Administração Pública

Gato e rato

DANIEL LIMA - 30/11/2004

Familiares, amigos e assessores do prefeito Luiz Tortorello imaginam que toda Imprensa é acrítica, permissiva aos mais deslavados jogos de cena, quando procuram introduzir informações tergiversadoras no quadro situacional da saúde do dirigente público há duas semanas internado no Hospital Albert Einstein. Por isso, tentam patrocinar espécie de confronto entre gato e rato, no qual o gato da informação qualificada seja espetacularmente ludibriado pelo rato da dissimulação.


Está certo que eles façam de tudo para minimizar publicamente a dramaticidade clínica de Tortorello, mas pretender que especificamente este jornal seja apenas ventríloquo de arremetidas canhestras vai uma grande diferença.


A saúde de Luiz Tortorello é interesse público sobre o qual este jornal não abrirá mão até 31 de dezembro, quando constitucionalmente se esgota o mandato de quem foi eleito com 78% dos votos válidos em outubro de 2000. Até aquela data, o prefeito de São Caetano será atentamente observado tanto no hospital paulistano como, eventualmente, no Paço Municipal e na residência do Bairro Olímpico. Depois daquela data, Luiz Tortorello seguirá apenas como alvo de expectativa de cobertura jornalística, seja no processo de desempenho clínico ou de articulador político com vistas às eleições de 2006.


O que se tem observado nestes quase 30 dias em que o assunto foi levado à sociedade é que a tropa de choque do prefeito, especializada em tantas outras tarefas e que exerce grande influência na própria administração pública, imagina que o jornalismo está a serviço de interesses específicos e que, portanto, seja apenas depositário de diversionismos.


São persistentes vários desses membros da tropa de choque que se mobilizam como supostos lobbistas para tentar impedir a divulgação dos fatos.


Em realidade, entendessem eles um mínimo sequer de informação, de democracia, de gestão pública, de responsabilidade comunitária, jamais se avocariam tão restritivamente ao trabalho da Imprensa. Ativar o piloto automático de cerceamento da atividade de informar é considerar que todos, absolutamente todos, seguirão cartilha enviesada de controle de movimentos.


A complexidade e a gravidade da saúde de Tortorello são tão pronunciadamente preocupantes que basta simples informação para desmontar cenários contemporizadores: a família não autoriza o Hospital Albert Einstein a divulgar boletins diários que explicitem resultados do tratamento a que está sendo submetido. Um membro da própria família Tortorello registra essa decisão que se opõe a casos de celebridades que se anteciparam a possíveis especulações enfrentando pessoalmente o peso do desconforto.


O abrandamento do estado clínico de Tortorello é um direito legítimo de amigos mais leais, de familiares mais sensíveis. Entretanto, o que se praticou nos últimos dias foram verdadeiros atentados aos fatos e, mais que isso, desrespeito à população.


Um vereador com atuação nobre na área de deficientes teve o desplante de afirmar que serviu água de coco e caldo de mocotó ao prefeito. Outro ocupou a tribuna para desancar este jornal por causa da divulgação primeiro de que havia suspeita de que Tortorello estava doente, segundo porque o jornal teve confirmada a informação em declaração do próprio prefeito, terceiro porque o jornal dá cobertura ao internamento. Um amigo mais chegado do prefeito garantiu, vejam só, que o chefe do Executivo estaria despachando nesta terça-feira no Paço Municipal.


Felizmente nem tudo são obscuridades em São Caetano. O prefeito eleito, José Auricchio Júnior, tem se mostrado comedido e discreto. Simplesmente abstem-se de declarações. Poderia, fosse outro seu perfil, derramar-se em bajulações e quem sabe até participar da confraria dos ilusionistas, porque essa é uma ótima oportunidade para proselitismos.


A impressão que transmite o dramático quadro relatado por este jornal desde o começo de novembro é que o sucessor Auricchio revela discrição importantíssima para o cargo que exercerá a partir de janeiro. Quando se constatam pressões, mesmo veladas, para que o grupo em torno do prefeito se organize e se manifeste para sufocar a realidade, o desempenho público de José Auricchio alcança status de sobriedade pouco comum entre agentes públicos.


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