Economia

EMPREGO INDUSTRIAL
VAI CHEGAR À META?

DANIEL LIMA - 19/02/2026

Há exatamente dois anos, em fevereiro de 2024, fiz uma projeção de 100 desafios que aguardariam por soluções nos sete anos subsequentes ao ano-base de 2023 no Grande ABC. Passados 24 meses vou restringir espécie de prestação de contas a uma das propostas. O estoque de trabalhadores industriais, segundo minha projeção, não deverá ultrapassar crescimento sustentável acima de 10% ao fim da jornada, fechando a década. Atribui cinco pontos de zero a 10 como métrica de confiabilidade, levado que fui pela lógica de que estávamos em baixa, depois da pandemia de 2020-2021, e a lentidão do processo de recuperação no setor, muito mais complexo que qualquer outro. Principalmente na região.

Pelos cálculos que acabei de fazer e com base nos dados do Ministério do Trabalho, nas rodadas relativas aos anos de 2024 e 2025 (portanto, reiterando o ano de 2023 como base) o Grande ABC registra saldo positivo de 10.544 postos de trabalho do setor industrial. Eram exatamente 175.585 em 2023 e passou para 186.129 em 2025.

O resultado em forma de estoque de emprego industrial é de crescimento de 6,00%. Ainda faltam cinco anos para que se cumpra a trajetória pretendida. Se no primeiro ano demarcatório do desafio, 2024,  a perspectiva se mostrava favorável, no ano passado houve recuo no entusiasmo, porque o estoque sofreu perda mínima, de 200 postos de trabalho em relação ao ano anterior.     Portanto, no quadro geral de 24 meses, houve desaceleração do ritmo de contratações. 

MUITAS GENEROSIDADE

Para os leitores entenderem como fui generoso na proposição de crescimento de apenas 10% em sete anosno estoque da atividade que mais gera riqueza na região, está evidente que não seria necessário muito dinamismo para alcançar resultado satisfatório.

A equação é simples: se em 2023, base dos cálculos, havia o estoque de 175.585 empregos industriais, bastará chegar a 193.143 ao fim do prazo estipulado de sete anos. Trocando em miúdos: se ao fim de 2025 o estoque registrou 186.129, bastam mais 7.014 contratações líquidas quando 2030 chegar – os sete anos de corrida rumo à superação do desafio.

O leitor há de concordar que não é preciso fazer malabarismos para atingir a meta traçada com o coração generoso e a alma bondosa com que me lancei a esse desafio. É verdade e confesso o crime: houve um desfile de imposições em muitos desafios formulados e que podem sim ser catalogados como cruéis, incendiadoras de pestanas das autoridades. Querem um exemplo? Então, verifiquem o seguinte enunciado: 

AS MONTADORAS DE VEÍCULOS VÃO AUMENTAR A PARTICIPAÇÃO RELATIVA NO SETOR INDUSTRIAL DA REGIÃO EM FUNÇÃO DE NOVAS QUEDAS DE OUTRAS ATIVIDADES DO SETOR PRODUTIVO. PERSPECTIVA CONTRÁRIA: ZERO PONTO. 

Vou traduzir o que parece hermético: mesmo que os resultados dos sete anos programados não sejam lá essas coisas para o setor automotivo da região, a verdade é que o setor automotivo da região vai manter-se mais relevante que os demais setores industriais, porque os demais setores industriais da região não têm fôlego para competir com outros endereços do Estado e têm demonstrado ao longo dos anos que não podem ser chamados de cadeias de produção no sentido expansionista da expressão.

INFLUÊNCIA GERAL

Se o leitor ainda não entendeu essa bagaça, vou tentar ser ainda mais didático: por mais que as montadoras da região percam ainda mais o fôlego e as pernas, por mais que derrapem na curva da concorrência agora acirrada com os asiáticos, principalmente os chineses, dependeremos mais ainda dos resultados do setor entre outras razões porque a ressonância desses resultados atinge a estrutura industrial do Grande ABC como um todo.

O emprego industrial é pouco debatido e, mais que isso, valorizado na região. Valorizado no sentido social, não necessariamente trabalhista que, ao longo dos anos, tornou-se ativo de ações e discursos dos sindicalistas. Ações e discursos que murcharam há muito tempo diante dos resultados estrondosamente sofríveis que a reestruturação interna da indústria brasileira, e os efeitos dos ataques dos invasores, impuseram.

Tenho alguns resultados que transformam em sensibilização definitiva sobre a tempestade que abateu a região no setor industrial. Poderia expandir ou restringir os marcadores temporais para provar o que é desnecessário provar. Ou seja: estamos com a bunda de fora quando se trata de sentir os efeitos ruinosos já consolidados.

LULA, FHC, DILMA

Vamos pegar, por exemplo, o ano de 2010, quando Lula da Silva deixou a presidência e o Brasil.  Foram dois mandatos anabolizados pela exportação de commodities. O governo Lula da Silva ergueu barricada de exposição do PIB, que, em média, avançou 4,2% ao ano, considerando-se o período de oito anos. Quem pegar esse período de oito anos verá que Lula da Silva deixou estoque industrial no Grande ABC de 226.410 trabalhadores.

O estoque de industriários avançou no período lulista(2003-2010) exatamente 73,03%, ou média anual de 9,13%. Deve-se levar em conta que Lula da Silva encontrou o terreno arrasado por Fernando Henrique Cardoso. Durante os oito anos de FHC, o Grande ABC perdeu 72.712 empregos industriais com carteira assinada. Os números às vezes flutuam, por causa de metodologias alteradas, mas foi uma loucura mesmo. Eram 238.077 trabalhadores em 1994 e se tornaram 165.365 em 2002.

É claro que o Grande ABC jamais viverá algo semelhante ao que se registrou com Lula da Silva e provavelmente durante os anos FHC. Como, aliás, já mostram os três primeiros anos do terceiro mandato de Lula da Silva. A média anual do crescimento do estoque acumulado no período de 36 meses não passa de 2,97% --- eram 177.228 carteiras assinadas em 2022, último ano de Jair Bolsonaro.

BURACO PÓS-LULA

Mas o período de mandato duplo de Lula da Silva, que além de recordista da balança comercial também se notabilizou pelo excesso de gastos e, mais que isso, de contratação de custos permanentes com série de iniciativas, foi sucedido por Dilma Rousseff. O Grande ABC viveu a maior recessão da história, com queda do PIB de 22% entre a base de 2014 e o topo de 2016, quando Dilma Rousseff acabou sofrendo impeachment. O estoque industrial deixado por Lula da Silva, de 226.410 carteiras assinadas, caiu para 159.890 com Dilma Rousseff. Uma perda líquida de 96.520 trabalhadores do setor. Mais, portanto, que FHC.

Nove anos depois do desastre Dilma Rousseff – entre 2017 e 2025 -- o estoque de trabalhadores industriais do Grande ABC recuperou 26.239 carteiras assinadas. Há, portanto, entre a base lulista de 2010 e o terceiro ano de mandato do mesmo Lula da Silva (186.129) uma queda líquida de 40.281 trabalhadores industriais.

Foi por conta desse histórico que, em fevereiro de 2024, formulei aquele enunciado sobre emprego industrial. Considerava e considero que seria praticamente impossível não recuperar pelo menos 10% sobre o estoque deixado por Lula da Silva. Quem acredita que será possível zerar o déficit do emprego industrial em relação ao balanço de 2010 de Lula da Silva  é otimista demais . Percebeu o leitor, portanto, que fui mesmo muito generoso ao estabelecer a meta em forma de desafio tendo a data-base da contagem de empregos industriais o ano de 2023. Se voltasse um pouco mais no tempo, não seria desafio. Seria crueldade demais. E crueldade demais retira o combustível da esperança.



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