Há três frases sequenciais e complementares na entrevista do Diário do Grande ABC com o novo comandante do Clube da Saúde do Grande ABC, oficialmente Fundação do ABC, que merecem atenção especial. Mais que especial: especialíssima. A declaração do médico Aldemir Soares passou batida, mas é o melhor de tudo que foi impresso. Ele teria mandado o seguinte recado: quem viu a FUABC viu, quem não viu a FUABC vai ver diferente? Tudo não passaria de jogo de cena?
O conteúdo das três frases é desafiador à avaliação do que pretende o novo dirigente. Tomara que pretenda o que estou imaginando. E o que estou imaginando seria um passo importante que possivelmente não agradaria aos paços municipais, excessivamente mandantes na instituição. Seria isso possível?
Como os prefeitos abririam mão dos tentáculos que manipulam desde sempre e transformam a ocupação da instituição numa corrida de revezamento em que todos acabam ganhando?
A dúvida que mantenho depois de ler e reler o que vou explicar em seguida é se de fato a mensagem do dirigente da Fundação do ABC é algo com contornos reestruturantes ou não teria passado mesmo de uma intenção que não sairia do terreno do desejo. No fundo, o desejo seria mesmo dar uma certa reconfiguração de poderes explícitos e implícitos àquela Casa da Moeda?
COERÊNCIA REFORMISTA
Como não acredito que uma liderança do alto de mais de R$ 4,4 bilhões de orçamento anual diga o que disse sem que alguma coisa significativa não esteja nos planos, prefiro ficar com a possibilidade de uma mensagem sutilmente imperceptível para a maioria que supostamente só percebe o movimento das pedras quando as pedras estão aparentes, não sob águas de dissimulação.
Não é exclusivamente o conjunto de frases sequenciais que se completam o combustível inflamável que sinalizaria o que poderia haver de revolucionário no planejamento do dirigente do Clube da Saúde. A prospecção levaria à possibilidade de mudanças ocorrerem nessa organização que está longe de contar com passado glorioso em qualquer sentido. Principalmente institucional e técnico. Basta ver como estão os três municípios que a sustentam (Santo André, São Bernardo e São Caetano), no Campeonato Brasileiro de Saúde. Trato disso longo abaixo.
Toda a entrevista ao Diário do Grande ABC carrega um tom de coerência reformista que, entretanto, não assegura maiores aventuras especulativas. O presidente da FUABC é cuidadoso ao extremo. Tudo que necessariamente poderia parecer mudança também pode necessariamente significar mudança alguma, apenas medidas cosméticas trabalhadas por marqueteiros de plantão. Os mesmos marqueteiros ou parentes dos marqueteiros que fazem do Grande ABC a oitava maravilha do mundo. Até que, claro, como se viu hoje em manchetíssima do Diário do Grande ABC, contamos com mais de um milhão de inadimplentes, segundo a Serasa. É gente que deve a deus e ao diabo.
Vamos ao que interessa, ou seja, às frases do presidente do Clube da Saúde. Para tanto vou reproduzir o questionamento do Diário do Grande ABC (o primeiro da entrevista) e, na sequência, a declaração de Aldemir Soares:
DIARIO DO GRANDE ABC – O senhor assumiu a presidência da FUABC e, em sua primeira entrevista à imprensa, afirmou que queria primeiro tomar conhecimento da situação da instituição. Após esses primeiros dias, qual é o diagnóstico inicial do cenário encontrado?
ALDEMIR SOARES – Realmente, a Fundação está maior do que eu até imaginava. Não completamos nem um mês ainda e, como tem muito campo de trabalho, não é uma empresa concentrada em um edifício só, leva um tempo maior para reconhecer tudo. Pretendo visitar todas as unidades, que até agora, praticamente , não deu certo. Hoje acho que tem uma situação que acho estável. Tem umas questões que precisam ser resolvidas, mas eu acho que estão equacionadas. Estamos trabalhando para que a Fundação se sustente sempre, talvez em outro modelo, sem pensar muito que cada Município tem a sua vez. A vez tem de ser a da Fundação sempre, não importa quem está na presidência. Fazer algo mais unificado.
ESCLARECENDO
Feitas as transposições, volto a campo. O leitor percebeu o ponto crucial da declaração? Se percebeu, matou a charada. E constatou, também, que faltou capturar o fio da meada de uma entrevista que poderia ser melhor, menos protocolar. O grande mote da entrevista foi desperdiçado. E, se aproveitado, deveria alterar todo o rumo da entrevista.
O entrevistado deixou evidente que o modelo com o qual foi concebida a Fundação do ABC há muitas décadas não funcionaria mais como ferramenta de gestão. No restante da entrevista, essa impressão passa para o terreno de conjecturas. Sim, o rodizio protocolar que a cada dois anos reserva a troca de presidência do Clube da Saúde sempre sob o controle do prefeito da vez, de acordo com o ciclo regulamentar de substituição estatutária, já se esgotou.
A Fundação do ABC precisa (agora vou muito além do que estaria nos planos do novo presidente) de uma reforma integral nas bases legais com que administra mais de R$ 4 bilhões (repito para que não haja dúvida) a saúde pública das três cidades.
Todo o mundo sabe que o sistema de rodízio presidencial da Fundação do ABC é uma farra do boi há muito tempo. Na dúvida em saber se o Clube da Saúde é uma caixa-preta ou uma caixa de marimbondos, o melhor e mais ajuizado mesmo é abraçar as duas alternativas. Não são modelos excludentes. É ingenuidade imaginar escândalos na área de saúde nos três municípios sem que a Fundação do ABC não esteja envolvida.
E estaria envolvida mesmo quando parece não estar. Agora mesmo o que se tem são informações lastreadas em documentos de investigações criminais que colocam a entidade no roteiro de denunciadas irregularidades do prefeito Marcelo Lima, de São Bernardo.
ORDEM SUPERIOR
Antes disso, Paulinho Serra teria também participado de algazarras durante e pandemia do Coronavírus, como constatou órgãos federais. Quando um prefeito indica parceiros para o Clube da Saúde, (e esse é o padrão quando se acerta a chegada de novo presidente) o que se tem, tradicionalmente, é festança envolvendo os três municípios. O sincronismo impera mediante negociações do novo ocupante presidencial.
Se o presidente Aldemir Soares fizer o que deixou nas entrelinhas da primeira resposta ao Diário do Grande ABC, de fato poderemos acreditar em ordem superior vinda possivelmente do governo do Estado para que se coloque ordem na instituição. E de novo prevalece um tom de dúvida: as forças externas teriam mesmo como fazer da FUABC algo bem diferente do histórico comprometido por fatores internos?
Não tem sentido o uso do dinheiro dos contribuintes, que é o dinheiro dos impostos, encaminhado ao milionário Clube da Saúde do Grande ABC permanentemente e declaradamente sob controle político-partidário sem condicionantes técnicas.
GESTÃO PROFISSIONAL
Uma administração profissional, assentada nos melhores exemplos da atividade, inclusive no ambiente privado, onde competitividade e concorrência fazem a diferença entre crescer e perecer -- eis o melhor script para a gestão da Fundação do ABC. Estaria o presidente dando o recado ao acenar com o fim de mandatos em rodízio? Teria, finalmente, o Clube da Saúde uma diagramação de poderes que interditaria o acesso a novas impropriedades?
É nesse ponto que a expressão caixa de marimbondos deixa a metáfora para ingressar num terreno tradicionalmente minado. Há muitos interesses conflitivos em jogo. A prevalecer o ambiente político-administrativo, todos sabem, há sempre válvulas de escape acomodatícias para evitar os estragos típicos de abelhas enraivecidas.
Entre a caixa de marimbondos e a caixa-preta, de acertos que garantem a governança e a governabilidade da Fundação do ABC, há uma simbiose perfeita, Menos quando, em raras oportunidades, o Ministério Público resolve acabar com a batucada de ganhos mútuos.
O fato que não pode deixar de ser ressaltado é que a Fundação do ABC está a léguas de distância de governança e governabilidade acima de especulações que a colocam em alinhamento permanente com a falta de transparência pública e, com isso, gera suspeitas mais que fundadas. Com perdão do trocadilho.
Há todo um arcabouço aperfeiçoado ao longo da história que coloca o Clube da Saúde numa plataforma de inviolabilidade à curiosidade pública. As instâncias internas foram azeitadas para cristalizar bloqueio a qualquer tipo de contestação. Somente quando os abusos ultrapassam todos os limites explodem bombas relógios que colocam em risco toda a organização. A internet está repleta de provas vivas desse enredo. Esta publicação digital também. Temos 199 registros de “Fundação do ABC” no acervo de CapitalSocial. E não faltam escândalos.
RANKING COMPLICADO
Sobre o comportamento da saúde dos três municípios que integram a Fundação do ABC, resultado da temporada passada do Ranking de Competitividade dos Municípios Brasileiros, Santo André ocupou a posição 231 no conjunto de indicadores de Acesso à Saúde e a posição 148 em Qualidade da Saúde. São Bernardo ficou nas posições 41 e 145, respectivamente. São Caetano classificou-se na posição 61 em Acesso à Saúde e na posição 12 em Qualidade da Saúde. Convém lembrar que esses posicionamentos estão dentro de uma dimensão de 404 municípios brasileiros com mais de 80 mil habitantes.
Não quero estender essa análise com ponderações que poderiam e devem aliviar parte do peso de enquadramento do conjunto dos três municípios em posições relativamente desconfortáveis – especialmente Santo André e um pouco menos São Bernardo. Vou deixar essa abordagem para outra ocasião. O certo mesmo e que a saúde do Grande ABC (e agora incluímos os demais municípios por serem vasos comunicantes de demandas dos serviços) está muito abaixo de outras localidades com recursos per capita muito menos expressivos.
A situação se deve a um fartura de fatores, entre os quais, principalmente, o divisionismo territorial do Grande ABC em sete partes e as mais que evidentes rupturas em ganhos de escala, um dos elementos métricos mais evidentes de produtividade dos recursos orçamentários. A Fundação do ABC não consegue apagar o fogaréu de desajustes entre outras razões porque virou um clubinho suplementar dos prefeitos politicamente mais importantes do Clube dos Prefeitos.
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18/02/2026 A VERDADE SOBRE O CARNAVAL REGIONAL