojas tradicionais como Mesbla, Brasileiras, Americanas, Palácio dos Enfeites, Zoomp e Fórum, entre outras, aplicaram duro golpe no comércio da região central de Santo André. Pesquisa da SOL (Sociedade Oliveira Lima) em fase final de compilação revela que o público circulante caiu 40% em relação a 1998, quando registrava frequência de 80,8 mil pessoas por dia. Além disso, 25% dos espaços para negócios estão vagos e cada vez mais as classes populares se concentram como potenciais clientes. 

No levantamento realizado entre janeiro e março deste ano no trecho compreendido entre as ruas Elisa Flaquer e Monte Casseros, a SOL contabilizou circulação de 48 mil pessoas, praticamente o mesmo número que passa diariamente pelos shoppings ABC Plaza ou Metrópole, em São Bernardo, com muito menos lojas, de mix melhor distribuído e consumidores de maior potencial de compras.

A perda de brilho daquele que já foi considerado o principal centro comercial de rua do Grande ABC está expressa na concentração do público nas faixas de menor poder aquisitivo. Juntos, os consumidores das classes C (59%), D (19%) e E (6%) representam 84% das 48 mil pessoas que circulam diariamente no quadrilátero formado pelas ruas Bernardino de Campos, General Glicério, Luiz Pinto Flaquer e Justino Paixão, além do Calçadão Oliveira Lima, que formam a base da pesquisa.

PEQUENAS VARIAÇÕES

Os números apresentam ligeiras variações em relação a levantamento de 1998, mas mostram que o perfil do consumidor se manteve: 48% da frequência há dois anos era da classe C, 28% da D e 8% da E. Do total de público diário, 71% chegam ao Centro por meio de transporte público. Moradores de Santo André são maioria: 26% são do primeiro subdistrito e 23% do segundo.

O gerente de Marketing do Sincomércio (Sindicato do Comércio Varejista do ABC), Ricardo Fioravanti, acredita que para recuperar o poder de atração do Centro é preciso muito mais do que as obras de revitalização feitas pela Prefeitura, como a reforma e cobertura de parte do Calçadão, que deve ser entregue neste mês. Segundo Fioravanti, o passo principal é promover ampla readequação do mix de lojas aproveitando a ociosidade de aproximadamente 25 mil metros quadrados dos 75 mil que formam a área total de vendas da área nobre pesquisada.

LOJA-ÂNCORA

No caso específico do Calçadão, sobretudo no espaço coberto, a avaliação é de que somente o peso de uma loja que sirva de referência, a chamada âncora, será capaz de ajudar na recuperação de consumidores. A pesquisa da SOL mostra que o mix de lojas do entorno da Oliveira Lima é bastante pulverizado -- são 33 segmentos -, mas ao mesmo tempo apresenta deficiências e excessos na oferta de produtos. O local concentra 61 empreendimentos ligados à alimentação e 57 de moda feminina. No entanto, tem apenas sete lojas de roupa masculina.  

TERCEIRA MATÉRIA

Que solução para

a Oliveira Lima?

 VERA GUAZZELLI -- 05/11/2002 

O dilema shakespeariano do ser ou não ser poderia enriquecer o cenário do drama vivido pelo comércio da Oliveira Lima e região central de Santo André. Passados mais de dois anos da conclusão da cobertura e das obras de urbanização concebidas para trazer de volta o movimento dos bons tempos, o mais importante corredor comercial de rua do Grande ABC ainda patina em busca de identidade própria.

Sem ter se transformado num grande shopping a céu aberto, como apostavam os mais otimistas, o chamado Calçadão da Oliveira Lima enfrenta mais um final de ano com o desafio de sobreviver à queda do poder aquisitivo do comprador e de não sucumbir de vez ao canto da sereia dos shoppings centers e das grandes redes varejistas. 

O comércio do Calçadão continua com problema de foco. A rua que já teve o quarto maior tráfego de pedestres do País ainda não descobriu o que fazer institucionalmente para trazer de volta as 150 mil pessoas que atraía há duas décadas. Na última contagem feita pela Prefeitura, em 2000, o trânsito de pedestres havia baixado para 80 mil/dia. Apesar da ausência de novas estatísticas, não há indícios visuais nem na caixa registradora dos comerciantes de que a situação tenha melhorado.

GRANDE VAREJO

Diante do contexto estabelecido, parece perda de tempo procurar culpados. A Oliveira Lima precisa de solução. Já está provado que a chegada do grande varejo à região nocauteou quase de morte o comércio de rua e Santo André cometeu a inconsequência de acolher incondicionalmente esse pessoal.

Também é flagrante o empobrecimento da população, que viu escoar pelo ralo das transformações macroeconômicas conjugadas à ausência de políticas regionais praticamente 18 fábricas da General Motors em empregos industriais. Sem trabalho ou recolocadas em empregos com salário mais baixo, a população passou a comprar menos. E quando falta dinheiro no bolso, não existe mágica a curto prazo. 

"Seria fundamental que a Oliveira Lima encontrasse uma vocação" – sinaliza o secretário de Desenvolvimento Urbano, Irineu Bagnariolli Junior. “A Oliveira Lima tem potencial, mas precisa contar com a volta do consumidor" -- coloca o dedo na ferida Flávio Martins, presidente da Sol (Sociedade Oliveira Lima, entidade que agrega os lojistas da área).

MUITO INVESTIMENTO

As duas visões são convergentes porque aprofundam o leque de análises e tocam em pontos cruciais. A Prefeitura contabilizou R$ 14 milhões em investimentos na revitalização da área central desde 1997 e mesmo assim o Calçadão está distante do que sonham comerciantes e Poder Público. A cobertura só chega até a Praça do Carmo e não há dinheiro público para conclusão da obra, viável apenas por meio de parceria com a iniciativa privada.

Também se mostraram incipientes as medidas complementares que deveriam ajudar na atração de público. A segurança deixa a desejar, o trânsito não é dos melhores e as 2,8 mil vagas de estacionamento do entorno pertencem, na grande maioria, a empresas privadas que quase sempre cobram valores superiores aos dos shoppings.

ESPECIALIZAR E QUALIFICAR

 Se a Oliveira Lima precisa recuperar o poder de atração e a maquiagem, mesmo que parcial, se mostrou insuficiente, talvez tenha chegado o momento de mudar de atitude. Duas alternativas apontadas como viáveis para a efetiva recuperação da rua estariam na especialização ou na formação de mix de qualidade com preços mais atrativos para seduzir principalmente os públicos A e B que debandaram para os shoppings. 

Mas o desafio que fica no ar é como intervir na rua a ponto de gerenciar a instalação de novos negócios ou guiar a formação de pólos temáticos a exemplo da 25 de Março ou da Rua José Paulino? As duas ruas da Capital, famosas por venderem bugigangas de todas as espécies e roupas femininas, são exemplo emblemático de que o comércio de rua tem jeito desde que exista o atrativo. Nos dois casos, a variedade incontável de opções e os preços pra lá de convidativos compensam o trânsito caótico, as calçadas abarrotadas de gente, o empurra-empurra e até o preço exorbitante do estacionamento -- R$ de 8 a 10 a hora.

"A 25 de março é uma desordem, mas vive lotada" -- compara Irineu Bagnariolli. Obviamente, o secretário de Desenvolvimento Urbano não defende a transposição pura e simples do modelo paulistano para Santo André. O executivo público apenas usa o exemplo para mostrar que não é papel do Poder Público ir além da infraestrutura e que obras, isoladamente, são incapazes de desempenhar a função de tábua de salvação. "É preciso mais união" -- reforça.  

GESTÃO EMPRESARIAL

O aparente tom de retórica encontra eco do outro lado do balcão. Já há algum tempo a Sol cultiva a ideia de tornar-se a administradora oficial da rua e imprimir, de fato, conceitos empresariais no gerenciamento do comércio central. A proposta inicial é locar espaços para instalação de quiosques de flores, cafés, embalagens de presentes, sorvetes e atividades afins que inibam a ocupação irregular, como a recente invasão de barraquinhas de políticos durante a campanha eleitoral. "A Sol quer e está pronta para assumir esse papel. Só dependemos de autorização" -- garante o presidente Flávio Martins. "A ideia é bastante viável, desde que as regras sejam acordadas previamente" -- sinaliza o secretário de Desenvolvimento Econômico, Cezar Moreira Filho.

A Sol estima que seria possível instalar entre 12 e 18 quiosques em toda a extensão do Calçadão. O dinheiro da locação ajudaria, por exemplo, a reforçar ações de marketing e a melhorar a segurança. A entidade está incumbida de operar as 12 câmeras instaladas na rua, mas apenas grava as imagens, sem monitoramento em tempo real. A arrecadação mensal é insuficiente para custear os R$ 10 mil necessários à manutenção de quadro de profissionais especializados para executar o serviço. A Sol tem sob sua jurisdição área que reúne aproximadamente 600 estabelecimentos, mas agrega entre 70 e 80 associados e não pode contar com a inconstância do pagamento de mensalidades para assumir compromissos financeiros fixos. 

"Seria interessante para todos os comerciantes que a Sol realmente migrasse para uma gestão empresarial, que sobrevivesse da prestação de serviços e não da arrecadação de mensalidades" -- acredita o proprietário do McDonalds, Paulo Mufatto. Ele aponta a necessidade de fortalecer a interlocução dos comerciantes com o Poder Público também para resolver problemas que estão fora da conjuntura macroeconômica, mas que interferem negativamente nos negócios. Paulo Mufatto cita a ausência de regras mais rígidas para carga e descarga e horários pré-estabelecidos para a deposição das sete toneladas diárias de lixo produzidas no local. 

REFERÊNCIA INTERNACIONAL

Comerciantes da região central e Prefeitura talvez encontrem alguma referência na experiência canadense das Bias (sigla em inglês para Associação de Melhoria dos Negócios). As Bias são organizações não-governamentais criadas por comerciantes que decidem pagar adicional ao IPTU para ser aplicado especificamente na revitalização do comércio de rua. Devidamente aprovada pelo Legislativo, a verba é arrecadada pela Prefeitura e repassada à entidade que controla a área. 

O Canadá já contabiliza 15 experiências do gênero que ajudaram a recuperar centros que estavam sendo engolidos pela degradação urbana. As Bias não têm poder de administrar o mix das ruas, mas reúnem força suficiente para barrar até investimentos de grandes redes varejistas que consideram nocivos aos negócios locais. 

Os resultados da experiência internacional ratificam os benefícios da união institucional. No entanto, em nenhum lugar do mundo é possível desprezar a força do mercado ancorada na inabalável lógica da oferta e procura. Como a maioria dos empreendedores da Oliveira Lima não é proprietária dos imóveis, o valor do aluguel tem peso preponderante na decisão de manter ou não o estabelecimento aberto. E quanto mais rotatividade -- não há estatísticas sobre o tema e poucos comerciantes arriscam falar sobre o assunto na rua -- maiores as dificuldades em manter o grupo coeso em torno de uma associação. 

REGRAS DIFERENTES

As regras das ruas são totalmente diferentes das que vigoram nos centros de compras. Nos shoppings, a quantidade de lojas de cada segmento é decidida pela administração. Na rua, cada proprietário aluga o imóvel para o inquilino que bem entender com a única preocupação de que a conta seja paga em dia. A última coisa a ser analisada pelo locatário é se a chegada do novo negócio vai agregar valor ou causar impacto negativo na vizinhança. As Lojas Americanas deixaram o Calçadão porque depois de mais de três décadas não chegaram a acordo com o proprietário do imóvel para renegociar o aluguel. 

Também não é preciso ser expert em varejo para concluir que, na ausência do apelo temático, é prudente evitar o conflito excessivo entre atividades similares. A Oliveira Lima atual está desequilibrada, não é totalmente popular e muito menos sofisticada. "É territorialmente importante para a franquia manter uma unidade na Oliveira Lima" -- explica o franqueado de O Boticário, Ajan Marques. Diagnóstico superficial e puramente visual, resultado de 40 minutos de caminhada atenta, revela predominância de lojas de sapatos e de vestuário e ausência de floricultura, lojas de telefonia celular e até caixas eletrônicos.

No entanto, não é possível arriscar o tempo que essa combinação vai permanecer, já que a porta fechada de hoje pode amanhecer com uma novidade inesperada. Em parte da Oliveira Lima, o segredo ainda parece ser a alma do negócio. 

GLAMOUR EM RISCO

Dificilmente o Calçadão voltará a reconquistar o glamour de antes. Os tempos são outros e o passeio serve também para identificar as peculiaridades que ajudam esse corredor a sobreviver, apesar de tudo. Quando a Kopenhagen deixou a rua há quase dois anos para se instalar no Bairro Jardim, acreditava-se que a popularização era irreversível. Alguns meses depois a Mundial Calçados chegou com loja digna dos melhores centros de compras, dotada de espaço para convivência com café e brinquedoteca.

O Lojão do Brás veio logo depois, declaradamente atrás dos públicos C e D. Mas para surpresa geral não fez coro à desordem que normalmente impera nas lojas populares. O atendimento é cordial, o ambiente é organizado e a fachada tem design arquitetônico arrojado. Em breve, A Esportiva estará de volta ao Calçadão. Chega para engrossar o bloco dos tradicionalistas, no qual Discoteca Aldo, Casa Henrique e Riviera Magazine estão entre os principais heróis da resistência. 



Leia mais matérias desta seção: Administração Pública

Total de 873 matérias | Página 1

02/09/2026 SÃO CAETANO É A MAIS COMPETITIVA DO G-22
01/09/2026 SANTO ANDRÉ LIDERA RESILIÊNCIA NO G-22
31/08/2026 GILVAN BRILHA NA ARRUMAÇÃO FISCAL
26/08/2026 GILVAN SERÁ MELHOR QUE CELSO DANIEL?
10/08/2026 SÃO CAETANO REINA NO CAOS METROPOLITANO
15/07/2026 SÃO CAETANO AVANÇA SOBRE OS CRIMINOSOS
14/07/2026 GILVAN E GLOBO EM PARCERIA HISTÓRICA
06/07/2026 PARA VOCÊ ENTENDER O QUE SERIA GILVAN DANIEL
22/06/2026 GILVAN VEIO MESMO PARA SER REFORMISTA
10/06/2026 SANTO ANDRÉ TEM ESPAÇO PARA ARRECADAR MAIS
25/05/2026 QUALIDADE DE VIDA: UM RANKING ESCLARECEDOR
12/05/2026 PREFEITO ECONÔMICO OU PREFEITO SOCIAL?
11/05/2026 GILVAN BOM DE VOTO E TAMBÉM DE GOVERNO?
06/05/2026 REGIÃO É IMBATÍVEL EM POLÍTICAS SOCIAIS
16/04/2026 PAULINHO DEIXA GILVAN NUMA ENCRUZILHADA
31/03/2026 VENHA CONHECER O GILVAN QUE CONHECI
03/03/2026 SAÚDE DESAFIA TITE E PODE SALVAR GILVAN
26/02/2026 GILVAN VAI ESCLARECER MILIONÁRIA NOVA CEASA?
02/02/2026 VEJA A SELEÇÃO DO PREFEITO PREDADOR