Política

A Arte da Guerra

DANIEL LIMA - 05/10/2007

Os bastidores das prévias do Partido dos Trabalhadores em Santo André, que vão decidir a candidatura da agremiação ao Paço Municipal, na sucessão de João Avamileno, inspiram-se nos ensinamentos de Sun Tzu, em “A Arte da Guerra”. Aliás, o tratado militar escrito durante o século IV a.C. reúne 13 capítulos, tal qual o número de guerra eleitoral do PT. Mas também não faltam ameaças de luta livre.


Os militantes petistas estão divididos entre correligionários da vice-prefeita e secretária Ivete Garcia e seguidores do deputado estadual Vanderlei Siraque.


A contabilidade prévia, para variar, é mutante. Os números dependem de interlocutores. Mais que a precisão matemática, o que vale é a sujeição, a indução, o pressuposto geralmente esperto de que determinado concorrente já ganhou a parada ou caminha celeremente rumo à glória. São perto de três mil filiados com direito a voto, mas não mais que dois mil irão às urnas em 11 de novembro, segundo projeções.


A perspectiva de Ivete Garcia vencer a disputa preliminar colocaria o Paço Municipal aparentemente em posição mais uniforme de progressão na disputa eleitoral do ano que vem, quando provavelmente o advogado Raimundo Salles será o principal oponente. Aliás, “A Arte da Guerra” é uma das leituras preferidas de Raimundo Salles.


Com Vanderlei Siraque se consolidaria ruptura administrativa em setores importantes do governo municipal. Muito do que Celso Daniel e o grupo restrito de cabeças pensantes deixaram já foi para o espaço, mas ainda há rastros físico-materiais e filosóficos que João Avamileno, que não gosta de divididas, preservou.


Muito se fala também do posicionamento considerado ambíguo de João Avamileno, que contaria com cerca de 20% dos militantes que decidirão no voto quem vai para o turno decisivo das eleições municipais. Uma comitiva do governo federal anda a frequentar o Paço Municipal em doses homeopáticas para redirecionar intenções de João Avamileno de manter-se distante do embate, segundo versões da candidata Ivete Garcia. Já os eleitores internos de Vanderlei Siraque desqualificam a suposta intervenção do governo Lula da Silva.


Manter-se distante, segundo a versão de maior audiência, seria João Avamileno assumir apoio a Cláudio Malatesta, um dos quatro concorrentes oficiais e com o qual reúne laços familiares. Estar com Malatesta teria o mesmo sentido de não meter a mão na cumbuca. Uma versão de Pilatos da qual os petistas mais graduados discordam.


O outro concorrente oficial, Ivo Martins, está mesmo em busca de espaço na máquina por conta de correligionários que agregou no diretório petista ao longo dos anos.


A pressão sobre João Avamileno o torna refém de estresse que não exibe em público, porque não é de deixar-se flagrar pelo descontrole. Enquanto os mais estrelados petistas querem Ivete Garcia, os familiares mais próximos apontam o dedo em direção a Vanderlei Siraque. O filho Fabrício, por exemplo, é assessor especial de Siraque. Por assessor especial pode-se entender tudo, inclusive proximidade intensa com o próprio Paço Municipal, a despeito do maciço apoio a Ivete Garcia entre o secretariado. Siraque também não perde tempo. Em entrevista a emissora de TV sugeriu apoiar João Avamileno nas eleições a deputado estadual.


Enquanto o PT pratica contorcionismo típico de quem precisa dar um nó nos próprios dramas, os adversários não perdem de vista a movimentação de peças de enxadrismo que, esperam, possa levar ao xeque-mate em outubro do ano que vem. E como dissimulação faz parte do jogo de cena, não faltam aqueles que juram por todos os juros que este e não aquele concorrente petista seria o mais indicado como adversário a ser batido. O dialeto da política partidária é essencialmente malabarista. Geralmente o que se diz não é o que se pensa.


Diante de algumas situações históricas e conjunturais, desautorizo quem quer que afirme em meu nome que o PT vai concluir o terceiro mandato seguido sem possibilidade de continuar à frente da Prefeitura. Até prova em contrário, a grande oportunidade da oposição foi desperdiçada em 2004 porque a Frente Andreense do Atraso era uma colcha de retalhos cuja especialidade se manifestava na hostilidade imbecil à Imprensa que julgava adversária maior que a própria candidatura petista.


Com o governo Lula da Silva nadando de braçada e o controle da máquina pública em Santo André há mais de uma década, só uma grande surpresa colocaria Raimundo Salles na Praça IV Centenário em janeiro de 2009.


Entretanto, como em política surpresas fazem parte do roteiro, é melhor não subestimar o mais atrevido adversário do PT que, convenhamos, está anos-luz à frente dos oposicionistas de 2004, um bando de aloprados a distribuir ameaças de morte aqui e acolá.


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