Os dados são do Instituto Datafolha, publicados na edição do último sábado da Folha de S. Paulo. Uma reportagem com equívocos latentes e que esconde a realidade dos fatos desse Brasil varonil de escândalos a dar com pau: o Supremo Tribunal Federal do ministro Alexandre de Morais é a terceira instituição detentora da mais grave reputação nacional. Trato desse tipo de pesquisa do Datafolha da Folha pela terceira vez. A primeira análise e de 2021 e a segunda de 2024. A Folha e o Datafolha são reincidentes em manobras.
Nesta nova pesquisa, de cada 100 brasileiros, 83 não confiam no STF. Isso mesmo: nada menos que 83% dos brasileiros desconfiam do Supremo Tribunal Federal. A Folha do Datafolha e o Datafolha da Folha esconderam essa realidade dentro do possível lubrificado por descuidos dos leitores menos exigentes. As demais instituições pesquisadas contam com resultados um pouco menos escandalosos. Exceto a classe política e o Congresso Nacional, que superam o STF em matéria de baixa reputação. A Folha de S. Paulo preferiu amenizar o quadro.
DADOS MANIPULADOS
A manchete de página interna da Folha de S. Paulo de sábado passado, 19 de setembro, sentenciava: “Desconfiança no Supremo cresce, vai a 48% e atinge recorde, afirma Datafolha”. A linha complementar da manchete: “Em março, 43% não confiavam na corte; pela primeira vez descrédito é maior numericamente do que de Congresso, partidos e Presidência”.
A manchetíssima de CapitalSocial, no alto desta edição é o retrato fiel do Datafolha que a Folha preferiu descartar. Vou explicar.
À pergunta do Datafolha publicada na Folha de sábado (“Você diria que confia muito, confia um pouco ou não confia”, referindo-se- especificamente ao STF entre as várias instituições vasculhadas, vejam os resultados:
1. 14% dos entrevistados disseram que “confia muito”.
2. 35% dos entrevistados disseram que “confia um pouco”.
3. 48% dos entrevistados disseram que “não confia”.
O Datafolha e a Folha decidiram publicar um resultado maroto que não condiz com a manifestação dos eleitores. Aos míseros 14% que responderam “confia muito”, se juntaram os 35% que responderam “confia um pouco”. Os que responderam “não confiam” foram 48% segundo o Datafolha. Faltam três pontos percentuais para se encaixar os 100% de resultados. Sugere-se que se trata de eleitores não respondentes.
DESCONFIANÇA ENORME
Agora me responda o caro leitor: o que significa para você, em qualquer circunstância, dizer que “confia pouco”? Quem confia pouco de fato desconfia muito. E quem desconfia muito jamais poderia ser acrescentado ao grupo dos eleitores que responderam “confia muito”. Mais que isso: quem “confia pouco” pega carona e está a um passo da lógica de quem “não confia”.
No passado, amenizei essa interpretação. Considerava que teríamos um bloco de eleitores em cima do muro, como se verá em seguida. Mas o que temos de fato mesmo é reprovação contida, elegante, por assim dizer.
Isto posto, a desconfiança que desperta o Supremo Tribunal Federal na semana em que se conheceram novas estranhas da instituição, com o show de horrores jamais visto, a desconfiança, repito, é a soma de “confia um pouco “e de “não confia”. Ou seja: 83% dos brasileiros que decidiram responder ao questionamento colocam o Supremo Tribunal Federal em situação reputacional sofrível, dramática, escandalosa.
Pior que isso: entre as oito instituições colocadas à prova do eleitorado, o Supremo Tribunal Federal é a terceira pior instância mais reprovada pela sociedade. Apenas 14% a consideram confiável. O Poder Judiciário como um todo não escaparia à hecatombe moral e ética do STF: apenas 17% dos brasileiros confiam no sistema judicial.
FALTOU POUCO
O Supremo Tribunal Federal só não ocupa a lanterninha no ranking nacional de instituições extraído do Datafolha porque a classe política parece imbatível. Os partidos políticos contam com apenas 9% da confiança dos brasileiros. Com isso, não há como o Congresso Nacional desgarrar-se de contaminação: apenas 11% dos entrevistados do Datafolha afirmaram que o Congresso Nacional conta com confiança.
Nem a presidência da República nesse intervalo histórico de polarização escapou de reprovação gigantesca do eleitorado: apenas 25% a mantém no modo “confia muito”. Um pouco acima dos esquálidos 22% da Imprensa e bem abaixo dos 29% das Grandes Empresas Brasileiras. Para completar, quem tem mais confiança da sociedade, e mesmo assim muito abaixo do que seria minimamente razoável, são as Forças Armadas, que registram nos dados do Datafolha 34% de confiança. Ou, do outro lado da moeda, 66% de desconfiança. Dezoito pontos percentuais abaixo do Supremo.
Surpreende que o Datafolha não tenha repetido na edição deste ano questionamento repetido nos anteriores: qual é o grau de confiança nas redes sociais? Será que, apesar dos pesares, as redes sociais têm mais crédito ou menos descrédito que a Imprensa, por exemplo?
Esta não é a primeira vez que CapitalSocial analisa resultados de pesquisas semelhantes levadas a campo pelo Instituto Datafolha e transformados em matéria-prima de reportagens da Folha de S. Paulo. Na edição de 28 de setembro de 2021, sob o título “Só Forças Armadas (e olhe lá!) têm a confiança da sociedade”, fiz uma série de abordagens. Seguem alguns trechos:
EDIÇÃO DE 2021
Demorou para o Datafolha (ferramenta supostamente científica da Folha de S. Paulo explorada à exaustão pela Grande Mídia) dar uma medida relativamente exata do grau de confiança, ou seja, de credibilidade, de algumas das principais instituições do País. Os dados não são surpreendentes. De fato, ocupam um andar acima: são vexatórios. Você vai entender o que pretendo explicar. A pesquisa do Datafolha mirou o tempo todo o presidente da República. Resultado? Nada que fosse impactante mas, vejam só, acertou (no sentido de alvo) em cheio os demais poderes que a Grande Mídia passou a descartar de uns tempos para cá como fontes de desconfiança. Mais que isso: chega à santificação dos demônios. Renan Calheiros que o diga.
MAIS 2021
O Brasil do problemático Jair Bolsonaro se descobriu (quanta surpresa, não é verdade?) um País igualmente ou até mais problemático em outros setores-chave da sociedade. Os dados conclusivos da pesquisa envolvendo os poderes preservados pela Grande Mídia poderiam estar piores do que estão porque foram o tempo todo protegidos no amplo questionário. Mas o que é do homem da realidade dos fatos o bicho da esperteza estatística não come. Muito pelo contrário: entrega de bandeja para quem não é cego ideológico. Vejam como o está o que chamaria de Ranking de Credibilidade de várias instituições do País:
1. Presidente da República – 16%.
2. Supremo Tribunal Federal – 15%.
3. Congresso Nacional – 4%.
4. Partidos políticos – 3%.
5. Judiciário – 15%.
6. Ministério Público – 15%.
7. Forças Armadas – 37%.
8. Imprensa – 18%.
9. Grandes Empresas Brasileiras – 17%.
10. Redes Sociais – 6%.
MAIS 2021
É claro que a edição de sábado da Folha de S. Paulo fez acrobacias sadomasoquistas para dar a interpretação que mais lhe convinha. A linha editorial da Folha de S. Paulo é aquela coisa que todo mundo com equilíbrio e tolerância às sacolejadas de pontos e contrapontos sabe do que se trata. Aliás, a própria Folha de S. Paulo, numa autocrítica saudável, embora omitida porque condenatória, já não se utiliza mais da muleta marquetológica de que é um jornal de pluralidades. Seria demais acreditar que os pouco mais de 70 mil leitores diários da versão impressa sejam um bando de capadócios.
MAIS 2021
Como escrevi ainda outro dia, com a chegada de Jair Bolsonaro ao Palácio do Planalto o que prevalece na Grande Mídia é o ‘Tudo Agora’, como se o Brasil houvesse sido descoberto recentemente. Antes, especialmente nos anos dourados de Lula da Silva, comprava-se com facilidade o ‘Nunca Antes”. O que existe na ponta da agulha do Datafolha é que não há nada a contestar nos números da Presidência da República (os quais trato em seguida). Nas demais instituições, exceto Forças Armadas e redes sociais, subsiste o que chamaria de contenção programada da realidade. Ou seja: os resultados para valer mesmo são piores do que os que se apresentam. O contexto estrutural da macro pesquisa ameniza o quadro. Chego a essas conclusões com a singeleza de quem entende como funcionam pesquisas do Datafolha e de tantos outros institutos. No caso específico desses resultados, o que temos é o complemento de uma macro pesquisa divulgada ao longo da semana passada pela Folha de S. Paulo (e a Grande Mídia) e que ouviu mais de três mil pessoas em todos os cantos do País.
MAIS 2021
Os questionários (e a ordem das perguntas) apresentados aos entrevistados (é aí que mora um dos pilares do vício de um trabalho supostamente científico) foram todos direcionados a confirmar a linha editorial da Folha de S. Paulo e da chamada Grande Mídia, também conhecida como Consórcio de Imprensa que deixou a clandestinidade editorial ao decidir dar as caras públicas sob o pretexto de oferecer balanço diário dos danos do Coronavírus. Retirou-se a máscara em nome de uma causa nobre: uma resposta à política errática do governo federal. Confirmar a linha editorial significa, simplificadamente, enviesar tudo que se refira ao presidente da República. Enviesar significa que qualquer resquício de ponto positivo do governo federal sempre será desconsiderado ou minimizado. Guerra é guerra. Isso quer dizer que a leitura do desempenho do presidente ganha tonalidade específica, por assim dizer. Quem trata as manifestações de Sete de Setembro como delitos cívicos, na forma de atos antidemocráticos, é capaz de tudo. Inclusive de escrever muitas verdades sobre os erros do presidente. E de negar ou omitir acertos, que existem.
MAIS 2021
O Datafolha ofereceu aos entrevistados três cenários de avaliação a cada uma das instituições listadas. Optei pelo “confio muito” porque me parece mais próxima da realidade das ruas. E que pode sim ser traduzida em forma de Ranking de Credibilidade. A segunda alternativa na cartela apresentada por cada entrevistador refere-se ao conceito de “confia um pouco”. E a terceira se refere a “não confio”. Nesses quesitos, há variações mais abruptas, por assim dizer. Faço um ranking do “confia um pouco”:
1. Presidência da República – 33%.
2. Supremo Tribunal Federal – 44%.
3. Congresso Nacional – 46%.
4. Partidos políticos – 35%.
5. Judiciário – 51%.
6. Ministério Público – 53%.
7. Forças Armadas – 39%.
8. Imprensa – 48%.
9. Grandes Empresas Brasileiras – 51%.
10. Redes sociais – 40%.
MAIS 2021
Olhem para as instituições e respectivos percentuais. E não esqueçam de que se trata do critério “confia um pouco”. Agora vamos para o critério “não confia”:
1. Presidência da República – 50%.
2. Supremo Tribunal Federal – 38%.
3. Congresso Nacional – 49%.
4. Partidos políticos – 61%.
5. Judiciário – 31%.
6. Ministério Público – 30%.
7. Forças Armadas – 22%.
8. Imprensa – 32%.
9. Grandes Empresas Brasileiras – 29%.
10. Redes sociais – 53%.
MAIS 2021
Me recuso a considerar positiva qualquer derivação além do “confia muito” escolhida pelos entrevistados do Datafolha. O que se pode aceitar no espaço intermediador entre “confia muito” e “não confia”, no caso “confia um pouco” é um certo grau de flexibilidade à adoção de um dos dois extremos de avaliação. O “confia um pouco” é algo semelhante ao “regular” quando se pretende avaliar uma determinada gestão. Ou dos “indecisos” em pesquisas eleitorais. Trata-se de espécie de subida no muro do não comprometimento. Na situação específica da cauda da pesquisa do Datafolha sobre as instituições, optaria pela desconfiança e, portanto, por uma avaliação que não teria intimidade com o respaldo à credibilidade. Parece que o mais importante de tudo isso é que temos para valer sequência prolongada de crise institucional, cujo berço é de difícil detecção temporal. O Brasil parece destinado a mergulhar em permanentes crises de competência geral.
EDIÇÃO DE 2024
Na edição de 29 de março de 2024, voltei a analisar uma nova pesquisa do Instituto Datafolha para a Folha de S. Paulo sobre as instituições brasileiras. Veja os principais trechos sob o título “Folha minimiza crise de instituições debilitadas”:
A Folha do Datafolha dourou a pílula nesta semana ao interpretar os dados da pesquisa de seu braço estatístico que não passa de puxadinho político-ideológico. A Folha pintou um quadro quase que dourado das instituições nacionais, mas o que temos é um painel aterrador de um Brasil construído ao longo de décadas por um Estado perdulário, corrupto e incompetente. Nossas principais organizações (presidência, congresso, judiciário, ministério público, imprensa, redes sociais, forças armadas, partidos políticos), todos, absolutamente todos da forma que exponho, não merecem maiúsculas iniciais. Faltou a caolha interpretação da Folha de S. Paulo utilizar a memória da própria Folha de S. Paulo e buscar no passado do governo do presidente Jair Bolsonaro e da pandemia (em setembro de 2021) uma comparação de dados. Teria concluído que melhoramos na piora, mas as circunstâncias são outras e, portanto, as percepções também o são. Traduzindo: mesmo ao dizer que melhoramos na piora isso não significa que não estávamos ruins na fita no passado por causa apenas de especificidades.
MAIS 2024
Fosse a Folha de S. Paulo um jornal comprometido com a verdade dos fatos e sem rabo preso, como se intitulava no passado de uma pluralidade também falsa, a manchete da página interna que tratou da rodada da pesquisa do Datafolha seria outra. Ao invés de “Congresso Nacional tem melhor avaliação desde 2023, aponta Datafolha”, teria se utilizado de algo mais ou menos assim: “Instituições melhoram pós-pandemia e Bolsonaro, mas seguem em frangalhos históricos”. A Folha de S. Paulo de quinta-feira interpretou os dados pisoteando a lógica mais meridianamente sensata que um analista poderia expor, diante das alternativas que se oferecem aos entrevistados.(...) O princípio do princípio da avaliação de uma pesquisa como essa é evidente: só se aprova alguém ou alguma instituição quando se prefere a primeira alternativa. Quem “confia muito” aprova. As demais alternativas são um encadeamento de negatividades e de reprovação implícita.
MAIS 2024
(...) Dito isso, vou aos dados do Datafolha desta semana como provas provadas de que as instituições estão mesmo em frangalhos. Veja o que chamaria de Nível de Credibilidade das Instituições, segundo, sempre, a correspondente pontuação percentual de “confia muito”:
1. Presidência da República - 22%.
2. Supremo Tribunal Federal - 21%.
3. Congresso Nacional - 10%.
4. Partidos políticos - 7%.
5. Judiciário - 24%.
6. Ministério Público - 23%.
7. Forças Armadas - 37%.
8. Imprensa - 20%.
9. Grandes Empresas Brasileiras - 25%.
10. Redes Sociais - 9%.
Expostos os dados de uma ponta à outra, distanciados em 30 meses no tempo de dois governos, o primeiro no terceiro ano do primeiro mandato e o segundo no segundo ano de um terceiro mandato, o que se extrai da aprovação em forma de “confio muito”? Em praticamente todas as instituições houve melhora dentro da debilidade histórica do quadro nacional. Vejam as diferenças em pontos percentuais entre a pesquisa do Datafolha de setembro de 2021 e março de 2024:
1. Presidência da República – seis pontos percentuais.
2. Supremo Tribunal Federal – seis pontos percentuais.
3. Congresso Nacional – seis pontos percentuais.
4. Partidos políticos – quatro pontos percentuais.
5. Judiciário – nove pontos percentuais.
6. Ministério Público – oito pontos percentuais.
7. Forças Armadas – Empate.
8. Imprensa – Dois pontos percentuais.
9. Grandes Empresas Brasileiras – oito pontos percentuais.
10. Redes Sociais – Quatro pontos percentuais.
MAIS 2024
Duvido que o leitor tenha de imediato capacidade de entender o que se passou caso parta do princípio talvez lógico de separar os dois períodos por conta de presidentes da República antípodas no enquadramento ideológico. Não se sustentaria a ideia isolada ou central de que paramos de piorar porque Lula da Silva é o presidente atual. Outras instituições também deixaram de cair no poço sem fundo, embora respirem por aparelhos. Inclusive as redes sociais predominantemente bolsonaristas. Creio cá comigo que o fator que mais pesou no humor menos desesperançoso dos brasileiros nos resultados desta semana da Folha do Datafolha em relação a setembro de 2021 é que não temos mais a pandemia do Coronavírus a botar um monte de interrogações no horizonte da sobrevivência biológica. E tampouco uma avalanche de críticas ao presidente da República de então, contrário à maioria favorável ao combate da pandemia com o uso de vacinas.
MAIS 2024
(...) Os leitores atentos vão observar que há dados contraditórios envolvendo aspectos ideológicos e políticos que dificilmente seriam destrinchados sem provocar grandes debates. Um exemplo: a desconfiança total na presidência da República caiu 15 pontos percentuais entre os entrevistados separados por 30 meses de avaliações, o que indicaria sim desgaste do presidente anterior no combate à pandemia, mas, paralelamente, outros valores intrínsecos à direita, como a melhoria da imagem dos congressistas após as eleições de 2022, dão força de argumento a quem entende que a esquerda sofreu reveses nesse campo. Creio também, para finalizar, que o ambiente nacional de calcificação do eleitorado à direita e à esquerda, conduz a resultados enviesados em pesquisas com a finalidade expressa pelo Datafolha.
MAIS 2024
A politização sem limites do Supremo Tribunal Federal, por exemplo, retira do estrato de equilíbrio a ideia de Justiça propriamente dita, porque se introduzem elementos arbitrários e desconexos de partidarização e ideologização do eleitorado. Uma instância que relaxou completamente o jogo da moralidade pública ao limpar a barra de delinquentes da Lava Jato não é digna de suposta estabilidade de imagem junto à população. Está dito, assinado e carimbado.
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16/09/2026 TEMOS OU NÃO TEMOS NOTÁVEIS NA REGIÃO?