Política

PL usa TV para exigir de
empresas obrigação do Estado

DANIEL LIMA - 13/02/2002

Os filmetes que o Partido Liberal introduziu na programação das emissoras de TV durante os dias de Carnaval mostram até que ponto a política atravessa o ritmo quando o objetivo é meramente eleitoral. O garoto-propaganda do PL em São Paulo, Waldemar da Costa Neto, também presidente nacional do partido, apresentou o senador e empresário José de Alencar, de Minas Gerais, como exemplo de porta-estandarte empresarial. O possível vice-presidente na chapa de Luiz Inácio Lula da Silva é dono de um dos maiores conglomerados têxteis do País e, à falta de competência do governo federal, estende para anunciados 16 mil trabalhadores e seus familiares uma rede de proteção social que vai da educação à alimentação. No final do filmete, o garoto-propaganda afirma que José Alencar é o patrão que todos os brasileiros gostariam de ter.


Para um representante do Partido Liberal, o equívoco é indesculpável. Fosse o programa de qualquer outra agremiação partidária, a bobagem não seria tão desproposital. Leitura atenta do estatuto da agremiação certamente configurará traição às tradições do liberalismo brasileiro.


Um Estado que arrecada em impostos 34% de toda a riqueza gerada, o chamado PIB, jamais poderia se dar ao desfrute de deixar à mingua grande parte da população. E muito menos obrigar a classe média, que paga extraordinárias contas às mais diferentes formas de governo, a despender grande parte de recursos financeiros em atividades típicas do Estado, como educação, saúde e segurança.


O discurso de Waldemar da Costa Neto, como se observa, beira a estupidez. Não que a iniciativa privada deva fechar os olhos às mazelas sociais. Quem nos acompanha sabe o quanto incentivamos e defendemos a participação do empresariado no que se convencionou chamar de responsabilidade social.


Daí, entretanto, como tenta fazer crer o representante do PL, considerar obrigatória a inserção do capital onde o Estado é regiamente pago para tal, vai enorme diferença. O contraponto para a exclusão social da base e do topo da sociedade brasileira não é, convenhamos, a inversão de obrigações. Um Estado que arrecada tanto tem por obrigação cuidar do social.


O fato é que, em ano eleitoral, todo mundo quer tirar uma casquinha das desgraças nacionais. A oportunidade que se oferece pela legislação nacional, que torna gratuita a intervenção televisiva, contrariamente ao que ocorre nos Estados Unidos, geralmente é tratada com pirotecnia. A temporada de demagogia, como se observa, já começou. Se o Partido Liberal chega ao ponto de inverter o raciocínio mais elementar e substitui a obrigatoriedade da eficiência do Estado malversador pela compulsoriedade da privatização a fundo perdido da rede de serviços sociais eminentemente de responsabilidade do governo, o que se pode esperar de outros partidos, descaradamente avessos ao mercado?


O equilíbrio de funções entre Estado, mercado e sociedade — modelo que torna o capital mais socialmente responsável, o Estado mais democrático e eficiente e a sociedade mais participativa — parece que não chegou ao conhecimento do garoto-propaganda do PL. É uma aberração a mensagem subliminar que deixou no vídeo, de que todos os “patrões” que não seguirem o receituário do empresário mineiro não servem para o País. Nem os dinossáuricos membros do PSTU seriam capazes de tamanha desfaçatez, porque pelo menos eles são coerentes em defender uma sociedade “sem patrões”.


Perguntem a qualquer brasileiro com um mínimo de discernimento — por exemplo, o um terço dos empreendedores que está na informalidade porque não suporta o peso tributário do Estado — o que acha da avaliação de Waldemar da Costa Neto. Um simples gesto resume o desprezo que a ele deve ser dedicado: uma vigorosa banana.


Perguntem aos brasileiros que sequer conseguem viver à sombra de um capitalismo sufocado pelo Estado e que engrossam as estatísticas mais sérias sobre desemprego como observam a intervenção televisiva de Waldemar da Costa Neto e receberão como resposta uníssona uma reprovação irritada.


O PL televisivo desafinou na avenida do bom senso. Sua alegoria doutrinária foi escorraçada. Esquece o deputado-garoto-propaganda que o conglomerado do senador mineiro José Alencar é uma das exceções do capitalismo nacional, dominado por pequenas empresas que mal se sustentam em meio ao cipoal de impostos. Nem Lula, com todo o rompante socialista que ainda o caracteriza, seria capaz de formular tamanha aberração.


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