Sabe qual é a resposta? Temos e não temos. A questão levada à manchetíssima diz respeito à formação de um grupo especial, algo como um Conselho de Notáveis, de no máximo 10 especialistas, que, juntos e misturados, seriam incorporados ao cronograma do Clube dos Prefeitos e atuariam como assessores especiais na definição de propostas, projetos e ações ligados ao futuro do Grande ABC tão negligenciado e cada vez mais grave. O desenho também serviria, com adaptações, como plataforma dos prefeitos individualmente em seus respectivos territórios.
O eixo estruturante do Conselho de Notáveis do Clube dos Prefeitos não poderia ser uma casa da sogra de incumbências. O elefantísmo temático não contribuiria com os objetivos propostos. Por isso, a vinculação tácita ao Desenvolvimento Econômico seria questão crucial. Não que o restante de atividades e ações típicas principalmente do Estado Regional e do Estado Municipal deixe de ser relevantes. Nada disso. É que sem crescimento econômico sustentado, não teremos as demais necessidades minimamente atendidas. Tem sido assim há quatro décadas. Desde que o trem-bala da desindustrialização nos atropelou de calças curtas de triunfalismo juvenil.
Diria mais sobre a determinação de avocar o Desenvolvimento Econômico como força-motriz do Conselho de Notáveis. Os participantes não poderiam ser um saco de gatos ideológicos e corporativos que se perderiam em meio ao nevoeiro de platitudes e com isso atrasariam ou subverteriam os ideais de recuperação regional.
CENTRALIDADE INEGOCIÁVEL
Todos, absolutamente todos, sem distinção, precisariam contar com um atributo central e por isso mesmo indispensável: enxergar o Estado Municipal e o Estado Regional como indutores de politicas públicas voltadas às propostas, mas sempre subordinados no bom sentido do termo à livre-iniciativa, ao empreendedorismo privado ou mesmo público, dependendo das circunstâncias.
Vou ser claro e objetivo para que me entendam sem subterfúgios semânticos: todos os eventuais colaboradores que detenham algumas das especificidades exigidas à composição do Conselho de Notáveis, mas que coloquem em dúvida a centralidade inegociável da proposta, deveriam ser sumariamente lançados ao acostamento do descarte. Não haveria dúvida de que meteriam o dedo podre de idiossincrasias deletérias para melar o jogo.
Sei que a marca Conselho de Notáveis cheira a sabetudismo, mas não seria senão provisória para, mesmo que preventivamente, evitar os males comportamentais dos integrantes que, quem sabe, se perderiam em poços de vaidade.
Aliás, retirei Conselho de Notáveis como marca de uma proposta frustrante do primeiro mandato do prefeito Paulinho Serra, em 2017. Fui convidado a participar do Conselho de Notáveis daquela gestão. Outros nomes foram ventilados. Encurtando a história, não houve avanço. Possivelmente a gestão de Paulinho Serra teria sido outra, certamente sem a Secretaria de Efeitos Especiais Maléficos, houvesse o Conselho de Notáveis decolado.
Voltando ao começo deste texto, não há contradição em afirmar que temos e não temos gente qualificada para compor o Conselho de Notáveis do Clube dos Prefeitos ou dos prefeitos de plantão.
PONTOS CARDEAIS
Para o leitor entender as diretrizes básicas da sugestão, reproduzo em seguida o que chamaria de pontos cardeais mínimos à evolução da proposta para um nível de execução prática.
Observem os leitores, com rigores de um vestibular concorridíssimo, quais seriam os apetrechos mínimos e indispensáveis à seleção dos integrantes dessa instância consultiva do Clube dos Prefeitos.
1. Domínio analítico da Economia do Grande ABC frente ao quadro paulista, nacional e internacional.
2. Histórico de atuação institucional dos setores públicos, privados e sociais.
3. Domínio de conhecimentos sobre infraestrutura logística.
4. Relações históricas com governo do Estado.
5. Relações históricas com governo Federal.
6. Relações históricas do sindicalismo.
7. Definir cinco prioridades transformadoras do ambiente econômico.
8. Definir três medidas transformadoras do ambiente institucional.
9. Definir três prioridades junto ao governo estadual.
10. Definir três prioridades junto ao governo Federal.
COLETIVO É A SAÍDA
Notaram o tamanho do desafio proposto nessa pauta básica, sujeita a modificações que não percam o contato com o grau de aprofundamento da crise sistêmica da Economia do Grande ABC?
Conhecendo como conheço essa bagaça regional que tem elasticidade territorial e semântica sob o guarda-chuva de regionalidade, não tenho dúvida alguma de que entre quase três milhões de habitantes raríssimos especialistas teriam esse feixe de conhecimentos para integrar o Conselho de Notáveis.
Exatamente por conta disso, a ideia de contar com um Conselho de Notáveis precisa ser flexibilizada, adaptada e mensurada com cuidados especiais. Já que não teríamos a soma de todos esses requisitos em individualidades potencialmente selecionadas ao grupamento, a saída seria contar com tudo isso graças à soma de conhecimentos específicos dessas individualidades.
Algo como uma equipe de futebol, cuja força coletiva derivada da individualidade e da especificidade técnica, resulta no que todo mundo conhece como o exercício de uma das maiores manifestações de arte do planeta. Ou alguém tem dúvidas de que futebol vai muito além de 11 marmanjos correndo atrás da bola? Nestes tempos, a arte se junta à ciência com a adoção cada vez mais meticulosa de Inteligência Artificial no esporte. Os algoritmos entraram em campo e do campo não vão arredar pé.
FUTEBOL ENSINA
O grande equívoco de quem vê futebol é o reducionismo arbitrário de imputar exclusivamente às falhas da equipe de preferência os motivos de maus resultados. Quem esquece que do outro lado existe um adversário muitas vezes mais preparado, transforma o futebol em fanatismo. Não é nada fácil livrar-se dessa chaga durante os 90 minutos. Temos no Grande ABC muitos torcedores cegos. Os resultados da regionalidade são subestimados, quando não ignorados. Há casos em que se constata a gravidade de que estamos invictos desde a chegada das montadoras de veículos.
Uso o futebol como pedagogia, mas a ramificação lógica do que seria o Conselho de Notáveis está em todo o canto. Desde uma redação de jornal até uma equipe de segurança patrimonial. Nada é mais recomendável ao sucesso de uma empreitada senão o coletivo organizado às tarefas com as quais deverá se envolver.
O Clube dos Prefeitos e outras instâncias públicas e mesmo privadas já se meteram mato adentro em forma de consultoria coletiva, mas nada que ultrapassasse a camada superficial do propagandismo fraudulento. O maior fenômeno coletivo da história do Grande ABC tem nome e sobrenome, e um destino lamentável.
BAGUNÇANDO ESTRUTURAS
O Fórum da Cidadania, criado em 1994, chegou para bagunçar o comodismo das autoridades públicas da região. E o fez por determinado período sob o mote de consensualidade. Ou seja: a gigantesca pauta não tocava em questões sensíveis demais à região que pudessem criar embaraços antagônicos.
Quem, como este jornalista, participou do Fórum da Cidadania, guarda lembranças positivas, mas não despreza o desfiladeiro de resultados que fragilizaram a instituição até a exaustão. Durou pouco o Fórum da Cidadania, mas carrega na algibeira da regionalidade o legado de ter despertado o então eleito prefeito Celso Daniel a iniciar uma cruzada de integração regional na esfera pública, destruída por sucessores regionais.
Esses últimos parágrafos que fazem referência ao Fórum da Cidadania especialmente e à regionalidade de maneira superficial são suficientes para robustecer a importância da lista que revelei acima sobre os condimentos básicos para transformar o Grande ABC econômico em algo efetivamente produtivo.
Quem desconhece a história recente do Grande ABC sempre terá muitas dificuldades de compreender a profundidade de determinadas ações. Temos no Grande ABC uma realidade intrinsecamente relacionada às grandes mudanças dos anos 1990. Nada que se pretenda fazer poderia estar preso exclusivamente aos momentos atuais já naturalmente complexos. Somente os estúpidos ignoram o passado que contamina o presente.
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14/09/2026 SOFISTICAÇÃO DE UMA TRAGÉDIA (3)