Política

Memória eleitoral

DANIEL LIMA - 02/08/2007

Especulações sobre candidaturas aos paços municipais do Grande ABC não faltam nesta pré-temporada eleitoral. Tampouco carecem de promotores ingênuos ou açodados. Fazem um vendaval com nomes que não valem uma brisa na carteira de apostas. Tudo bem que jornais precisam parecer novidadeiros a cada edição, mas é exatamente por isso, por pretenderem-se novidadeiros, em vez de se apresentarem de fato como algo renovado, que acabam se perdendo nas brumas de interesses que podem parecer estranhos.


Convenhamos que o jurista Tito Costa, prefeito de São Bernardo num período em que a oposição elegia até poste, não tem fôlego para se apresentar como terceira via em São Bernardo. Primeiro porque terceira via é abstração naquele território em que os governistas deverão optar pela dupla Maurício Soares-Orlando Morando e os oposicionistas com Luiz Marinho-Frank Aguiar ou outro qualquer. Segundo porque Tito Costa já viu há muito tempo a banda da oportunidade de voltar ao Paço Municipal passar. Terceiro porque, entra eleição, passa eleição, eis que ele aparece faceiro para divulgar pretensões de recuperar o cargo.


Nada contra o ex-prefeito e jurista brilhante. Melhor explicando, para que não haja confusão: ex-prefeito de um lado, jurista brilhante de outro, porque o governo de Tito Costa não passou de algo insosso no período em que o sindicalismo recrudescido e a ditadura militar em fase de questionamento interno promoveram algumas pelejas monumentais. Tito Costa jamais foi bobo e não perdeu a oportunidade para surfar na onda contestatória de um PMDB que depois acabou sucedido na retórica pelo PT que por sua vez cedeu espaço ao PSOL.


Então, perguntaria o leitor: por que Tito Costa reivindica um pedaço do bolo eleitoral no ano que vem, munido que estaria de supostas pesquisas preliminares? Exatamente por isso — por causa de supostas pesquisas preliminares.


A memória eleitoral bafeja políticos do passado com índices razoavelmente expressivos, quando confrontados com a gelidez dos adversários mais jovens e, portanto, não muito conhecidos. Apenas por isso, tão-somente por isso. Tanto Tito Costa quanto outros concorrentes de outros municípios, integrantes da velha guarda de ex-prefeitos, ex-deputados, ex-qualquer coisa, aparecem na audiência eleitoral.


O interessante é que todos os executivos públicos que giram em torno da política partidária, quer em cargos de comando, quer como assessores, sabem que a memória eleitoral para casos como de velhos caciques desalojados do poder é algo tão extraordinariamente influente nas urnas quanto a introdução de alguns gramas de maconha no tanque de um veículo. Não entendeu? Quero dizer que significa praticamente nada, porque dificilmente acrescentará qualquer poder de combustão.


Fosse a pauta jornalística menos conservadora e repetitiva, matérias correlatas às de casos como de Tito Costa e de outros anunciados concorrentes menos votados simplesmente seriam banidas do noticiário. Ao editá-las, os jornais perdem oportunidade de levar aos leitores textos mais comprometidos com transformações que se esperam da atividade pública. Além disso, evitariam ou pelo menos reduziriam a carga de pressão psicológica que esses candidatos de brincadeira exercem sobre cofres públicos, já que na maioria dos casos eles representam de fato interesses que estão muito além da disputa democrática da preferência do eleitorado. O que querem mesmo é manter nacos de pequenos poderes burocráticos através de correligionários contratados em comissão ou estatutários.


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