De cada 100 eleitores que votaram em Lula da Silva em outubro de 2002 em Santo André, quando o ex-metalúrgico derrotou o tucano José Serra e se consagrou presidente da República, de cada 100 eleitores que votaram em Lulacá, nada menos que 37 o abandonaram 20 anos depois, em 2022, quando Lulalá chegou ao título de tripresidente da República.
Esse índice de vazamento do eleitorado lulista é o mais expressivo e emblemático entre os sete municípios do Grande ABC. Entre 2002 e 2022, como mostramos ontem, Lulacá perdeu arredondados 30% do eleitorado na região. Uma situação que o coloca sob risco de sucumbir na eleição presidencial deste ano.
Poderemos, pela primeira vez, ter uma derrota regional do PT liderado por Lula da Silva. Não considera a derrota de Dilma Rousseff para Aécio Neves em 2014. Dilma Rousseff não é Lulacá nem Lulalá. Dilma Rousseff foi a maior catástrofe econômica do Grande ABC. Perdemos 26% do PIB entre 2015 e 2016. O Brasil perdeu quase 8%. Repetir esses números é questão de responsabilidade social. Há canalhas na praça que manipulam a mentira. Imaginem então o que fazem com a verdade.
UMA BOA RESPOSTA
A derrota regional de Lulacá no próximo 25 de outubro seria uma boa resposta ao Lulacá desertor. O Grande ABC piorou muito com Lulacá e Lulalá. Só os fanáticos ou os mal-informados negam as evidências. Mais que evidências – as provas documentadas por CapitalSocial ao longo deste século. Do PIB Tradicional ao PIB de Consumo, dos indicadores sociais em geral, comparativamente ou não a outros endereços nacionais, somos um festival de frustrações que o dualístico Complexo de Gata Borralheira despreza ou minimiza, quando não fecha os olhos.
A Era Lulacá poderá ser encerrada caso, independentemente de eventual derrota na região, Lulalá seja superado na eleição nacional. Um Lulacá regional (ou seja, vitória de Lula da Silva na região) descolado do Lulalá federal encerraria o período de duas décadas em que o petista de origem sindical teria o histórico de regionalidade encerrado.
Um Lulacá de regionalidade zero e de coleção de fracassos. O Grande ABC jamais viveu nada parecido com a perda de qualidade de vida e rebaixamento da mobilidade social como nesse século. É claro que a responsabilidade não é exclusiva da presidência da República e tampouco pode ser centralizada no período dominado pelo presidente Lulacá, mas as digitais do petismo não podem ser minimizadas e tratadas com falsa equidade porque são prevalecentes.
DESASTRE RESILIENTE
O desastre da regionalidade jamais praticada vem do passado de Lula da Silva no comando do Sindicato dos Metalúrgicos. Essa é uma das peças mais importantes do tabuleiro de múltiplas deficiências do histórico de ascensão e queda do Grande ABC. A Detroit à Brasileira é complexa à compreensão dos noviciados. Um bom indicativo para quem pretende conhecer os caminhos da derrocada deve começar com a ascensão do sindicalismo e o entorno contextual de omissões e descasos locais, estadual e federal.
Por isso mesmo, ou seja, por conta do histórico de impactos sociais que a desindustrialização provocou, esperava-se muto mais de Lulacá no posto de Lulalá. As experiências político-administrativas do PT na região oferecem resultados pífios. Somente os últimos seis anos de Celso Daniel à frente da Prefeitura de Santo André podem ser catalogados como seguramente positivos, mas relativamente pouco duradouros.
O experimento socialista em Diadema é uma catástrofe de caçapa cantada. Jogaram fora o bilhete premiado da melhor logística da região. Outras logísticas municipais são inventadas por triunfalistas. Estamos num beco de baixa competitividade geoeconômica. Já escrevi sobre isso. Ignorantes insistem em confundir alhos logísticos de comércio eletrônico com bugalhos logísticos industriais. São patéticos na insistência de praticar lorotas.
CELSO, MELHOR PT
Entre as múltiplas variáveis que determinaram a queda de rendimento eleitoral de Lulacá tanto no Grande ABC como no País como um todo, o caso de Santo André é especial. O assassinato de Celso Daniel, em janeiro de 2002, a poucos meses da disputa presidencial, começou a desmontar a estrutura do Partido dos Trabalhadores na cidade.
O melhor PT da região, sob a coordenação de um grupo que tinha em Celso Daniel modelo organizacional diferenciado dos demais municípios locais, incluindo-se os grupos de conservadores municipalistas, foi gradualmente fragilizado. Precursor de Desenvolvimento Econômico sem amarras ideológicas, Celso Daniel deixou uma viuvez irrecuperável no Grande ABC.
O PT de Celso Daniel sempre se manteve distante do perfil do PT de São Bernardo, liderado por Lula da Silva e fortemente sindicalista. Celso Daniel, acadêmico, cercou-se de colaboradores de classe média como ele. José Cicote, representante da linha sindical, era uma força auxiliar . Formou chapa com Celso Daniel, mas jamais foi a estrela mesmo que auxiliar da companhia.
RIVALIDADE CORDIAL
Mais que isso: havia entre os dois grupos um ambiente interno de rivalidade nem sempre cordial. O sindicalismo de Santo André, de representatividade social muito inferior ao de São Bernardo, pretendia ocupar a liderança política do Partido dos Trabalhadores. Mas a classe média de Santo André, então prevalecente no conjunto dos moradores, tinha pouca semelhança com a classe média de São Bernardo.
Santo André era profundamente menos trabalhista e resistia inclusive ao classe média Celso Daniel, filho de liderança conservadora da cidade. Quando concorreu diretamente à Prefeitura, em 1992, José Cicote foi derrotado por um representante da velha guarda política, o médico Newton Brandão. O PT de então pagava o preço de desafiar a lógica da classe média então preservada pela desindustrialização que se iniciara pouco tempo antes. Mais que isso: o eleitorado desconfiava do PT depois de Celso Daniel realizar um primeiro mandato controverso e muito sob influência sindical, entre 1989 e 2002.
Portanto, quem decidir embrenhar pelos dados do Grande ABC em busca de explicações para a perda de musculatura eleitoral de Lula da Silva precisa descartar a linearidade de reflexões e conclusões. Celso Daniel é um caso específico e à parte. Mais que um desfalque partidário, o facho de luminosidade de Celso Daniel se perdeu no PT nacional. Mas até que virasse saudade, contou com o reconhecimento do partido que precisava reduzir a carga discriminatória de sindicalista. Tanto que fora nomeado coordenador do programa de governo do então candidato Lula da Silva.
MIGALHAS ORÇAMENTÁRIAS
Sem Celso Daniel, Lulacá, expressão que pode ser traduzida como a presença do governo federal petista na região, sofreu duro revés. Na realidade, praticamente desapareceu na aplicação de projetos estruturantes. Viveu e vive de ações pontuais, do pronto-socorrismo orçamentário que muitos tratam como um show de competência do governo federal. Dinheiro de Lulacá e de outros presidentes não passa de migalhas quando os valores despendidos são confrontados com a contribuição regional na arrecadação nacional.
O sindicalista Luiz Marinho já apelava para essa comparação há 30 anos, durante a presidência de Fernando Henrique Cardoso. Um artigo assinado no Diário do Grande ABC dá sustentação de prova provada ao posicionamento do hoje Ministro do Trabalho.
A vitória obtida por Lula da Silva em Santo André em outubro de 2002 registrou 65,60% de votos válidos. Só ficou abaixo dos 72,80% de Diadema, dos 70,30% de Mauá e dos 68,6% de São Bernardo. Ribeirão Pires registrou vitória de Lula da Silva com 61,50% dos votos válidos. Um pouco acima de 60,90% de Rio Grande da Serra. E São Caetano participou da festa petista com 52,90% dos votos válidos. Como escrevi ontem, Fernando Henrique Cardoso deixou um rastro de destruição regional que serviu de combustível ao massacre de Lulacá.
COMPARE OS RESULTADOS
Agora compare os resultados de Lulacá na vitória de 2022 contra Jair Bolsonaro, já com o desgaste de duas décadas de governo federal repleto de fissuras principalmente no campo político-criminal. Os votos válidos em Santo André caíram para 47,87% do eleitorado, 48,68% em Ribeirão Pires e 39,89% em São Caetano. Esses três endereços marcaram derrotas de Lulacá na região. Os demais municípios garantiram supremacia do petista, situação que determinou a manutenção da vitória geral alcançada nas duas eleições anteriores em que o Lulacá foi levado às urnas.
Quem obteve maior triunfo regional de Lulacá em 2022 foi Diadema, a cidade mais avermelhada da região. Lulacá alcançou 60,65% dos votos. O resultado apontou queda de 20,21% do eleitorado lulista quando comparado à temporada de 2002. Somente a pequena Rio Grande da Serra perdeu menos eleitores de Lulacá na região nos 20 anos de supremacia petista: ante os 60,90% dos votos válidos em 2002, foram registrados 55,45% em 2022. Queda de 9,82%.
O eleitorado lulista de São Caetano emagreceu nas urnas em proporção um pouco abaixo dos dados registrados em Santo André. A perda entre 2002 e 2022 chegou a 32,64%. Foram 52,90% votos válidos em 2002 ante 39,89% em 2022.
Depois de Santo André e de São Caetano, a maior perda relativa de votos de Lulacá no período de duas décadas foi registrada em Mauá. Em 2002, Lulacá obteve 70,30% dos votos válidos. Já em 2022 foram 53,21%. Queda de 32,12%. São Bernardo ficou próxima disso. Ante os 65,60% registrados em 2002, caiu para 53,83% em 2022. Queda de 29,24%. O lulismo em Ribeirão Pires também sofreu as consequências de três mandatos de Lulacá de resultados mais que desanimadores no Grande ABC. A queda registrada no período é de 26,54%, resultado dos votos válidos de 61,50% em 2002 e de 48,68% em 2022.
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